Mais poemínimos

estimulado e estimado por uma amiga, resolvi a intriga: entregar outros poemínimos. ei-los:

poematéria

o que é que o Mestre via:
a Mater ou a Matéria
quando olhava pra Maria?
=.=
meio sem jeito
bem te ajeito no meio do peito
e todo me ajeito
;-.-
a solução nem sempre está no soluço
às vezes ouço o sol
às vezes o recurso é fazer um curso de urso
=.=
todo mundo tem do mundo a vista que o mundo alcança
.-.-
o vencedor
primeiro
vence a dor
.-
Limpo da cabeça aos pés
dá cabeça aos pés
O vate vaticina: poeta – profeta
.-.-
caminhar com a amada
caminhada amada
mais nada
.-.-
falo fala
sua boquinha cabe
no abraço dos meus beijos
-.-
solidão

sob o céu de prata
na rua, fitando a lua
uiva o vira-lata
.-.-
solidão

eu na minha
você na sua
entre nós
o buraco da lua
.-.-.-
your word´s a sword
.-.-
METAPOEMA

pro poeta
toda palavra é meta
é rito
é porta aberta pro infinito…
.-.-
METAFÍSICA

voltando de onde não fui
fico no mesmo lugar a que parti
.-.
em poesia
sede breve
poetar com água poetável
só se mata de leve
.-.-
a brancura
poeta
não polua
aspire-lhe o pó
e deixe só lua
;=;=
por hoje é sol

Poemínimos

hoje resolvi oferecer uns poemínimos à degustação de quem os possa apreciar

ELOQUÊNCIA

no meu canto
tanto falo
quanto calo
porencanto

AMBIQUALDADE

somos tão ambos
cada qual
que estamos mais pra
ambigualdade

HAICAI

doente e a esmo
bate o coração do vate
mas bate assim mesmo

AUSÊNCIA

na cadeira vazia
o balanço de ontem

DRUMMONDEANDO

no meio do caminho
pedra eterniza
caminhada que não houve

DILERRIMA

expludo
ou fico mudo
quando me desiludo
de tudo?

Amor e humor/ hamor e umor

AMOR E HUMOR
Ao longo dos séculos o cristianismo católico tem demonizado o humor, em cuja vertente irreverente se dessacralizam personalidades que merecem admiração, veneração e, pois, respeito. Daí o preconceito contra a alegria, refletido em adágios como “muito riso, pouco siso”, amiúde associada a leviandade, tolice, falta de juízo. Daí também a noção de que a sisudez (de siso) é sinônimo de seriedade, quando na maioria das vezes é apenas expressão do neurótico medo de soltar as amarras a cuja tirania submetem tua liberdade, já que o riso solta, liberta, libera. Na contramão, há o adágio “rir é o melhor remédio”, o que talvez aponte para o papel terapêutico do riso, uso que tem sido introduzido no tratamento de crianças hospitalizadas. Diga-se ainda que o riso devolve a lucidez perdida, e que, ao contrário do que se é levado a crer, quanto mais desperta espiritualmente a pessoa, tanto maior humor apresentará. Sobejam exemplos dos grandes luminares da humanidade: Jesus, Buda, Osho, etc. O bom humor de Jesus é escamoteado por aqueles que se apropriaram de seus ensinamentos, com o intuito de submeter, condicionar ou, drasticamente, escravizar. Daí ter sido a alegria banida dos drásticos espaços eclesiásticos, não plásticos nem elásticos. Obviamente, cremos, a referência é ao humor solidário, não sarcástico. Exemplo do espírito humorístico de Cristo Jesus está no trocadilho que fez com o nome de Pedro. Como Pedro significa, em latim, justamente “pedra”, diz o Mestre que faria de Pedro a pedra fundamental de sua igreja. Exemplos análogos podem ser colhidos da vida de Buda e Osho. É sabido que Gautama proibia seus discípulos de fazerem milagres. Consta que um deles, em decorrência da meditação a que se entregara, começou a levitar, e Buda disse: continue meditando que isso passa. De Osho são incontáveis os exemplos registrados pelos discípulos. E aqui temos o humor em sua função de didática espiritual e espiritualizante, já que o mestre indiano inseria sempre em sua fala oportunas expressões de humor (piadas, chistes, trocadilhos…), as quais sempre vinham ao encontro de suas exposições e auxiliavam na compreensão intuitiva do que ele pretendia comunicar. E a eficiência da técnica fica confirmada no riso produzido, já que a maior prova de que alguém compreendeu um texto pela extrapolação da fria materialidade da palavra é quando consegue rir pela apreensão intuitiva e inextricável do sentido.
E assim como o amor o humor tem um mistério. Não obstante o quase atávico interesse que despertam, estão longe de ser compreendidos. E sua relação não se configura apenas na materialidade da rima, mas na matéria-prima de que se constituem, já que ambos liberam e libertam, são sagrados, transcendentes, pelo menos levam à extrapolação dos costumeiros limites a que estamos sujeitos na faina cotidiana.

Mais especificamente sobre o humor, o efeito que dele sempre se espera, o riso, é antevéspera do sagrado: primeiro vem o riso, a seguir o silêncio, e então o sagrado. O riso provoca uma espécie de higiene espiritual e nos faz transcender nossas crenças. Estamos nos referindo ao riso solidário, não ao tendencioso, embora a maior densidade deste também tenha o seu lugar. Finalmente, três obras inaugurais que discorrem sobre o humor: “O chiste e suas relações com o inconsciente”, do psicanalista Siegmund Freud, “Os humores da língua”, do linguista Sirio Possenti, e “O riso”, do filósofo francês Henri Bergson. A todos boa leitura; o bom riso fica para depois.

Carma: pode ser vendido?

CARMA, PODE SER VENDIDO?

Já se tornou proverbial afirmar que o mundo acolhe muito bem os ingênuos. A ingenuidade ou inocência, aqui tomadas como sinônimas, não é senão outra expressão para a falta de consciência. O grande lance do universo é produzir consciência; no plano humano, autoconsciência e, no plano mais amplo, a chamada consciência cósmica, que aqui grafamos em minúscula para manter graficamente a implícita relação que a última guarda com a primeira. Diga-se ainda que, no plano humano, da consciência em acepção de “percepção” decorre a consciência em acepção de “senso moral”, este ainda em desenvolvimento e, portanto, ainda não muito consolidado e generalizado, a lembrarmos que o substantivo “moral” advém de “moralis”, i.e., “relativo aos costumes”. Assim é que, sendo os costumes sócio-históricos, atrelados, portanto, ao tempo e espaço, corroboram a noção de inexistir uma moral universal, ou seja, que se possa aplicar a toda a humanidade. De onde também a asserção de que Deus é amoral (e não imoral), e nossa criatividade linguística nos leva a enxergar amor em amoral, percepção não de todo despropositada já que, como dizem cosmogonias da maioria das religiões: “Deus é amor”;       “o amor é a lei de Deus”; “é por meio do amor que Deus governa o universo”, e assim por diante. Aqui talvez devêssemos usar a chamada “maiúscula alegorizante”, a denotar a supremacia desse componente do universo, maior que a sua expressão humana. Não o fazemos por nos lembrarmos do dizer de Agostinho: “quando o homem chega ao extremo do humano, atinge o divino”; o que nos faz questionar a pertinência da expressão “amor incondicional”, algo pleonástica, a nos referirmos ao propalado “amor verdadeiro”, discussão que extrapola os limites a que ora nos cingimos e fica, pois, para outra ocasião. (En passant, ocorre-nos a contraposição “amor humano” versus “amor divino”.)

Digressões à parte, voltemos a nosso tema: carma. Contrariamente ao uso popular do termo, não se trata de castigo, punição, vingança…, mas de compensação, volta ao equilíbrio, “justiça” cósmica, etc. A expressão católico-cristã dos pecados por “pensamentos, palavras e obras” vem em nosso auxílio. A expressão seria melhor formulada em “intenções, emoções e ações”. (Lembre-se que “emoção” vem do latim “ex-movere”, i.e., “mover para fora”, ou seja, aquilo que vem de dentro e sai para fora, e “ação” é a melhor tradução para o substantivo sânscrito “carma”; grafias à parte). Efetivamente, a injunção católico-cristã pode ser tomada como pertinente ao carma e sua aquisição. Entretanto, refere-se apenas à visão negativa do carma, uma vez que aquilo de bom que acontece conosco também é carma. Há quem entenda o “carma positivo” como “darma”, e nos perguntamos em que medida a grafia e a fonética do substantivo os têm impertinentemente aproximado.

 

Esta matéria, porém, não será, talvez, senão pecado por pensamentos, palavras e obras, ou, como imodestamente o dissemos, “intenções, emoções e ações”. Pretende responder (íamos dizer, por força de ofício, “corrigir”) a equívocos que ouvimos na montanha Condor Blanco: de que pode-se vender (e, portanto, comprar) o carma; de que um simples corte de cabelo pode cortar o carma; de que o carma é tão-somente individual.

Em primeiro lugar, o carma é principalmente coletivo, i.e., atinente a grupos das mais variadas dimensões. O principal deles é a família (biológica ou de criação), a de que procedemos e a que de nós procede. Das interações entre as “intenções, emoções e ações” do grupo familiar decorrem as experiências a que o grupo e seus componentes estão sujeitos. Depreende-se disso que os carmas estão entrelaçados, e o dos pais afeta o dos filhos, e o destes se submete ao daqueles. Por amor, ambas as gerações assumem experiências recíprocas, e, contrariamente ao que se propala por aí, só o amor é caminho, não a dor. Esta advém das inadequações aos ditames daquele. Obviamente a referência não é à dor física.

Isso leva à conclusão de que o Supremo Governante não é um um supremo comerciante, nem um juiz aleatório que decide arbitrariamente o destino de seus fregueses humanos. Essa nossa irreverência tem algo de ironia e arrogância intelectual; seja-nos perdoada.

O outro equívoco foi ouvido de uns tantos presentes na montanha e que recorriam ao corte de cabelo “xamânico” (não o cabelo, mas o corte), oferecido por uma índia (ou descendente de…) que reside há anos na montanha. Confesso que aproveitei a oportunidade para me submeter à arte e técnica da cabeleireira, também para ver onde é que “o bicho pegava”, pois havia anos pensava em desbastar minhas (oh…!) madeixas. Saí não de todo insatisfeito com o corte, não com as observações “xamânicas”. Mas dei-me por satisfeito com os poucos dólares ali aplicados. Em tempo, o absurdo de que a indígena cabeleireira cortava o carma junto com o corte de cabelo foi ouvido depois do corte. Ouvi da índia “estás un poco solito, né, Adám”, o que facilmente se depreende de minhas atitudes não exatamente anticelibatárias, mas certamente gregárias.

Finalizando, lembramos a humorística asserção atribuída a Sócrates: não se preocupe: se você casar ou não casar, vai se arrepender do mesmo jeito.

Por hoje é só, pessoal – that’s all folks.

Verdade mentirosa

IGNORÂNCIA FELIZ

 

Estive recentemente na montanha Condor Blanco no sul do Chile. A organização de mesmo nome levava a efeito várias atividades que, embora qualifique de neoxamanismo, são hoje realizadas sob o epíteto “Kin Forest”, isso porque, segundo atestam alguns dos integrantes mais antigos, aquele termo sofreu ataques e achaques.

Razões à parte, em dado momento ouvíamos o sincero relato de um dos aspirantes a xamã, sincero porém equivocado. Narrava ele a história do Papai Noel, que ouvira de pitoresca e espalhafatosa personagem televisiva, cuja imagem colorida e literalmente repleta de fantasia bem se coadunava com o pitoresco relato.

 

Sucintamente, tratava-se de um caçador que sai ao encalço de um níveo urso polar e, após matá-lo, veste a branca pele demarcada pelo rubro sangue do animal. A história “xamânica” provocou suspiros em ouvintes ali presentes, em sinceras manifestações de um “insight” artificialmente provocado.

 

Confesso que no momento quase também me deixei integrar na emoção coletiva, mas meu crítico senso acadêmico me impediu. Cheguei mesmo de início a entregar minha adesão, pela lembrança da poética asserção: “verdade é o que faz bem para o seu coração”. Lembrei também da pertinente contraposição: “você quer ter razão ou quer ser feliz”?

Finda a narrativa e debandado o grupo, fui ter com o dirigente, e disse-lhe: não sei o que você vai fazer com isso, mas você precisa conhecer a verdadeira história. Contei-lhe então sobre Nicolau, personagem que a hagiografia católico-cristã o denomina São, São Nicolau. Observei-lhe ainda que o inglês contemporâneo o cognomina a figura dele decorrente de Santa Claus, em evidente redução do nome original. Expus-lhe igualmente as manipulações do marketing que reconfiguraram o cerúleo manto do personagem histórico e transformaram nas rubras vestes do personagem da mídia, para se coadunar com as tradicionais cores de famoso refrigerante.

 

Ocorreu-me então a velha questão da Filosofia: os fins justificam os meios? Estavam todos felizes (fim), em decorrência de um relato falso (meio)? Lembrei também do poeta libanês Gibran Khalil Gibran, que cria este diálogo entre dois personagens:

– Se você vir um escravo dormindo, não o acorde: ele pode estar sonhando com a liberdade.

O outro responde:

– Se você vir um escravo dormindo, acorde-o e lhe fale de liberdade.

Dei-me então conta de que era ignorância gerando ignorância, ainda que a ingenuidade da primeira corroborasse a inocência da segunda. Felicidade sim, mas a preço de uma mentira? Mentirinha branca, inconsequente, inofensiva… Lembrei também de Sathia Sai Baba, que dizia: nunca fale a verdade… (e completava…) sem amor.

Tenho ainda muitas dúvidas. A mentira ignorante mas eficiente que trouxe lampejos de felicidade. Ah…! o Fernando Pessoa que disse: se você quer enganar alguém por meio de um mensageiro, engane primeiro o mensageiro. Somos todos mensageiros? Dou-me conta de que a ignorância é péssima mensageira. Pergunto-me: será preferível uma mentira que cure a uma verdade que machuque? Não será essa mesma pergunta uma falácia, i.e., uma mentira?

Concluímos, então, que as mentiras mais verdadeiras e as verdades mais mentirosas, que mexem com nossos sonhos mais acalentados e nossos temores mais profundos, se aglutinam magistralmente naquilo que chamamos de arte, a verdadeira arte, misteriosa, intuitiva, plena.

Por hoje é só.

Com o perdão da licença poética

A arte é, por excelência, o espaço da transgressão. Essa afirmação, tão de chofre, tão taxativa, tão de início, pressupõe uma dada conceituação, primeiro, de arte; segundo, de transgressão: que arte admite qual transgressão, qual transgressão se coaduna a qual arte. A questão aqui é, de fato, o conflito ou tensão entre a norma e a forma; esta, ao se impor por necessidade inexorável de sua própria natureza, exigirá que aquela a ela se conforme, quebrando, para tanto, alguns conceitos e anacronismos. Já a primeira, por sua índole uniformizadora, olhará de soslaio os arroubos da segunda; afinal, as forças de conservação não admitem com facilidade as forças de transformação, à semelhança de uma vovozinha que torna sua vozinha um vozeirão a vociferar regras e contrarregras, já que tem a seu favor a legitimada legitimação da legítima legitimidade. (Ou nem tanto…?!) Quando sua voz é contrariada pelas exceções que se revelam adequadas e pertinentes, esconde sua contrariedade na expressão “licença poética”, como a ser forçada a se conformar, inexoravelmente, a instâncias em que “o erro é cabível” (íamos dizer: “melhor”). De fato, cabe indagar quem deve fazer concessão a quem: a forma à norma, ou esta àquela?

 

Assinale-se, não é de hoje que se busca, com algum sucesso, a distinção e/ou parentesco entre a norma e a forma, questão que se sobressai quando se trata do texto poético, em que fica, na verdade, diluída a dicotomia forma x conteúdo, contrariamente ao que se tem propalado por aqueles que só conseguem ver nas transgressões da arte um pouco mais que a (i)legitimidade da própria transgressão.

 

Se a arte é, por excelência, o espaço da transgressão, assinale-se que a referência é à transgressão tão necessária e pertinente, que, sem ela, não há arte. Obviamente, desnecessário dizer, nem toda arte é transgressora, como nem toda transgressão (verdade das verdades…) é artística. Ao afirmarmos isso, temos em mente a oposição norma x forma, em que, nas instâncias em que prevalece absoluta e inconteste a primeira, a segunda perece, ou melhor, nem chega a nascer. Em maioria, o prevalecimento da norma se justifica pelas práticas que, resistindo ao tempo, têm por isso mesmo legitimada sua razão de ser, já que servem para nortear procedimentos e condutas. Entretanto, estão aí os artistas, entre os quais os escritores e poetas, que fazem um aproveitamento estético da transgressão, i.e., da forma, e os defensores da norma veem-se na contingência de sair à cata de justificativas para a transgressão da forma, na percepção de que aqui e ali ela é melhor, constatação que levou à criação da expressão licença poética, com que se pretende justificar significados surpreendentes, que suplantam o chamado horizonte de expectativa.

 

Sendo a arte, no caso o poema, por excelência o espaço da transgressão, pode-se, por outro lado, postular que o poema é um microuniverso que determina suas próprias leis, de onde concluir-se que o “erro”, dentro do poema, é um acerto, está correto, é necessário, se veicular a (in)formação estética.

 

Vejamos, pois, alguns exemplos de transgressão. O primeiro é do poeta curitibano Paulo Leminski:

 

Haja

Hoje         p/tanto

Hontem

 

A norma ortográfica vigente determina que o advérbio ontem não seja grafado com H, hontem, forma arcaica que já vigeu no idioma e que, pelo uso, passou a ser grafado sem o h inicial. Observe-se, ainda, que todo o poema se estrutura nesse H arcaico, hoje transgressor, na inversão norma “hontem”, hoje norma “ontem”, para uma transgressão reversiva, i.e., o que ontem era norma deixou de o ser hoje, e a transgressão de hoje é uma volta à forma antiga. Desse modo, se corrigirmos esse advérbio, retirando-lhe o h, todo o poema rui (ah rui barbosa), pela falta de sua pedra-letra fundamental.  Visualmente falando, os três hhh formam uma coluna, que não se sustenta sem o “erro” ortográfico. Veja-se ainda o protesto do poeta, que assinala a presença excessiva e assoberbante do passado e a necessidade de transformação, modificação, renovação. Com efeito, o hoje é apenas um (1) em relação ao infindável número de ontens, e aqui, neste momento mesmo em que estamos redigindo este texto, damo-nos conta de que o corretor automático do Word assinala como erro a mais absoluta necessidade de pluralizarmos o advérbio ontem, aqui uma exceção. Observe-se também o tom de irritação que o poeta consegue imprimir ao poema, pelo uso do verbo haver, ecoando os bordões “haja dia”, “haja paciência”, “haja…”. Ademais, considere-se o anacronismo do h no início de palavras no português contemporâneo, desde que só atende a questões de ordem etimológica e não de fonologia, i.e., escreve-se mas não se pronuncia, ou seja, “não serve para nada”, o que confirmaria o tom de irritação com anacronismos e obsolescências do autor de “Catatau”.

 

Ainda com Leminski, este nosso lúcido discípulo zen de Bashô, registra:

 

meu probleima

só dói

quando queima

 

Não se trata, aqui, do puro e simples manuseio verbal que, ao transformar o substantivo problema em probleima, cria uma rima até então inexistente. Com probleima, o poeta problematiza essa mesma palavra, e dá, no dizer da poética contemporânea, alguma concretude ao “problema”, segundo a asserção de que o poema, mais do que convencer, quer seduzir e, mais do que seduzir, quer ser, quer se tornar o objeto nomeado, quer presentificar o objeto ausente, a nos lembrarmos de Haroldo de Campos, que assinala ser o poema autorreferencial. Assim, o neologismo “probleima” confirma a existência e resistência do problema, em diálogo com outro poema do autor de “Distraídos Venceremos”: na rua/ sem resistir/ me chamam/ volto a existir.

 

Outro exemplo que nos ocorre, não obstante o fato de ter sido enunciado originalmente em outro idioma (milenar), e em certa medida confirmar o axioma “tradutore traditore”, i.e., “tradutor: traidor”, sintetizado em “traduzir é trair”, é o que teria o Filho de Maria dito em pregação aos contemporâneos de Jerusalém: “Antes que Abraão fosse, eu sou”, ou “…existisse, eu existo”, etc. A quebra da lógica temporal, em que o presente não pode antecipar-se ao passado, leva à expectativa de que a frase fosse assim formulada: “Antes que Abraão fosse, eu era”, ou “Antes que Abraão existisse, eu existia”.

 

Todavia, os dois últimos enunciados deformam, mutilam, reduzem o significado pretendido, desde que, entrando no domínio do dogma e, pois, admitindo-se a gênese divina do mestre dos mestres, o que para nossos objetivos não vem agora ao caso, estaria ele exprimindo sua condição de eternidade, talvez melhor expressa como atemporalidade. Efetivamente, um ser eterno e que trouxesse essa consciência em sua autoconsciência, supomos, teria acesso in persona como tudo sendo agora à inexorabilidade do ontem, às evidências caleidoscópicas (o dicionário não registra esse adjetivo; deveríamos cambiar para “cambiantes”) do hoje e às virtuais possibilidades, probabilidades e concretudes do amanhã. Em outras palavras, o Logos (infeliz marca automobilística) é ontem, é hoje e é amanhã, numa mesma e presentificada presença, considerando-se a asserção de que, para um ser dessa magnitude, não existe passado nem futuro, só um eterno presente, de amplitude infinita.

 

Talvez dissesse o Bruxo do Cosme Velho: “é demasiada metafísica para um só professor”, em que, estabelecendo irônica relação entre a filosofia, ironicamente enunciada por um tenor desempregado, e a teologia, na paráfrase que faz de João, “no princípio era o verbo” (“no princípio era o dó”), talvez se antecipasse às interfaces que se podem estabelecer entre literatura, poesia, filosofia, religião.

 

Seja como for, a premissa fundamental que convém diante de um texto é a suposição de que o autor pretendeu significar, de que não sofreria de (com a permissão de Freud) afecções mentais, i.e., “não é louco”.[i]

 

.-.-

O crítico e poeta Affonso Romano de Santana, com a habitual eficiência verbal, consigna caso em que a forma serve como pretexto para o conteúdo. Com isso, traz à baila a dicotomia que o texto artístico, especificamente o poético, dissolve, obrigando à lúcida reflexão proposta por Ezra Pound de que “a forma é o conteúdo que vem à tona”, ou seja, o conteúdo que aparece.

 

O poema é sempre lúdico; quase sempre (…?) lúcido, mesmo quando se refere às maiores tragédias, não perde esse caráter. A sisudez lhe é estranha, e o solene engajamento está no poeta, não no poema. Se, como diz Foucault, “a palavra é uma violência que praticamos contra as coisas”, desde que a palavra deforma o objeto, entra em conflito com ele, mais esconde do que revela, o poema é um somatório de dizeres e desdizeres, que diz escondendo e esconde dizendo. É, como diz Ugo Friedrich, “um processo a respeito da linguagem, e não das próprias coisas”, de modo que, mesmo que mentiroso, jamais mente, e mesmo sendo sincero, sempre mente. Essa construção antitética traz, subjacente, a fetichização da linguagem, a adequada relação que se pode estabelecer entre o humor e a poesia, aquilo que se poderia exprimir com a asserção de que o poema não possui um estatuto jurídico, desde que nada prova, a não ser que, por ser autorreferencial, que se trata de poema. Assim, o texto poético seria uma espécie de ironização do fato, visto que, além de ser constituído do frio gume da palavra fria, sempre “colore a pílula”. Que-que-querelas à parte, palavras, elas à arte.

“Fica o dito pelo não dito”, mas se for o Bene dito bem dito e bendito, que fazer se não o prazer de com ele também dizer, di-ser?

 

Ele mesmo (gullar) responde: “é que só o que não se sabe é poesia”. “O poeta inventa / o que dizer / e que só / ao dizê-lo / vai saber”.

E aqui inserimos poema de nossa (pa)lavra:

 

a forma

conformada

vira norma

 

precisa, então,

ser transformada

 

 

A referência é à constante renovação que a arte vem sofrendo ao longo do tempo, na sucessão de tendências e contratendências. Vejam-se ainda estes exemplos:

 

expludo

ou fico mudo

quando me desiludo

de tudo?

 

…em que a transgressão, pelo acréscimo de um inexistente “expludo” em substituição ao gramatical “explodo”, se justifica pela necessidade da rima, a confirmar a própria explosão.

 

eloquência

 

no meu canto

tanto falo

quanto calo

porencanto

 

Aqui, o neologismo “porencanto” pretende aglutinar todos os possíveis significados, numa síntese de “porém canto”, “por encanto”, “por em canto”. Observem-se ainda as ambiguidades de “canto” (poema, música e espaço físico), “falo” (verbo e substantivo), e “calo” (idem).

Por hoje é só.

 

 

 

[i] A propósito, confira-se o que Foucault e Jung dizem a respeito. “Louco é aquele cujo discurso não é aceito” (Foucault). Jung assinala que a fala do “louco” faz sentido, sentido esse que precisa ser depreendido “de perto”, desde que, não integrando um código passível de leitura pela coletividade, os sentidos podem ser absolutamente originais e, portanto, só decifráveis mediante chaves que só seus enunciadores podem oferecer.

Condor blanco

Acabod voltar do Chile, de uma montanha perto da cidade de Pucon. Lá, todo ano, mormente de dez a fev, reúnem-se integrantes e simpatizantes de uma organização a que se deu o nome de Condor Blanco. Chamá-la de organização talvez não seja exato, já que ainda se encontra em processo formativo, com umas ramificações sem interconexões. A estas, chamam-nas escolas, com nomes bastante específicos e nada aleatórios, a exemplo de kinforest, kainapi, kaiwoman, etc.

 

O idioma se atolou-se

A piada é bem conhecida, mas não custa lembrá-la. Um amigo pergunta ao outro: qual é o correto: o carro se atolou ou o carro atolou-se? Responde o segundo: se foi a roda da frente, é se atolou; se foi a roda de trás, é atolou-se. Volta a perguntar o primeiro: e se foram as duas rodas?

– Aí não tem dúvida nenhuma, completa o segundo: é o carro se atolou-se.

 

De minha parte, espero não atolar-me, tanto no sentido acima, quanto no de tornar-me tolo. Isso porque a questão que proponho parecerá a ouvidos refinados cacofônica, e o é, com certeza. Como profissional das letras, sempre estou me deparando com questões interessantes. Desta vez, trata-se de legitimar uma construção que, não obstante pareça errada e apesar da cacofonia, ou seja, da desagradável sonoridade, está correta.

 

Como se trata de construção inusitada, cheguemos até ela por etapas.

 

Primeira etapa:

 

A frase interrogativa “A gente nasce poeta ou (a gente) se torna poeta?” equivale a “nasce-se poeta ou se se torna poeta?” – já que “a gente” tem função pronominal e está em lugar do índice de indeterminação do sujeito (o “se” de “nasce-se”). Observe-se a elipse de “a gente” na segunda ocorrência. Não se considerando a questão da colocação pronominal, a frase poderia ser assim construída:

 

Se nasce poeta ou se se torna poeta? – onde os dois “se(s)” de “se se torna” são, respectivamente, índice de indeterminação do sujeito e pronome do verbo pronominalizado tornar-se.

 

Vamos, então, à frase prometida:

 

Se se nasce poeta ou se se se torna poeta, é questão de somenos importância.

 

Se nasce poeta ou se se torna poeta?

 

Sem levarmos em conta a questão de que pronomes átonos não iniciam frases no idioma culto, não é necessário, parece, argumentar sobre a propriedade da construção acima. Na frase “se(1) nasce poeta ou se(1) se(2) torna poeta?”, temos que “1” é índice de indeterminação do sujeito e “2”, pronome reflexivo do verbo pronominalizado, já que o verbo, aqui, é tornar-se. Complementando a frase em questão, arrematando-lhe o sentido, poderíamos dizer:

Se nasce poeta ou se se torna poeta. Não há uma terceira opção.

 

Ora, podemos acrescentar à frase acima a conjunção condicional, e ela ficaria assim: Se(1) se(2) nasce poeta ou se(1) se(2) se(3) torna poeta, é questão de somenos importância. Aqui temos que “1” é a conjunção condicional, “2” índice de indeterminação do sujeito e “3” pronome reflexivo do verbo pronominalizado.

 

DEMONSTRAÇÕES

 

A gente nasce poeta ou a gente se(2) torna poeta – onde “a gente” está no lugar de “se(1)”, como índice de indeterminação do sujeito. A mesma frase poderia ser escrita “a pessoa nasce poeta ou a pessoa se torna poeta?” e, com elipse, “a pessoa nasce poeta ou se torna poeta?”, e, ainda, com elipse anteposta, “a pessoa nasce ou se torna poeta?”.

 

Se a pessoa nasce poeta ou se a pessoa se torna poeta, é questão de somenos importância. Substituindo o sujeito semanticamente indeterminado (porém sintaticamente não) a pessoa pelo índice de indeterminação do sujeito, teremos: Se se nasce poeta ou se se se torna poeta, frase melhor percebida nesta construção (canhestra, embora): se nasce-se poeta ou se se torna-se poeta

 

1 – Se nasce poeta ou se se torna poeta?

2 – Se se nasce poeta ou se se se torna poeta, é questão secundária.

 

Numeremos os “se(s)” de 1 e 2:

 

1 – Se(1a) nasce poeta ou se(2a) se(3a) torna poeta?

2 – Se se(1b) nasce poeta ou se(2b) se(3b) se(4b) torna poeta, é questão secundária.

 

Facilmente se demonstra a propriedade das construções acima substituindo-se (2a) e (2b), índice de indeterminação do sujeito, pelo correspondente “a gente”, deste modo:

 

3 – A gente nasce poeta ou (a gente) se torna poeta?

4 – Se a gente nasce poeta ou se (a gente) se torna poeta, é questão secundária.

 

Ante a cacofonia dos três “se(s)”, poder-se-ia argumentar que o verbo tornar-se não admitiria a indeterminação do sujeito ou que o “se” de tornar-se atua como índice de indeterminação do sujeito. E essa afirmação estaria correta no caso de o verbo estar no infinitivo, na seguinte construção: Nascer poeta ou tornar-se poeta, eis a questão.

 

CONCLUSÃO INCONCLUSA

 

Esses trejeitos linguísticos estão aí como meros cacoetes de raciocínio. Exercícios da palavra. Amém.

 

Palíndromos

PALÍNDROMOS

O palíndromo é uma brincadeira, um passatempo, uma curiosidade verbal. Sucintamente, trata-se de uma palavra ou frase que se pode ler de frente pra trás e de trás pra frente, atendendo-se à necessária ressilabação e desconsiderando a acentuação gráfica. Os menores palíndromos são palavras de duas sílabas. Exemplos: ama, ovo, ata, ele, etc. Aqui também se encontram nomes próprios, como Ana, Ada, Oto, etc. E, ainda, MATAM, METEM, REVIVER, ABRE VERBA, ATRELA O ALERTA, A DROGA DA GORDA, ALUNA ANULA, RODA A DOR, ERRO MORRE, ERRO CORRE, ERRO PORRE, ERRO FORRE, ERRO TORRE, AMA CAMA, AMA DAMA, AMA FAMA, AMA RAMA, AMAR TRAMA, etc. REVIVER, SOMAMOS, SOMÁRAMOS, MERECEREM

RESSILABAÇÃO

O palíndromo pode, por ressilabação, propiciar novos significados. Vejam-se os exemplos: SOMÁRAMOS, SOMAR AMOS, SOM ARAMOS, SOM AR AMOS. Frise-se, porém, que a ressilabação, obviamente, não é específica dos palíndromos, como se pode depreender do seguinte exemplo: sem premeditar, sempre meditar, sempre me ditar.

No que se refere à extensão, i.e., ao tamanho do palíndromo, não parece haver uma extensão limitada, já que, em tese, sempre se poderia aumentar um palíndromo por mais extenso que seja, tese que dificilmente poderá (?) ser comprovada.

Encontramos na Internet o que o próprio site faz constar como o maior palíndromo da língua portuguesa, afirmação que, como sugerido implicitamente na afirmação anterior, não resistirá a toda e qualquer contestação. Mas, indo às vacas frias, ei-lo:

 

O MAIOR PALÍNDROMO DA LÍNGUA PORTUGUESA

 

O namoro vivo da Regine Roda na bacana cabana da casa da tropa nada romana. Ele visível é, e é o novo vodu do vovô (no caso dono do casaco do anão bobo), é torto e voa, né. Nila Maíra gaga era. Se caga Cesária má. Mara viu; Ema ri; Vovó vê. A mamãe, o tio réu (que Clara leva), o Adão, Ana, o Leo, viajaram ao além à pé, e nós, de navio. Dario com Leno e Leonela tirana, esmagam-se. Mata-me, se a Leon a Mãe se opõe. Ane lê: a Cira sem Ana, já via (com a moça Lea), Iraci falar: “a Plácida Razera do azar é razão da reza por prazer”. A rica alemã baba na mão. Vão, mas é do anão o linotipo. Dezoito moços no sol Eno viu corado, revelar a saliva. Doida vovó vê Vera torta a trote. Viva ! Diva da dívida da vida vê a ema da madame à Eva. Diva da dívida da vida vive torta a trotar e vê vovô vadio da Vila Sara, leve, rodar o cu; Ivonel o sonso, com o tio Zé do pito, Nilo o anão de Samoa, voam. Ana baba; mela Acir a rezar pró paz. Era do azar é razão da reza radical. Para lá ficaria ela com a moça Iva já na mesa. Rica é Lena e se opõe a Manoela e se matam. Esmagam-se Ana Rita, Leno e Leonel. Moço irado, Ivan Edson é. E Pâmela o amará. Já Ivo (Eloá não), Adão, a velar, Alceu quer. O Ito e a mamãe, vovó viram e uivaram. A Maíra se caga. Cesar e a gaga riam. Aline não vê o trote. O bobo anão do casaco dono do saco novo, vodu do vovô Noé é ele. Visível é a namorada na porta da sacada na bacana cabana do Reni gerado vivo romano.

 

Não tivemos a necessária paciência para comprovar se se trata, mesmo, de um palíndromo completo. Quem quiser…

Mas os interesses implícitos nesse objeto verbal, i.e., todo e qualquer palíndromo, se esgotam rapidamente. O primeiro consiste em verificar se se trata, mesmo, de um palíndromo, submetendo-o à mera pragmática da mera leitura, tarefa facilitada ou dificultada pela menor ou maior extensão desse objeto verbal. Assim, por exemplo, são de fácil verificação palíndromos conhecidos: SUBI NO ÔNIBUS, SOCORRAM MARROCOS, etc, de cuja combinação resulta SOCORRAM-ME/ SUBI NO ÔNIBUS EM MARROCOS, de onde se conclui que, do acréscimo de dois ou mais palíndromos, resultam palíndromos mais extensos.

 

O segundo interesse consiste na mera comprovação da extensão do palíndromo, comprovação sintática que deve se subordinar, inexoravelmente, ao estrato semântico, de cuja combinação resulta a (in)eficácia do palíndromo. Não se trata, simplesmente, de colocar duas ou mais palavras em posição especular, ou seja, de frente pra trás e de trás pra frente. Desnecessário dizer, portanto, que, se tomarmos uma palavra qualquer, a esmo, e a escrevermos de trás pra frente, isso não constituirá necessariamente um palíndromo. Se tomarmos, por exemplo, a própria palavra palíndromo e a escrevermos de trás pra frente teremos OMORDNILAP, da qual dificilmente se extrai algum significado (talvez, em forçação de barra, “o mor dni lap”, onde “o”, artigo definido masculino singular; “mor” redução de “maior”, “dni” (…?…!), e o anglicano “lap”). Essa afirmação bastante ociosa se justifica por mera ilustração do que se pretendia comprovar.

 

Ociosidades à parte, o terceiro interesse é a determinação, percepção ou atribuição de significado(s), uma vez que alguns palíndromos apresentam várias possibilidades de leitura, i.e., vários significados potenciais, com ou sem ressilabação.

E aqui recorremos à tese de Chomsky, que esclarece ser a língua pura e simples sintaxe, sendo o semântico extralinguístico, ou seja, o significado está fora da língua. Isso dizemos porque, quando se está elaborando um palíndromo, sua significação vem a reboque da própria construção silábica, e a cada acréscimo silábico precisamos conferir-lhe o significado.

Finalmente, o quarto interesse consiste na constatação do valor estético-semântico do palíndromo, interesse ao qual se pode acrescentar a extensão, desde que quanto maior, mais significativo e estético for um palíndromo, mais perfeito (…?…) ele será.

Em suma, trata-se da soma: extensão + significado + correção verbal + valor estético = palíndromo perfeito.

Damos a seguir uns candidatos a tal pretensão, de nossa própria lavra, e tecemos alguma observação autocrítica.

AME-O POR ELE DAR-TE LETRA DE LER O POEMA

Crítica: falta de paralelismo entre as duas pessoas dos verbos amar e dar. Preposição “de” regendo o substantivo “letra”.

A DIVA ADOTARA PARA TODA A VIDA

Crítica: falta do objeto direto: “adotara o quê?” Possibilidade de ressilabação: ADOTARA x A DOTARA.

A PORTA BRECA ACERBA TROPA

Crítica: descompasso entre o popular verbo “brecar” e o adjetivo culto “acerba”.

AMA CANSADO TODAS NA CAMA

Crítica: …?…

ORA TAMIR RIMA TARO

Crítica: rebuscamento, já que Ora Tamir é uma pintora israelense de índole surrealista, informação com que nos deparamos “ao acaso”, em nossas andanças curiosas culturais internéticas.

SONSO DOTE DE TODOS NÓS

Crítica: falta de explicitação do sujeito, afinal, o que é o sonso dote de todos nós? Aceitam-se sugestões.

SÓ LUCI TRAZ ARTÍCULOS (pensamos em aplicá-lo à personagem do Charlie Schultz, Luci Van Pelt, do gibizinho Charlie Brown, Snoopy e cia. ltda.).

À GORDA REDE CALIFADO DA FILA CEDERA DROGA (possível associação Rede Poderosa x FIFA, etc.) (Poder-se-ia substituir “FILA” por “FIFA”, assim ficando: À GORDA REDE CAFIFADO DA FIFA CEDERA DROGA). (Leituras as que tu(do) a(l)turas).

ARRUME MERDA PADRE ME MURRA (Seja-me perdoada a blasfêmia, mas foi isso que as sílabas-palavras possibilitaram/determinaram. Seja-me perdoada também a estrondosa gargalhada que, quando li, desatou-se-me a rir).

ACADEMIA PAI ME DÁ CÁ (leituras abertas…)

EVA SÓ DOTE-ME DE MÉTODOS AVE (possibilidade de intercambiar eva/ave)

A IRA REME TACITA DIDATICA TEMERÁRIA; A IRA REMETA CITA DIDÁTICA TEMER ÁRIA; etc.

SAFIRA TECERA CORTE CETRO CARECE TARIFAS; SAFIRA TECERA CORTE METRO CARECE TARIFAS; SAFIRA TECERA CORTE PETRO CARECE TARIFAS; SAFIRA TECERA CORTE RETRO CARECE TARIFAS (etcetro e tar)

 

RIR É FEDERAL LAR É DE FERIR a que se pode contrapor LAR É DE FERIR RIR É FEDERAL

Deixo aos leitores as possíveis objeções, correções, melhorações, melhor ações…

ATÉ MAGRO TU OUTORGA META

A GORDA ALUNA AMA DANADA/ MÁ ANULA A DROGA

AO BATER A CARA PANACÉIA DAI É CANA PARA CARETA BOA

 

Números

Chamava-se Virgínia. Nos anos sessenta tinha entre 50 e 60 anos. E me amava. Eu um garotinho robusto, 3 ou 4 anos de idade. Respirava a aquietada atmosfera de uma criança abandonada aos cuidados do cuidado alheio. Orfanato. 100 ou 150 menores de primeira infância. E a Virgínia, Dona Virgínia, com a voz rouca do excesso de cigarro, transformava meus primitivos temores em segurança quando me pegava no colo. Ainda ouço sua voz.

Um dia, ainda 3 ou 4 anos de idade, fugi. Algo que me deixara triste ou revoltado. Quando vi, estava na casa da Dona Virgínia. Nem sei como achara caminho. Talvez ela mesma tivesse me levado e tomei para mim o mérito daquele meu primeiro ato de rebeldia. Segurança recuperada, no outro dia de volta ao anonimato coletivo de todos aqueles pares de olhinhos ansiosos de tudo e de todos. E a Virgínia, sempre vigilante, me compreendia, me enxergava, me amava. E eu nem sequer podia imaginar que viria um dia em que sentiria tanto a falta de ouvir sua rouca voz.