anagramas

Certa vez uma amiga minha me contou um sonho que tivera à noite. Sonhou que ela vivia na Rússia e se chamava Tenaicra. Fiquei interessado no sonho, e lhe respondi que o sonho tinha alguma verossimilhança interna. Não que ela tivesse sido russa, nem vivido naquele país. Talvez, quem sabe. O verossímil da “história” é que, confirmei na prática, o nome que ela trazia, Tenaicra, é um anagrama perfeito de Caterina, um nome bastante comum na Rússia.
Pra quem não sabe, anagrama é a transposição de todas as letras de uma palavra de modo que se forme uma nova palavra, que muitas vezes nem sequer lembra a palavra original. Ainda em relação a Caterina (e a Tenaicra), esse nome originou um anagrama que serve, mesmo, de nome feminino dado a bebês. Trata-se de Natércia, que é morfologicamente mais próximo de Tenaicra. (Curiosamente, própria palavra anagrama se presta a um anagrama significativo: ama angra).
Isso nos faz lembrar o neofreudiano Lacan, que postula ser o inconsciente estruturado como linguagem. Interessante que, se assim o é, e ao se manifestar durante o sonho, o inconsciente muita vez traz expressões verbais claras ou implícitas. Eu mesmo sou testemunha desse funcionamento. Com frequência acordo à noite com algum sonho em que a palavra prevalece sobre a imagem, embora o contrário seja muito mais frequente. Certa vez, eu estava bem desgostoso com certa senhora, uma de cujas qualidades era massa corporal acima do normal, até então não qualificado eufemisticamente como plus size. Não que o plus-sizeness da madame importasse. O que me afetava era a sua atemporalidade: a senhora era sim sem hora.
Foi quando então, numa daquelas noites, acordei de madrugada ouvindo em minha mente as palavras “a droga da gorda”, “a droga da gorda”… “A droga da gorda?” “A drogada gorda?” – pensei. Percebi, então, que meu inconsciente regurgitava um insumo indigesto, em referência à não-digesta nem-dileta senhora, e percebi que se tratava de um palíndromo, uma palavra ou frase que pode ser lida de trás pra frente e de frente pra trás. Quem quiser conferir é só fazê-lo. “A droga da gorda” ou “a drogada gorda” me devolvia, algo compensatoriamente, o meu idem excesso de peso, e confirmava a minha não digestão de algo que, de algum modo, eu mesmo precisava assimilar.
A coisa era, mesmo, inexorável, e me flagrei que inexorável significa “aquilo que não se pode pôr goela afora”, i.e., que não se pode vomitar. E tive então a ocorrência de outro palíndromo, ÓTIMO VÔMITO, este substantivo que também pode ser lido como verbo: (eu) vomito. E tudo de acordo com a (a)temporalidade (re)versa do inconsciente. Pra finalizar, a passagem de “Sampa”, composição Velosísmica: és o avesso do avesso do avesso do avesso. E vice-versa. Ou verso?
(A propósito da ilustração, também pode ser lida: “Jesus te ama, seja Mateus”, ou seja, um dos evangelistas.)