poeta: coautor de si mesmo

Poeta, coautor de si mesmo

Uma amiga minha, poeta porém que nunca fez formalmente um poema, vem a confirmar minha tese da coautoria do poema e de que o poeta, também ele, é coautor de si mesmo. Certa feita fiz um poema assim:

de dentro de minhas entranhas

tua estranha imagem extrai tamanho encanto

que meus olhos

repousados

respondem sim ao próprio espanto

Quando lhe mostrei o feito, minha amiga ficou tão sensibilizada, que, sem eu saber, levou o poema para a nossa turma de amigos, em maioria professores da área. Sob a orientação da missivista, teriam se posto a conjecturar sobre quem seria o autor do objeto poético em questão. Entre os conjecturados poetas, contou-me ela que a amiga tal disse este, o amigo aquele, aquele, e entre estes e estas e aqueles e aquelas constaram nomes como (suspiro…!) Dylan Tomas.

Senti-me, mesmo, lisonjeado ao saber do julgamento a que eu fora submetido sem o saber então, e descobri, mais tarde, que a amiga em referência chegou, mesmo, a manuscritar a prima obra e a colocá-la sobre o espelho de sua penteadeira.

Passaram-se alguns meses, e por algum movimento do irrequieto inconsciente me veio o impulso de rever/revisar/reformar o tal poema, e com a aquiescência do consciente assim ficou/fiquei:

de dentro de minhas entranhas

tua estranha imagem extrai tamanho encanto

que meus olhos

extasiados

exclamam sim ao próprio

espanto

Em que troquei o repousados/respondem do primeiro por extasiados/exclamam do segundo. E o excesso de “ee” veio, agora, ser confirmado pelo título, até então inexistente, mas que depois de então me ocorria, qual seja: exagero. Minhas estâncias estéticas ficaram então entusiasmadas, e comuniquei o “aperfeiçoamento” do poema à amiga poeta/poetisa. Ela não aceitou nem aceita a reformatação. Segundo ela, o poema é, mesmo, o primeiro; primeiro eu, o poema é, mesmo, o segundo, mesmo (e talvez por isso mesmo…) com toda a hiperestesia que se me lhe impus.

Finalizando por ora, finalizo com resposta que dei a uma amiga carioca que me pediu que confirmasse sua afirmativa de que o poeta carioca Vinícius de Moraes deveria ser lido com sotaque carioca. Disse-lhe, pois: o poema tem de ser lido com o sotaque do leitor!

Dito e feito, dito efeito.

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