pra boa escrita: dá um esc na rita

Uma amiga minha, chamada Rita, me contou que leu na biografia da atriz sua homônima, Rita Hayworth, um episódio pitoresco. Depois de ter feito o filme que a consagrou, “Gilda”, personagem sensual e sedutora, a atriz disse que os homens dormiam com a Gilda e acordavam com a Rita. Quer dizer, iam para a cama com a ideal e acordavam com a real. Belos tolos.

Entretanto, essa contraposição me fez lembrar uma frase que publiquei em um artigo de minha autoria, em que dizia: “Entre o verme e o anjo oscila o homem, debatendo-se em meio a suas duas naturezas”. O artigo, de quando ainda universitário estudante eu era, intitulava-se “Sejamos humanos”. Hoje, chistosamente, eu diria “sejamos humanos, se não homenos”, em que se pode ler “ho-menos” e “home-nos”, indicando uma espécie de poética pareidolia verbal, também referida alhures.

Assim é que nos permitimos ler em escrita “esc – rita”, teclinha tão útil na telinha macro do meu micro. O significado “escapar” parece indicar ser preciso fugir a limitações de qualquer ordem na escrita de um texto, porém não ao par Rita/Gilda, desde que um norte implica um sul, aonde vamos e onde estamos. Se é verdade que a palavra vem do inconsciente e que este se estrutura como linguagem, nos dizeres de Lacan, e que a relação intrapessoal precede e matiza a interpessoal, não se deve ter exagerado respeito pela palavra, mas intimidade, desde que, como expressa a palavra “expressão”, expressão significa “pressão para fora”. De onde terem razão os poetas/escritores modernistas, entre os quais Mário de Andrade, que aconselhava o aspirante a escritor não ter censura alguma com a palavra que ele se permita deixar vir à tona e, pois, à escrita, agora sem a divisão Gilda/Rita – escrita/ esc-rita. Tenho escrito, cotidiano rito.