atitude

atitude é tudo o que resta

quando nada mais resta aquém de tudo o que se esfuma

na única razão de não ter razão nenhuma

Falência da falas

entre a corte e o corte

a vale e o vale

o amor e a morte

– à mídia comídia de erros

nada mais resta

a não ser

ser honesta…

programação

p

– Não seja galinha como a sua mãe – ameaçava sempre a faminta voz do pai à garotinha, hoje de programa.

amorte ama

hoje só um poemeu

aprendi com a vida ávida

se amorte ama

ele/ela se espalha

até pelas coisas inamáveis

pirar para (não)(res)pirar

A questão que se impõe é, algo giriátrica e geriátrica, “qual é a pira”? Muitas são; poucas, sãs.

Já tive oportunidade de escrever (ia dizer dizer) que o poeta sofre de pareidolia verbal, i.e., consegue enxergar (na realidade, ver) palavras embaixo das palavras, o famoso “mot sur mot”. Assim, consigo ler em respirar “res-pirar”, de onde uma latinização talvez legitimasse entendermos “res = coisa”, de onde respirar poderia ser lido como “pirar com as coisas”.

Bem, estando ou não estando bem as coisas como bem estão (ao digitar, entreli: “bestão”), há que nos rendermos à inexorabilidade das coisas, e essa repetição do substantivo coisas pretende presentificar a coisificação a que estamos todos sujeitos e somos (quase) todos sujeitantes.

Mas a ideia deste artigo ocorreu quando um amigo com quem entretenho diárias tertúlias, algo perplexo com algo, exclamou em tom de desabafo: regras para respirar. E agora mesmo ajustei o título, grafando-o como o fiz acima, pelo simples acréscimo do advérbio de negação hifenizado e entre parênteses (não-).

A questão é a cegueira que nos querem impor sobre a cegueira que se nos impõe a condição de humanas criaturas. Superável ou não, tratar-se-ia de uma condição inata? Em nosso auxílio vem Houaiss que, no adjetivo inato, registra:

Rubrica: filosofia. no cartesianismo, que se origina da mente, sem qualquer mescla com a experiência sensível nem influência da imaginação criadora (diz-se de ideia);

Derivação: por extensão de sentido. Rubrica: filosofia. na filosofia moderna, que tem sua origem em ou deriva de ou é inerente à mente ou à constituição do intelecto, em lugar de ser adquirido com a experiência.

Finalizando, o ponto e vírgula último e o ponto final derradeiro tivemos de acrescentá-los, a seguir alguma regra que alguém já terá formulado algures e alhures.

poeta: coautor de si mesmo

Poeta, coautor de si mesmo

Uma amiga minha, poeta porém que nunca fez formalmente um poema, vem a confirmar minha tese da coautoria do poema e de que o poeta, também ele, é coautor de si mesmo. Certa feita fiz um poema assim:

de dentro de minhas entranhas

tua estranha imagem extrai tamanho encanto

que meus olhos

repousados

respondem sim ao próprio espanto

Quando lhe mostrei o feito, minha amiga ficou tão sensibilizada, que, sem eu saber, levou o poema para a nossa turma de amigos, em maioria professores da área. Sob a orientação da missivista, teriam se posto a conjecturar sobre quem seria o autor do objeto poético em questão. Entre os conjecturados poetas, contou-me ela que a amiga tal disse este, o amigo aquele, aquele, e entre estes e estas e aqueles e aquelas constaram nomes como (suspiro…!) Dylan Tomas.

Senti-me, mesmo, lisonjeado ao saber do julgamento a que eu fora submetido sem o saber então, e descobri, mais tarde, que a amiga em referência chegou, mesmo, a manuscritar a prima obra e a colocá-la sobre o espelho de sua penteadeira.

Passaram-se alguns meses, e por algum movimento do irrequieto inconsciente me veio o impulso de rever/revisar/reformar o tal poema, e com a aquiescência do consciente assim ficou/fiquei:

de dentro de minhas entranhas

tua estranha imagem extrai tamanho encanto

que meus olhos

extasiados

exclamam sim ao próprio

espanto

Em que troquei o repousados/respondem do primeiro por extasiados/exclamam do segundo. E o excesso de “ee” veio, agora, ser confirmado pelo título, até então inexistente, mas que depois de então me ocorria, qual seja: exagero. Minhas estâncias estéticas ficaram então entusiasmadas, e comuniquei o “aperfeiçoamento” do poema à amiga poeta/poetisa. Ela não aceitou nem aceita a reformatação. Segundo ela, o poema é, mesmo, o primeiro; primeiro eu, o poema é, mesmo, o segundo, mesmo (e talvez por isso mesmo…) com toda a hiperestesia que se me lhe impus.

Finalizando por ora, finalizo com resposta que dei a uma amiga carioca que me pediu que confirmasse sua afirmativa de que o poeta carioca Vinícius de Moraes deveria ser lido com sotaque carioca. Disse-lhe, pois: o poema tem de ser lido com o sotaque do leitor!

Dito e feito, dito efeito.

em busca do palíndromo perfeito

Desta vez consegui, acho, um palíndromo perfeito, que consegue articular com precisão quase litúrgica os quatro estratos linguísticos, quais sejam, morfológico, sintático, semântico e estético, embora este último não se restrinja tão-somente à linguagem verbal. Assim, sinto-me, hoje e agora, satisfeito em postar este “singelo” e “sin hielo” palíndromo:

ARTE LAICA SAI DE DADA FASE DA LUA AULA DE SAFADA DE DIA SACIA LETRA

Observe-se, também, que a inversão, do centro para a periferia, “diminui” o palíndromo, que assim fica (ficaria):
AULA DE SAFADA DE DIA SACIA LETRA ARTE LAICA SAI DE DADA FASE DA LUA

em que a inversão do sujeito, “arte laica” do primeiro, para “aula de safada” do segundo, relativiza a arte pela valorização da aula, quer dizer, substantivo por substantivo, um mais abstrato por um mais concreto, mais duro e menos escuro. No poema, o futuro a eu pertenço. Polemizemos e poemizemos. That is all folks… Por hoje pelo menos.

pálido palíndromo

Quem me segue sabe que um de meus passatempos favoritos é “descobrir” palíndromos. Digo descobrir porque creio que tantos quantos se dediquem a esse folguedo acabarão, cedo ou tarde, “tropeçando” nos mesmos palíndromos, já que esses objetos verbais são, por força de seus limites morfológicos e sintáticos, bastante escassos. Para quem não sabe, o palíndromo é uma curiosidade verbal, uma composição lexical que pode ser lida de frente pra trás e de trás pra frente. E, “terminado” o palíndromo, vai-se, então e só então, verificar o(s) significado(s) que ele pode propiciar, suscitar, etc. Coloquei aspas em “terminado” porque todo palíndromo é potencialmente aumentável, no jogo entre os estratos morfológico, sintático e semântico. Pode, portanto, ser melhorado. Sempre. Etc.

Creio, ainda, que ninguém faz um palíndromo, mas se apropria de um pré-existente. E assim por diante. E a única posse que alguém talvez possa reivindicar residiria na possível originalidade de uma leitura insuspeita. Assim, conseguiu-se em mim revelar-se o seguinte palíndromo. A plasticidade das possibilidades de pontuação afetarão as possíveis leituras, razão pela qual escrevemos em maiúsculas e sem pontuação. Quem quiser, que se divirta. Ei-lo:

MEGA AGE MAGO TARÔ CEDO LEDO MORO MOEDA COME DE MÁ GOTA TANGA MAGRA LARGA MAGNA TESE SAFADA RIPA RÉ DANO ZANGA MAS O DILETO MORO CEDE A MAGNA TOGA MAS SE A SACANA FUMEGAR RABO BARRAGEM UFANA CASA ESSA MAGO TANGA MÃE DECORO MOTEL IDOSA MAGNA ZONA DERA PIRADA FASE SE TANGA MAGRA LARGA MAGNATA TOGA ME DEMO CADE O MORO MODELO DECORA TOGA MEGA AGEM