ostra feliz

ostra feliz…

Outro dia senti-me quase ultrajado em minhas convicções ao ler, num texto que me chegara às mãos por incumbência de minha profissão, esta pérola: ostra feliz não produz pérola. O texto mencionava o autor da frase: Ruben Alves.

Ainda injuriado, fui trocar umas ideias com um amigo, que, pela conversa, concordava com o autor da frase. E eu repliquei, afirmando que, corrigida a frase, melhor ficaria: ostra saudável não produz pérola. O texto que originara a discussão fazia um uso bastante ideológico da frase, numa visão bastante limitadora e avessa à tal da expressão “zona de conforto”, que, me parece, não se pode confundir com a que proponho em resposta a esta, ou seja, zona de acomodação, esta, sim, incomodativa.

Mas, para metabolizar minha indignação, fui pesquisar, e descobri, para alívio meu, que o autor da frase não era cretino, cheio de má-fé, com discernimento duvidoso e mente deturpada por interesses escusos. Ruben Alves estava se referindo a si mesmo, à condição de que o escritor precisa sentir-se instigado, desconfortável, “infeliz” para se motivar a dar vazão à sua criatividade.

Não sei se concordo plenamente com esse autor, mas sei que, falando de si mesmo, ele pode achar e dizer o que quiser, afinal ele é dono do seu próprio discurso, ainda que Foulcault e Bakhtin com ele talvez não concordassem.

Sendo eu também um profissional das letras, finalizo com este poema:

imerso neste imenso mar de gente

às vezes penso que meu verso onipotente

pode quebrar a corrente de tanta falta de senso

então paro, penso e percebo

que o feito máximo do meu verso

não passa de um efeito placebo

DOGMAS

A crença é uma espécie de pré-certeza. É uma expectativa de verdade, uma espera (mais de…) de confirmação ou (do que de…) refutação de uma suspeita. Confirmada ou refutada, deixa de ser crença e se torna certeza. Nesse aspecto, a crença se relaciona com o dogma, este nem sempre passível/possível de ser retirado dessa categoria cognitiva. Como costumo dizer, não há problema nenhum em tomar o dogma em sua própria dimensão; o problema só surge quando se esquece disso e se toma o dogma como verdade. E isso, infelizmente, ocorre, e muito.

O dogma, como formulação do pensamento, é passível de permear toda e qualquer área do conhecimento, humano. Vírgula em conhecimento, humano, ante a concessão de que pode/possa haver algum (conhecimento) transcendente. De novo a expressão da certeza/incerteza pela justaposição do indicativo, pode, ao subjuntivo, possa. De onde também a legitimidade dos paradoxos, e este é metatextual: não existe certeza nenhuma.

Mas voltando à questão do dogma, este, ao exprimir crenças, recorre à linguagem alegórica, simbólica, do consenso ou de um consenso. Acima da crença está a fé, uma certeza inabalável, inquebrantável, pelo menos a princípio. Sendo de natureza emocional e, por conseguinte, irracional, é despertada por aquela via, i.e., via emocional, irracional.

Mas saindo dessa sisudez textual, e recorrendo a minha proverbial pareidolia verbal, vejo em dogma cão, dog, que, em inglês, invertido, resulta em god, i.e., deus, a nos lembrarmos da designação de cão ao… peta. E essa oposição maniqueísta bem x mal, luz x trevas, espírito x matéria não parece de fácil (dis)solução, razão por que tem sido objeto do interesse ambigramistas, palindromistas, artistas e uns tantos …istas, como se pode verificar pelos objetos verbi-visuais a seguir.