beleza não põe mesa

O poetinha que me perdoe, mas beleza não é fundamental. Pelo menos não aquela coisa que coisifica a mulher e que não se refere, propriamente, a beleza, mas a desejo. Nada contra o desejo, pelo menos não quando este não conspurca a corporeidade homenina, sendo-me permitido o neologismo. Mas se a beleza é a promessa de paraíso, o desejo quase nunca (se alguma vez) o é. Entretanto, quando Vinícius disse “as feias que me perdoem, mas beleza é fundamental”, isso disse sem estar concorde aos perceptos Morais, sobrenome que ele próprio regrafara Moraes, a querer distanciar-se do adjetivo atinente a moralidade. Mas já dizia o ditado latino: ridendo castigat mores, que o brasílico humorista disse significar “rindo castiga-se mais”, subvertendo o significado: “com o riso corrigem-se os costumes”. Ao que tudo indica, o venéreo poeta carioca levou à risca sua formulação, tendo contraído os sagrados laços do matrimônio não uma, nem duas… nem nove, nem dez, mas onze vezes, o que autoriza perguntar se o poético letrista estava a cada nova núpcia apenas confirmando isso e o seu já proverbial não eterno, mas “infinito enquanto dure”.

Seja como for, ou seja como seja, nem sempre se consegue ultrapassar os percalços que enfrenta quem tem na alma o anseio de estabelecer a ponte entre o lirismo puro da palavra pura e a dura inexorabilidade do desgaste conubial nem sempre inevitável, e que põe à prova a católica injunção matrimonial até que a morte os separe. O proverbial “falar é fácil”, é mesmo. Falar besteira, também, e fico pensando que as asneiras que todos dizemos não o fazemos por pura pressa; alguns de nós, pelo menos, já que é de supor que, a menos que se trate de texto humorístico, ninguém gosta de proferir estultices. Já disse em outra matéria que a pressa da expressão muita vez atropela o inefável. E já disse Pessoa: o poeta é um fingidor // finge tão completamente // que chega a fingir que é dor // a dor que deveras sente.

Eu, por mim, em minha mesmice, se já disse asnice, sentisse, sinto muito.

algemas na alma

Muito se terá escrito, enquanto viva alguma alma, sobre o alimento que lhe dá vida, something stupid…, tão fácil e tão difícil, tão abundante e tão raro, tão pleno e tão restrito, tão-tão e tão-tão, por que somos tão tantãs. Um substantivo que não deveria ser masculino, porque parece que a porção feminina do universo mais se coaduna com ele, isto é, ela. Na verdade, uma torrente/corrente/riacho de energia que OSHO diz: a mesma energia que, no plano físico, é sexo, no humano é romance e no espiritual é prece. A lição que todos viemos aprender, mas que nossa miserabilidade humana, advinda do desamparo de que somos todos herdeiros, não parecemos aprender.

Fico pensando que, se é verdade que você antes de nascer fez um acordo com o universo e, portanto, como dizem, um contrato com seus pais, e, por conseguinte, contrata um kit de experiências de que precisa para crescer, isso tudo de acordo com a chamada Lei do Carma, fico pensando, repito, se toda criança já não estaria, ab ovo, submetida ao extremo rigor de um suposto controle do acaso. Não sei a que ponto se aplica a acalentada expressão que diz “Deus dá o frio conforme o cobertor”. Creio que muitos de nós, talvez a maioria, gostaríamos de crer nisso. E provavelmente a maioria crê. Entretanto, parafraseando o cantor que disse “esperar não é saber”, propomos se troque esperar por crer, em parcial refutação ao Mito de Pandora, que, me parece, significa “todos” (pan) “dons” (dora). Para quem não sabe, esse mito grego conta que Pandora, ao abrir a caixa que continha todos os males, espalhou-os todos pelo mundo; mas restou, no fundo, a alvissareira Esperança.

Mas se amor é, antes de mais nada (encontro de…) alma, a licença poética me permite a equação: amor + alma = almor. Confesso que não me agrada muito esse artefato trocadilhesco. Mas foi o que se pôde conseguir para o momento. Essa deselegância vocabular talvez seja compensada com esta outra: amor = algemas na alma; = almas gêmeas = almas na alma; ALgeMAS. Então, se eu amo você, não mais eu nem você, somos um voceu, voz do céu. Finalizando, finalmente, este final: algemas na alma, gemas na alma, gêmeas na alma, gême-as na alma. Calma, alma, almei.