erros de gênero

Tenho um poemínimo que diz: se o erro me leva a eros, eu erro porque queros. Obviamente, nem é preciso explicar que a grafia “errada” queros, pelo simples acréscimo do “s”, confirma a própria pertinência de um erro que deixa de sê-lo por se conformar à própria afirmação e potencializar o significado de querer ao possibilitar subentender dentro de queros, eros. Algum corretor desavisado talvez cometesse o equívoco de corrigir esse erro, e nos lembramos de um amigo que, tendo ganho de presente uma gravura de um artista famoso, teve a ingrata surpresa de ter a gravura “limpada” pela ação de uma diarista, que simplesmente achou que a assinatura do artista, a grafite, na gravura, era uma sujeira.

Em linguagem às vezes a transgressão é necessária, e ficamos pensando se em outra áreas também não. Discordamos de quem afirma que as regras existem para ser quebradas; não obstante a sensatez de que há ocasiões, raras, em que precisam.

No domínio estritamente verbal, há momentos em que a própria necessidade de expressão legitima a transgressão. Já tivemos a oportunidade de discorrer sobre o fato no texto “Com o perdão da licença poética” publicado neste blog, em que propugnamos pela ocasional necessidade de transgressão verbal, em consonância à ideia de que a arte é, por excelência, o espaço da transgressão.

A transgressão se aplica muito bem ao texto artístico quando, assinale-se, é absolutamente necessária e, portanto, intencional, não gratuita, cumprindo sua função de dizer o que de outro modo não seria possível. É quando o erro se torna legítimo, e a exceção confirma a regra. Mas como pensar não paga imposto e poetar é gratuito, e fazendo eco à questão de gênero, achamos que algumas palavras deveriam mudar de gênero. Entre elas, mar, que não deveria ser o mar, mas a mar. De onde se fundiriam as noções de mar origem da vida e amar também. E mais: amor, sendo expressão da alma, deveria ser “almor”; e feminino, “almar”; de onde significaria: dotar de alma, voltar ao mar, a fonte da vida, e amar.

Essa viagem de gênero veio lá dos gregos, que passaram a atribuir gênero a todos os seres, animados e inanimados, quer dizer, desanimados. Lembrando que alma, animal, animar, animado têm a mesma origem. Com o tempo, confundiu-se gênero com sexo, e o negócio ficou complexo e com plexo. Já disse o filólogo que “negócio é a negação do ócio”. E lembramos que “filologia”, de onde filólogo, é “amor às letras”, i.e., às palavras. “Palavras são palavras, nada mais do que palavras”, já dizia o bordão do personagem televisivo de Dias Gomes. Para finalizar, mais este poemínimo:

grande é o mar

mais grande é amar

 

Tenho escrito.

O Texto e o Intertexto

O princípio da intertextualidade entende que todo texto é, na verdade, um intertexto, já que dialoga com textos anteriores. O termo foi criado pela filósofa e escritora húngara Julia Kristeva, e assume diversas acepções, já que designa várias modalidades de tratamento textual, entre as quais a citação, a tradução, o plágio, a paródia, a paráfrase, e assim por diante. Se é verdade que nenhum indivíduo é uma ilha, o mesmo se pode dizer de um texto. Entretanto, a aplicabilidade desse conceito fica algo aquém de sua máxima pertinência quando se trata do texto artístico. Isso porque, a nosso entender, o texto artístico, e mais especificamente o texto poético, não só dialoga com textos anteriores, mas participa da natureza de outros textos artísticos, como se dissesse a mesma coisa mas de outro modo. Não é à toa, portanto, que muito poeta, ao ler poema não de sua lavra, se sente inclinado a responder com outro poema. Por certo, o plágio, a paródia e a paráfrase, embora aqui se encontrem, nem sempre fazem jus ao texto original. Não obstante, não se pode negar que, quando se trata de textos e poemas traduzidos, há o risco (extremamente oportuno e bem-vindo) de a tradução ficar “melhor” que o original, embora na maioria das vezes fica aquém desse resultado.

Estamos pensando na tradução da obra As Flores do Mal, do poeta simbolista francês Charles Baudelaire, pelo também poeta modernista e acadêmico, brasileiro, Guilherme de Almeida. Quando a intertextualidade da tradução alcança esse efeito de igualar e, mesmo, “superar” o original, isso se deve sobremaneira à poeticidade do próprio tradutor, como se a reproduzir ou sobrepujar o original pela “recriação” do original. Toda tradução, na verdade, é a busca de uma “transcriação”, é, em última instância, uma leitura. Lembramo-nos aqui do texto de Jorge Luis Borges, “Pierre Menard, o autor do Quixote”, em referência à obra de Cervantes. Entre as questões que então se levantam está a da autoria e da coautoria de uma obra, podendo-se aqui recuperar a tese da leitura criativa e da apropriação de um texto; e acrescentamos, em coerência a essa visão, que todo autor é, na verdade, coautor de si mesmo, quiçá o leitor mais gabaritado do texto “original”. O escritor Umberto Eco chega a afirmar que, escrita a obra, todo autor deveria se suicidar, para não impedir a leitura. E chegamos mesmo a nos lembrar do que teria afirmado um escritor curitibano, ao ler uma tese de doutorado sobre sua obra: “você é muito melhor leitora de minha obra do que eu sou autor dela”. Cite-se, ainda, o cronista Fernando Sabino que, em palestra, teria respondido que não percebera que tinha escrito o que a interlocutora mencionara. Essas questões têm repercussão em duas outras que surgem em sala de aula: o que o autor quis dizer com isso? Será que ele pensou nisso?

À primeira pergunta, Paulo Leminski respondeu algo irritado: eu não quis dizer: eu disse! À segunda pergunta, cabe responder que o texto artístico incorpora elementos que não estavam presentes no momento de sua produção e dialoga com outras temporalidades, relegando a questão a segundo plano, levando-nos a concluir que, publicada a obra, em última edição, o autor não pode autorizar nem desautorizar qualquer leitura potencial, desde que isso incumbe ao próprio texto, e não a quem o enunciou. Finalizando, recaindo hoje a tônica mais na leitura do que na autoria, pode-se postular existirem três instâncias do texto: a) o que o autor quis dizer; b) o que de fato disse; c) o que o leitor entende. Essas três instâncias nem sempre se processam à supostamente pretendida perfeição. Per fas et nefas.