Nó górdio

NÓ GÓRDIO
Acordei Hoje de manhã com as palavras “nó górdio” reverberando na cabeça. Sonho, imaginação, raciocínio…? Não mais sendo na atualidade (e na atual idade) o Guardião absoluto dos guardados na minha memória, devo confessar que não me lembro onde ouvi ou vi essas palavras, e chego mesmo a imaginar origens outras que não de Orígenes e gêneses que tais. Existiria o tal “górdio”? Quem ou o que seria? “Nó górdio” seria um chiste do inconsciente me dizendo, não nó górdio, mas um “no” a gordinho, “no” a gordura, “no” a “gordilho”…? Azeites e manteigas e delícias demais na (falta de…) dieta?
Lembrando que a própria palavra expressão significa “pressão para fora”, fui pesquisar. Descobri (ou confirmei) que existe, efetivamente, a expressão nó górdio. Mas o que estaria meu inconsciente querendo me pressionar para fora?
Corri e me socorri do Dicionário, do Houaiss. Diz ele: adjetivo, relativo ou pertencente a Górdio, rei lendário da Frígia, antiga região da Ásia Menor (atual Turquia). A lenda é interessante. Górdio teria sido um camponês que, ao ter entrado na cidade num carro de bois, cumpria uma profecia e, assim, tornava-se o prenunciado rei. Como marco do evento, o agora rei Górdio amarrara a carroça numa coluna do templo de Zeus. O nó seria tão difícil de desatar, que quem o conseguisse se tornaria o novo rei. Diz ainda a lenda que Alexandre o Grande simplesmente desembainhou sua espada e, num só golpe, desfez o nó. E nó górdio passou a significar um problema que, parecendo insolúvel à primeira vista, se revela de fácil solução pelo uso de raciocínios criativos e inuspeitos.
Lembrei-me então do filme O Enigma de Kaspar Hauser, designação lusitana do título alemão “Jeder für sich und Gott gegen alle”, i.e., “cada um por si e Deus contra todos”. Kaspar Hauser era um jovem que “apareceu” de repente numa pequena cidade alemã, abandonado por seu suposto tutor, que o criara, a mando de uma instância superior, acorrentado num frio e fétido porão (adjetivos por minha conta). No filme, baseado em história real, o diretor Werner Herzog enfoca a questão do reino da palavra e o reino das coisas, tema que há muito tem interessado poetas, escritores e linguistas, como Drummond, Foucault e Noam Chomsky, por exemplo. Não tendo a experiência do mundo intermediada pelas palavras, como amiúde acontece com a maioria das pessoas, o raciocínio de Hauser não sofre essa interferência.
Em determinada altura da narrativa, o jovem, de cuja educação se encarregara o conselho municipal, é instado a resolver o seguinte problema:
Havia numa região duas cidades. A população total de uma delas compunha-se de indivíduos que sempre mentiam; a outra, de indivíduos que só falavam a verdade.
Um peregrino caminha em direção a elas, e em dado momento a estrada se bifurca. Nesse instante percebe ele um indivíduo se aproximando, e para diante dele. O conselho municipal propõe, então, a questão: qual e única pergunta pode ser feita ao tal indivíduo, de modo que sua resposta revele de qual cidade ele está vindo, se dos mentirosos ou da outra.
A resposta pretendida é um tanto complexa, uma verdadeira preciosidade de raciocínio. No entanto, Hauser, para a incredulidade dos interlocutores, afirma que a resposta é bem fácil. E diz, eu simplesmente perguntaria: o senhor é um jacaré?
A narrativa não deixa de ter seu matiz humorístico, já que o rebuscado raciocínio adulto esboroa numa singela indagação de um ser não contaminado pelos criadores e, pior, maximizadores de problema.
Fiquei então pensando o que de tão simples minha mente complica, complexifica, mente, enfim. Lembrei-me então do excelente livro do Osho, “no mind”, que vou reler imediatamente. E sei que, sendo a mente mentirosa, é deixar a mente de lado e ficar só com a rosa.
Por hoje é sol.