Salve lindo pendão

Salve lindo pendão
O domingo mais colorido e festivo que eu passei na vida foi aquela segunda-feira de um escaldante verão em Moscou. Os históricos quase quarenta graus deixavam a juventude histérica. As meninas, eufóricas, entravam de roupa e tudo naquele pretensioso chafariz em frente às altas e austeras muralhas vermelhas do Kremlin. As estátuas dos cavalos jorravam águas e alegrias. Dezenas de turistas clicavam suas câmeras querendo levar para casa registros daqueles momentos quase inimagináveis. Eu também.
Já satisfeito com as imagens clicadas, vou me afastando dali, quando vejo duas moças se aproximando de um grupo de rapazes. Com maquiagem carregada, longos cílios e roupa estilo cosplay, destoavam totalmente das jovens do chafariz. Algo ali ocorria. Resolvi clicar minha câmera. Cliquei. Elas viram… e não gostaram. Chegaram-se para o grupo de rapazes e, apontando para mim, falaram ao suposto líder: “- Sbrzenewsky photograph mevledev…” O “photograph” eu tinha entendido.
O líder do grupo, de peitoral e peitoril do tamanho do Brasil, se aproximou, esbravejando: “- Sbrzenewsky photograph mevledev…” Novamente o “photograph”. Respondi, desconfortável, caprichando no inglês: – Unfortunately I can’t understand you. Ele vociferou: – gresbnie burtzky parakalov. Bastante intranquilizado respondi-lhe, apontando para a bandeira do Brasil no chapéu de pano que eu tinha na cabeça: B R A S I L…s
Surpreso e quase feliz, ele exclamou: – Ah… Braziiiliiia…! Kaká… Ronaldínio… – Yes…, and Romário e Bebeto, and Pelé, Tostão e Pepe…! Tranquilizado e sorrindo ele se afastou. Mais tranquilizado e sorrindo fiquei eu…

Números

Chamava-se Virgínia. Nos anos sessenta tinha entre 50 e 60 anos. E me amava. Eu um garotinho robusto, 3 ou 4 anos de idade. Respirava a aquietada atmosfera de uma criança abandonada aos cuidados do cuidado alheio. Orfanato. 100 ou 150 menores de primeira infância. E a Virgínia, Dona Virgínia, com a voz rouca do excesso de cigarro, transformava meus primitivos temores em segurança quando me pegava no colo. Ainda ouço sua voz.

Um dia, ainda 3 ou 4 anos de idade, fugi. Algo que me deixara triste ou revoltado. Quando vi, estava na casa da Dona Virgínia. Nem sei como achara caminho. Talvez ela mesma tivesse me levado e tomei para mim o mérito daquele meu primeiro ato de rebeldia. Segurança recuperada, no outro dia de volta ao anonimato coletivo de todos aqueles pares de olhinhos ansiosos de tudo e de todos. E a Virgínia, sempre vigilante, me compreendia, me enxergava, me amava. E eu nem sequer podia imaginar que viria um dia em que sentiria tanto a falta de ouvir sua rouca voz.