a copa e o copo

Um dos fatores do processo de criação de um palíndromo é a justaposição de letras, e sílabas e palavras ocorridas ao sabor do andamento do próprio processo. É divertido. A propósito da copa e do copo, montou-se em mim este palíndromo:

AO SERVIL SEM O TIDE DÓI GOL E REAL E VILA ATIVE O ADAO ELOGIA AI GOLE O ADÃO EVITA ALI VELA E RELÓGIO EDITO MÊS LIVRE SOA

sem senso nem censura


Estavam aí, felizmente não estão mais, querendo fazer passar uma lei que não estaria nem aí com os ais, e com medo dos hahahas. Criminalizar o humor seria assustador, sério. Seria matar antes de nascer no texto o lúcido do lúdico, indissociáveis. Muito riso e pouco siso dizia o bordão sisudo, que queria o humor ficasse mudo. Confundia-se oral com (i)moral. Seria assustador, antes fosse assusta-dor, susta dor. Levaria a ter medo de ter medo, temer o…
Libelo contra a libélula em cujos olhos o poeta nipônico enxergava o distante e colossal monte Fuji: libélula cá/ traz nos olhos/ montanha de lá. Entendeu lucidamente o Tribunal que humor não é insulto, tampouco indulto a que se cometam outras atrocidades. Insulto ou elogio, a diferença está em quem faz e quem recebe, e no modo como se faz e como se recebe.
Lembro-me de um menino que conheci na infância e que, quando outro o xingou de fdp, ele respondeu, com incomum bom humor: poxa, amigo, você descobriu…! Só não espalhe, só não espalhe. O outro ficou desconcertado com o resultado que, esperava, fosse outro.
Anos depois eu mesmo faria uma dissertação sobre o humor verbal, sobre o chiste, a partir da abordagem psicanalítica de Freud, linguística de Possenti, e psicolinguística de Veras, em capítulos intitulados: Freud Explica, O Sírio levado a sério, De Veras a Verdade.
Pergunta, apropriadamente, a música: vc tem medo de quê? Deixa implícito que o medo se opõe à criatividade, e que, como diz Osho, todo medo é, em última instância, o medo da morte e que, se este fosse (e for) superado, eliminaria (e eliminará) todo e qualquer medo.
No paradigma do medo estão: vergonha, censura, desamor, violência, ilusão da segurança, temor ao futuro, negação do desejo. O medo é reacionário, quer dizer, contrário às promissoras mudanças. É anticriativo, propõe pensar com a cabeça dos outros. Finalizando, saudosa amiga minha fora conhecer a cálida brancura gélida das montanhas do Alasca. Em palpitante voo panorâmico, o franzino aviãozinho trepidava, tremia e tremulava ao sabor do inquietante vento. Tinha, então, de escolher: ou se deixava abater pelo medo paralisante, ou se entregava à inigualável beleza de instantes que possivelmente jamais se repetiriam em sua vida.
Não pensou com a cabeça dos outros, e jogou para depois o medo do instante. Entre ter medo e ser feliz, preferiu a segunda opção. Não se arrependeu. Felizmente, para sua feliz mente.

A IMPORTÂNCIA DA MEDIOCRIDADE

Jamais se pode subestimar a importância da mediocridade. Mesmo sob a superfície da história, médios, medianos e medíocres cumprem seu papel de manter e preservar o status quo, quer dizer, deixar as coisas como estão. E essas forças reacionárias têm sua existência justificada, porque substituíram o perigoso anseio de que as coisas melhorem pelo confortável receio de que piorem. E por certo não faltarão reacionários que, ao serem tratados como tais, achar-se-ão revolucionários, confundindo esse termo com reação, esquecendo-se de que a ironia permite ler reação como ação repetida, a reiteração da mesmice, ou, de modo mais sofisticado, o misoneísta horror à outridade (descobri, por acaso, a palavra misoneísmo, que, na Terra das Araucárias, adquire matizes bastante peculiares). Aqui, não faltam porta-vozes do já-consagrado-e-por-isso-inatacável, se hay desgobierno soy contra, o That’s incredible que, de incrível, só tem a excrescência da midiocracia, o savoir faire de quem só sabe fazer e refazer o já feito. São quixotescos generais que ainda travam batalhas já travadas e já vencidas, imemoriados que confundem memória com imemorial. Infaustos que receiam tudo quanto cheire ao mefistofélico espírito que tudo nega e contraria.

Resta o consolo de que tudo é passageiro, mesmo o motorista e o cobrador. “Aqueles que estão atravancando meu caminho, eles passarão, eu passarinho”, diz com gentileza o protesto do poeta.

Rei morto, rei posto. O velho deve morrer para dar lugar ao novo. O menino é o pai do homem. A midiocracia só admite a mediocracia da magiocracia, verdadeiro Mr. M que se propõe a desnudar as vestais da verdade cujas vestimentas já não passavam de rotas (derrotas) e surradas vestes. Maltrapilhos filhos que enfileiram como tesouros pilhas de tralhas e trastes e trapos.

Já se falou alhures sobre o papel das cortesãs nas cortes, sobre as galhofas dos bufões aos quais se permitia declarar mesmo a verdade mais escaldante amainada no humorismo dos trejeitos cênicos, sobre os homens de arte cuja genialidade desposou a bucólica simplicidade de camponesas cujos interesses não transcendiam a circularidade pragmática de meras 24 horas. É o mesmo pragmatismo que leva a mídia televisiva a espelhar o gosto popular, entendendo que seu papel é, mesmo, entreter, deixando aos intelectuais as intermináveis discussões sobre a função educativa da maior invenção do século vinte. Óbvio que, quando se alia entretenimento e cultura de modo inteligente, interessante e popular, melhor. Mas não se pode esperar que seja diferente do que é. Infelizmente, infeliz mente.

utopias

A palavra utopia foi cunhada pelo filósofo inglês Thomas More, mediante a junção de dois prefixos gregos: ut, inexistente, e topos, lugar. Daí a acepção de lugar ou estado ideal, em que o poder instituído estivesse comprometido com o bem-estar de todos. Houaiss registra ainda que, por extensão, trata-se de: projeto de natureza irrealizável; quimera, fantasia. Desnecessário dizer, portanto, que utopia se refere, em última instância, ao que Pierre Weil denominou “nostalgia do paraíso perdido”, sentimento que tem sido expresso em várias obras ao longo do tempo, desde A República, de Platão, A Nova Atlântida, de Francis Bacon, O Paraíso Perdido, do poeta John Milton, Lost Horizon, de James Hilton, A Ilha, de Aldoux Husley, e outros. Na contramão, citem-se as antiutopias ou distopias: Admirável Mundo Novo, de Huxley, Animal Farm e 1984, ambos de George Orwell, O Processo, de Franz Kafka, Eu, Robô, de Isaac Asimov, dentre outros, e realizações cinematográficas como Blade Runner e The Wall, por exemplo.

Entre a utopia e a distopia, troca-se a visão de um proverbial paraíso idealista pela acachapante submissão a uma sociedade que elimina a possibilidade de fugir a tais imperativos. O sujeito se vê subjugado a um sufocante Big Brother a cuja vigilância onipresente nada nem ninguém escapa. Entre a esperança e o cinismo oscila o anseio humano, ou primeira se esboroa no cinismo, ao trocar o colorido da idealização pelo negrume da inexorável admissão da concretude de um mundo que nem sequer se denomina imundo.

Imundícies à parte, algumas fazem parte do mundo; entretanto, bastam as naturais e inevitáveis; as outras… que vão à…

Seja como for, sonhar é preciso; é a mínima riqueza que resta ao sujeito quando se lhe roubam tudo. E o compensatório post-mortem não sirva de consolo. Arte é preciso; enfarte só se inevitável. A palavra, amiúde, é tudo o que resta, quando a lavra não presta. A larva tem de cumprir seu destino de borboleta. Haja asas.

Oralidade e moralidade

A moral é um conjunto de princípios legitimados pela sociedade e que, em tese, devem nortear o comportamento dos indivíduos que a integram. Nem sempre explícito ou explicitado, o princípio norteador às vezes se torna obsoleto, ultrapassado, e o que era aceito deixa de ser. A moral se confunde com a ética, nem sempre de fácil distinção. Moral vem do latim, moralis/morus, e indicava simplesmente costume. Já ética vem do grego, ethos, e diz mais respeito a uma atitude que se tem, em primeiro lugar, para consigo mesmo e, por consequência, para o coletivo. De onde se inferir que moral tem mais a ver com a aparência; ética, com essência. Moral, ligada aos tabus, refletem as máscaras sociais; ética, atrelada a valores que se pretendem e pretendam perenes.

 

De onde lermos dentro do adjetivo/substantivo moral o adjetivo oral, e encontrarmos na relação entre oralidade e moralidade nosso tema de hoje, desde que nosso país tem se tornado o que outrem já dissera, o país da mordaça, que criminaliza mesmo a própria expressão oral que, em tese, deveria constituir um dos pilares da democracia. E isso afirmamos não sem certo desconforto, pois o peixe morre pela boca e os da lavra pela palavra. Pelo menos é o que se tem visto na e pela mídia, explicitamente, os meios de comunicação. Cuidado com que opinas, tuas palavras assassinas, podem cometer chacinas, é o que eu diria se… se… se… sei lá o quê.

 

Mas confesso desde já que não tenho vocação pra mártir, talvez só pra Marte e, supremo, morte, de sorte que, se me faltar arte, que me leve, misericordioso, leve enfarte. Indelével… de leve.

 

Outro dia fomos alertados para o significado do verso de Fernando Pessoa, “navegar é preciso, viver não é preciso”. Meu interlocutor fazia ver que preciso, aqui, não deve ser lido como verbo, mas como adjetivo, o que traduz o verso em “navegar é exato, viver não”. (Obrigado, Professor Marcelo.)

Citamos isso para introduzir o pensamento de que a oralidade, como um primeiro reduto da moralidade, tem sido objeto de abjetas transformações e acolhido diletas formações. Pelo menos no tocante à sexualidade a oralidade corre solta, e quem quiser ler esta frase mesma com a conotação sexual vigente se sinta à vontade. (Curiosamente, quando estávamos digitando “um primeiro reduto”, cremos ter quase cometido um ato falho, pois estava saindo “redutor”. Psicologismos…)

 

Ocorre que a tal moralidade tem um tanto de hipocrisia, teria dito um não hipócrita. A ética, por definição, não. Em tempos do politicamente correto, e muita vez chato, o próprio advérbio “politicamente” contamina o adjetivo “correto”. Outro dia ouvimos na televisão uma escolinha infantil que ensinava às crianças o “politicamente correto”. Aquela gentinha linda cantava, inocente, “eu não atirei o pau no gato”. A bem intencionada professorinha não percebia que, ao acrescentar o advérbio não à inconsequente cantiga infantil, tornava regra a exceção. Como se fosse necessário você afirmar que, pelo menos naquele dia, você não cometeu mal algum. Nem oral, nem moral.

Quem quiser ver a hilária ilustração, visite o site:

 

https://lojagatamia.com.br/plaquinha-mdf-surtei-e-atirei-o-pau-na-dona-chica.html

A Lua e a Rua

a rua e a lua
Abrimos este texto com um singelo poemínimo:

Solidão
Em noite de prata
na rua, fitando a lua
uiva o vira-lata.

Esse haicai, poema de origem nipônica aqui submetido às formulações do poeta modernista Guilherme de Almeida, relaciona um dos mais profundos sentimentos com uma das imagens mais significativas, ambos explorados pelo Romantismo, escola de índole subjetivista que tinha seu alicerce na mais pura e intensa expressão das emoções. Assim, os românticos cultuavam a noite e a lua como símbolo de transcendência do eu para o outro, do sujeito amoroso para o objeto de amor, quase nunca consumado e, pois, sempre à espera… espera… espera… Assim é que também servia à corporificação da imorredoura nostalgia do paraíso perdido, tema ao qual dedicaram especial interesse escritores e poetas da estirpe de John Milton, e que freudianos traduzem como experiência oceânica da unidade, e outros lhe conferem outros nomes: shangri-lá, horizonte perdido, utopia, neologismo criado pelo filósofo inglês Thomas Moore, denotando lugar que não existe (ut, inexistente; topos, lugar), Nova Atlântida, do filósofo Francis Bacon, A Ilha, de Aldoux Husley, com a utopia “A Ilha” e a distopia “Admirável mundo novo”, e assim por diante.
O poema-epígrafe que abre este artigo dialoga com este, de Cassiano Ricardo:

Serenata sintética
Rua
torta.
Lua
morta.
Tua
porta.

De onde também ganha importância a imagem visual do poema, já que a própria disposição das palavras na página sugere a tortuosidade da pequena rua, e os fonemas “t” e “r” são a imagem sonora dos passos dados na pequena rua calçada no caminho e caminhada até a casa da pessoa amada.

Quase misteriosamente, a lua exerce sua influência no comportamento humano, e animais parece não ficarem imunes a ela, a lembrarmos da implícita figura do lobo solitário e dos arroubos românticos e do culto à noite e dos proverbiais lunáticos etc., adjetivo derivado de lunae, luna, lua.

Mas a contraposição rua/lua não se deve tão somente à proximidade fônica e gráfica entre ambas, ou seja, escrita e pronúncia, rima. Visualmente, a relação entre a lua e a rua é um círculo flutuando por sobre uma linha, esta ainda representativa da linha do horizonte. Em recuo suficiente, o círculo torna-se um ponto, que, flutuando no vazio acima da linha, conforma no plano um triângulo com vértice pra cima e, se lhe acrescentarmos as outras dimensões, teremos uma pirâmide.
E na pirâmide temos a representação do escalonamento social, do determinismo cultural e demais influências e paradigmas vindos do alto e reverberando nas camadas mais baixas. Ditaduras unigênitas verticais que antes fertilizavam impositivamente o amplo solo das gramíneas humanas hoje precisam se render à inevitável evidência do sentido reverso, em que a rua fala e faz mais o que quer e menos o que desquer.

Se antes se podia valorizar a imaginada e almejada luminosidade dos páramos utópicos, hoje se pode concluir por uma gênese reversa, em que o efeito precede a causa e o que era virtual se torna cada vez mais real.

Pois é, poesia…

Absurdismos

ABSURDISMOS
Há absurdos tão absurdos, que são mais do que absurdos: são também abcegos e abmudos. Este absurdo, mesmo, de absurdizar o próprio substantivo absurdo. Mas o absurdo está na moda, é, mesmo, um modismo. Está tão na moda, que se poderia criar um movimento, escola, tendência à qual se daria, pertinentemente, o nome de Absurdismo, à semelhança de tantos ismos já passadiços, passados e mal-passados. Classicismo, neoclassicismo, romantismo, realismo, modernismo, racismo, homossexualismo, taylorismo, capitalismo, terrorismo… e ismos… e ismos… e ismos… Fora os esnobismos, estrangeirismos, alcoolismos, tabagismos, bairrismos, ateísmos, teologismos, que nos obrigam, a todos, a nos submeter a verdadeiros contorcionismos verbi-voco-visuais, com o devido crédito ao que disse o Pignatary (o Décio), ele também representante de um tal-ismo, o tal concretismo, não taoísmo. Em tempo: catolicismo, islamismo, budismo, etc., que querem seus adeptos sejam, não relativismos, mas absolutismos.
Mas nesse movimento Absurdismo encaixaríamos tudo o que encaixado não se deveria encaixar: menores abandonados, abandonismo; a indústria da fome, raquitismo; os irremediáveis remédios, a política etílica e sem ética, os inominados que têm nome porém são inomináveis e, pois, abomináveis, os nordestes destes que não me destes, sem chuva, uva nem luva, as estatísticas estáticas não extáticas, e tantas outras práticas que por ética não deveriam ser postas em prática.
Desse Absurdismo estariam ausentes verbalismos, linguismos, logismos e neologismos, misticismos e espiritualismos, tudo o que contribuísse para o disse-me-disse, não-disse me disse, mas disse. O dissídio entre a palavra e a lavra e a lavra e a larva. Ora direis ouvir… Melhor que ouvir é ouver, não ouvir ou ver. Ambos os dois conjuntamente juntos mutuamente unidos numa unidade de um só. Ora, pois. Ouvir estrelas… melhor ouvê-las, com o perdão do Bilac (o Olavo oliva).

Só com toda essa (e quisera mais que mera quimera) transgressão verbal talvez se possa insinuar o que nem à mente amente se insinua: o absurdo do absurdo que, talvez por isso mesmo, o desabsurdiza, id est, Reductio ad absurdum. Rest in peace, requiescat in pace, descansa em paz, meu rapaz. O que me lembra um poemínimo contestador, em homenagem a alguém que nem menção merece: posso dizer o que eu acho, meu rapaz: és capacho, não capaz. E quem o queira aplicar a quem não o queira, sinta-se autorizado. Deveras…
E aqui desfilam filiações, filias, iron men e ironias. Dinheiro na cueca, 51 milhões apartados em apertado apartamento, pasta só com um mísero 1% um por cento dessa cifra indecifrável, “eu não sabia que não saber não me isenta da pena de não saber”, o verdadeiro poder se refugia numa instância superior quando se lhe questionam ditos e ditames, personagens se despersonalizam por imersão num limbo amorfo de uma espécie de Personalidade Suprema, poder, enfim, que ante a inexorabilidade da morte pretende, sem poder superá-la, surpresá-la. Tanto barulho que deixou surdo o bagulho. Por hoje, arrulho.

Virtual x real

Virtual x real
Outro dia um aluno, interessado em ampliar sua compreensão a respeito do que é virtual, me perguntou se um anjo é virtual. Pergunta inesperada, exigia reflexão. Entregando-me ao fluxo do pensamento, fui lhe respondendo à medida do que me vinha à mente. Primeiro é preciso compreender que o virtual, por definição, é potencial, passível de vir a se manifestar fisicamente, de ganhar concretude real. Pense na relação entre a virtualidade da palavra e a realidade da coisa por ela nomeada. O significado é virtual, o objeto é real. Do mesmo modo, uma cédula monetária é real; o valor, virtual. A cédula é um título de crédito ao portador, e tem seu valor determinado pelas relações de troca: hoje vale tanto, amanhã nem isso. Se dólar, mais ou menos.
A relação entre o virtual e o real recupera as preocupações dos filósofos entre ato x potência, o caminho entre a virtualidade da palavra e a coisa concreta, valor de troca x valor de venda, significante x significado, a abstração de conceitos como o de poesia versus sua objetificação num poema, a doença x o doente, língua x fala, etc., etc.
Mas retomando a pergunta que originou esta reflexão, se um anjo é virtual, respondi ao aluno: se existem, de fato, os anjos, o que se nos parece ser possível apenas numa dimensão imaterial, incorpórea, etérea, espiritual, enfim, eles serão, por necessidade de sua natureza, reais. E a inexorável conclusão é a de que apenas não os percebemos, pelo menos não com as costumeiras faculdades sensoriais. E deveríamos ver com alguma admissão de verdade as afirmações daqueles que afirmam poderem vê-los. De onde, também, supormos que, analogamente aos demais sentidos, possivelmente se trata de uma faculdade cada vez mais presente entre as comuns faculdades sensoriais da maioria das pessoas. Assim, em os anjos existindo, para aqueles que dizem percebê-los (e aqui estamos supondo que de fato os percebem), os anjos são reais; para todos os demais, são e estão virtuais, havendo, pois, a possibilidade de deixar de sê-lo, quando (e se…) os perceberem.
E aqui cabe propor a existência de graus de virtualidade, já que se pode admitir a maior ou menor proximidade entre as duas esferas: virtual e real. Estamos pensando, por exemplo, na relação entre o valor de uma moeda virtual versus o valor de uma moeda de papel. A concretude desta última não lhe garante maior valor, virtual, que a virtualidade da primeira. Assim, também, cabe postular que uma emoção é mais virtual que uma sensação, que uma lei é mais virtual que sua aplicação, que uma intenção é virtual e sua concretização a retira dessa condição, que um pecado se dá por pensamento, palavras e obras, que uma injúria pode se tornar um crime, que uma palavra encerra significados virtuais em via de se tornarem menos virtuais, que a vontade é a potencialidade das potencialidade, e assim por diante, que querer fazer é uma vontade em busca de uma manifestação concreta, física, etc., etc.
Finalizando, não obstante a crença de que tudo se resume a crenças, cremos existir apenas uma não-crença: a de que existimos.
Por hoje, cartesianamente, cogito ergo sum, i.e., penso, logo existo; hoje, penso… logo… existo…

Democracia

DEMOCRACIA: GOVERNO DO DEMO
Espero que quem leia o título desta matéria nele não se detenha, e vá um pouco além. Conceda-me o beneplácito de transgressora liberdade de expressão, não tomando o incerto pelo certo e não creia que creio estar correto ao tomar, jocosamente, “demo” – povo, por “demo” – demônio. Não se tome também nosso texto como postura política desta ou daquela vertente, já que, e antes de mais nada, parafraseando o poeta, “minha pátria é minha língua” e também que “pátria”, sendo a Mãe, deveria ser Mátria. Esquerda ou direita ou centro ou dentro ou fora, afora e aforas.
Alguém já disse que a democracia é um ideal a ser buscado, sempre. Entre a concretude da prática (“pátrica”) e a solitude da gramática, subjaz a grama e o grama, o deletável e o deleitável. Não é, pois, tão a esmo que se insurgem uns tantos e quantos se revelam e rebelam. Verdades e inverdades pulam e pululam num calidoscópio que deixa entrever algum protagonismo a assumir a própria assunção. Presunção. Que será, será: Doris Day e dores night, dizia opiosa canção americânica da copiosa década do pós-guerra. Detestados unidos; alguns teriam, talvez, preferido estados punidos. Já o tivemos, não o fizemos. Sem rancores nas nossas cores, dores e amores. Se a arte é a busca do controle do acaso, o acaso mais casual é o que está acontecendo no exato momento em que você está se acontecendo. O significado, afinal, somos cada um de nós a cada e todo instante em que nós nos significamos, e ficamos. Oportunidades iguais… aos desiguais. Já disse o humorista: alguns são mais iguais que os outros. Ficamos imaginando em que medida (e se…) a afirmação da igualdade, no plano verbal, não contribui, exatamente, para acentuar a alteridade. Se aqui cabe recuperar em parte a tese de Sapir e Whorf sobre a influência da palavra sobre o pensamento, talvez também caiba supor que há um limbo amorfo que precede os dualismos pensamento-palavra, palavra-coisa, coisa-dogma do objeto.
Finalizando esse caos verbal, diga-se, por hoje é com-fusão de-mais.

Amor (in)condicional

A releitura do quadro acima, à direita, ao trocar o previsível carneirinho pelo imprevisível dinossauro nos leva a refletir sobre o propalado amor incondicional. Cabe a pergunta: o amor, em tese, não seria, forçosa e necessariamente, incondicional? Se condicional, é (seria…) amor?
A amor incondicional se contrapõe, obviamente, “amor condicional”, e aqui talvez coubesse melhor amor “condicionado”, nas duas acepções: a que se volta para o objeto do amor e a que se volta para o sujeito que o manifesta, este último reverberando a noção já defendida de que todos sofremos condicionamentos, i.e., todos somos condicionados, afirmação que dificilmente pode ser contestada.
Efetivamente, desde a (e antes da…) experiência pavloviana dos reflexos condicionados, a questão parece resolvida, e o ponto que se coloca é a reversão da causalidade, segundo a idéia prenunciada por Jung em sua obra “Sincronicidade, um princípio de conexões acausais”, e abordada pelo pesquisador indiano Amit Goswami em “O universo autoconsciente”. Sucinta e explicitamente: o amor pré-existe e só fica à espera de um objeto para se manifestar? Goswami propõe uma reversão da causalidade, em que o futuro influenciaria o presente, a causa advindo do efeito, e não o precedendo.
Esse raciocínio tem algo de transcendente, mais em acordo com a tese da atemporalidade, a perspectiva da simultaneidade e não da sequencialidade, em consonância com a psicologia pragmática de William James, que postula ser a emoção posterior à reação do organismo, e não o contrário. Exemplificando, a hipótese de James entende que, se virmos, por exemplo, um leão solto vindo em nossa direção, nós não fugimos porque temos medo, mas temos medo porque fugimos. Essa tese de James, ele mesmo colocava em cheque, quando se dizia “quase convencido” de sua veracidade. Contudo, num mundo em que os paradigmas científicos tradicionais estão sendo contrariados, não é de todo inadequado considerar a verossimilhança dessa asserção do pesquisador britânico.
Feita essa digressão, cabe explicitar questões subjacentes à idéia de amor (in)condicional. É imutável e ilititado? É verdadeiro? Exemplo seria o amor dos pais pelos filhos, ou, mais especificamente, da mãe, o proverbial amor materno? E amar o outro implica amar a si mesmo? E o amor a dois, a despeito das configurações dos casais? É verdade que “quem deixa de amar, na verdade, nunca amou”? E o amor feminino é diferente do amor masculino? E as mulheres que amam demais? E o que dizer das projeções do amor romântico mencionadas por Freud? E quem diz amar o amor não está se esquivando de expressões concretas desse sentimento? Trata-se, mesmo, de um sentimento ou de um conjunto de sentimentos? O amor existe por si só ou requer um objeto para se manifestar? É simples ou complexo? Quando exige algo em troca, é, mesmo, amor? Existem graus e qualidades amorosas? É imorredouro e transcende a morte? E a oposição amor – ódio não seria, talvez, melhor expressa como amor versus medo? E o amor a Deus, à vida, ao universo, ao infinito? Qual a relação entre amor e humor, amor ao outro e amor a si mesmo? E o que dizer da paixão (não nos esquecendo de que paixão vem de “pathos”, i.e., doença, sofrimento, “patologia”)? De onde também “compaixão”, Paixão de Cristo…
São todas questões implícitas nesse estado de espírito ou de consciência tão almejado e buscado. Afinal, como dizem os místicos: o amor é a lei. Finalizando, cite-se Osho, que afirma ser a mesma energia que, no plano instintivo, é sexo, no plano humano, é romance, no plano espiritual, é prece.
Preceito sem preconceito.