vence quem convence

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Descobri outro dia que a frase vence quem convence é mais que mero jogo de palavras, que em convencer está, etimologicamente, a preposição com e o verbo vencer e que, portanto, convencer significa, em certo sentido, vencer junto. Digo isso tudo sem me convencer de que, no convencimento, não existe uma espécie de persuasão por uma espécie de imposição. Lembro ainda de ter visto, no vidro traseiro de um automóvel, um decalque bem humorado que dizia: Não me siga: eu também estou perdido. Isso ainda me lembra de quando você desce do avião e, sem saber onde fica exatamente a esteira onde retirar sua bagagem, segue os passageiros que estão andando na sua frente, supondo que é mais difícil uma multidão estar errada, sendo você um só.

Isso tudo ainda me lembra do episódio em que o poeta Cacaso, tendo entregue um de seus livros ao espirituoso deputado Ulysses Guimarães, este sorriu e o chamou ao ler a poestesia: unidos perderemos, em contraponto involuntário ao que disse Leminski: distraídos venceremos. Unidos em um canto dissonante, dissonando num canto desunido, não dá pra defender que cada qual fique no seu canto, e tão só.

Aos torcedores do contra, resta contrariar a torcida; mas a que preço ou a preço de quê? Errare humanum est; pero acertare tambien! Entre erros e acertos fica o enterro de uns tantos pretensos tensionados. Intenções e intensões não são meras escolhas do arbítrio humano, nem tão livre assim. Resta, pois, o que resta: alinhar-se aos que se alinham e derrubar o anarquista “hay gobierno, soy contra”. Afinal, como já se disse alhures, o pior regime de governo é a democracia, excetuando-se todos os demais, e a democracia é a ditadura da maioria. Tenho dito.

lapsos de imagem

Um conceito psicanalítico importante é o de ato falho, amiúde confundido com outro conceito também de Freud, qual seja, o de lapso de linguagem. Sucintamente, ambos, ato falho e lapso de linguagem, se referem ao mesmo princípio psíquico, em que o inconsciente consegue burlar a censura do consciente e, no primeiro caso, nos faz fazer algo que estávamos nos segurando para fazer; no segundo caso, de lapso de linguagem, deixamos escapar algo que resistíamos em dizer. Assim, ato e lapso seguem o mesmo princípio, geralmente em nosso prejuízo, e aqui também queremos o significado de “pré-juízo”, i.e., juízo antecipado e, pois, preconceito e pré-conceito.

Quando tomei conhecimento desses postulados do Pai da Psicanálise, de imediato me ocorreu que, se o princípio defendido por Freud se aplica a um ato e, também, a uma fala, deve também se aplicar ao contraponto da palavra, ou seja, a (e à…) imagem. Nada mais natural, portanto, supor que encontraríamos exemplos de imagens que ilustrariam nossa desconfiança. E, por “coincidência”, em busca por “imagens subliminares”, deparei-me com “bad logos”, ou seja, logomarcas ruins, com alusões conscientes ou não a conteúdos sexuais, reprimidos.

Assim, mesmo correndo o risco de apedrejamento por uns tantos santos defensores da moral e dos bons costumes, integrantes de parcela da população, reproduzimos a seguir a imagem que, por certo, fugiu à intenção original de seus autores. Mas fica a proposição, junto a ato falho e lapso de linguagem, do termo “imagem falha”, que também poderia ser chamado de “lapso de imagem”.

A imagem acima é a logomarca de um restaurante japonês. O círculo vermelho sobre o fundo branco remete à bandeira do Japão, e a casa representa a típica construção nipônica que recebe o nome de pagode e que alguns chamam de pagoda, para desidentificar a construção da conhecida manifestação musical brasileira. Feitas essas explicitações quiçá ociosas, não é necessário explicitar a leitura da imagem como representativa do (de) ato sexual, cuja expressão há muito tem sido usada como instrumento de repressão e poder.

repalindromizando

ACABA BAILE VERA LAIA REAL E SOL E RAIAVA AO BANIR AMA VAIA VILÃ ATROPELA VOO SÃ IRA CASO RITO SEM O GOMES O COMETA SÓ MARINA BOA EU APOIO JAIR ATRELA ALERTA À IRA CATÓLICA VOO RICO SEM O GATO BOA SUCESSORA ALUNA GORDA ACESSA MAS SECA A DROGA NULA AROS SE CUSÃO BOTA GOMES O CIRO O VACILO TACARIA ATRELA ALERTARIA JOIO PAU E AO BANIR AMOS A TEMO COSEM O GOMES O TIRO SACARIA SÓ O VALE PORTA ALI VAIAVA MARINA BOA A VAIAR ELOS ELA E RAIA-LA REVELIA BABACA

Como o palíndromo propõe vários significados possíveis, ou seja, é passível de várias leituras, conforme a pontuação que se lhe imponha, escrevo todo em letras maiúsculas e deixo a cargo do leitor a pontuação que melhor achar segundo o significado que melhor lhe parecer. O núcleo deste palíndromo, quer dizer, a parte central a partir da qual se constrói o resto, é ACESSA MAS SECA, unidade que tem a letra M de MAS como centro do centro. Outra coisa: o palíndromo pode ser modificado, desde que se introduza no trecho equidistante correspondente o inverso do que foi introduzido. Assim, tentei, mas não consegui fugir ao “palavrão” que advém da inversão de BOA SUCESSORA. Quem o conseguir talvez pudesse me contar. (A propósito, nada contra o palavrão em si.)

palíndromos políticos

Quem me acompanha sabe do meu passatempo de criar palíndromos, aquelas palavras/frases/períodos que podem ser lidos de frente pra trás e de trás pra frente. O significado vem a reboque da construção verbal, que possibilita várias leituras, conforme a configuração e/ou reconfiguração. Existe a suposição de que existe o palíndromo perfeito, que articule a grafia, a sintaxe e o significado de modo irretocável, isso tudo aliado à extensão, quer dizer, ao tamanho do palíndromo, ou seja, quanto maior, melhor. Há, porém, que esperá-lo ou, quem sabe, desesperá-lo. O palíndromo confirma a tese de que o significado está em nós mesmos, somos nós mesmos e somos nós que os projetamos nas palavras. 

Assim, brincadeiras à parte e inclusas, aqui estão alguns palíndromos à espera de interferências que os tornem irretocáveis. Ei-los:

A CITAR COLA FALOCRÁTICA

SÓ MARINA BOA EU APOIO JAIR ATRELA ALERTA A IRA CATÓLICA VOO RICO SEM O GOMES O CIRO O VACILO TACARIA ATRELA ALERTARIA JOIO PAU E AO BANIR AMOS

As possíveis leituras ficam a cargo do leitor. Observe-se, por exemplo, que SÓ BOLSONARO PORÁ NOS LOBOS poderia ter o PORÁ substituído por Cora, Dora, Fora, Gora, Mora, Nora, Tora. Além disso, lobos também significam as grades de metal que se colocam nas bocas de esgoto. E, por ressilabação, poderia ser SÓ BOLSO NARO PORÁ NOS LOBOS, POR ANOS LOBOS, etc. E o mesmo tipo de interferências pode ser aplicados a todos os palíndromos. Quem quiser, que se divirta.

anas pra que te quero

As Anas que passaram pela minha vida nunca me passaram indiferentes. A maioria, felizmente, me passaram bem. Mas nem tudo é felizmente. Houve quem que…, que… que nem quero… Se o nome Ana significa, em hebraico, “cheia de Graça”, alguma houve que em adamaico significou “cheia de desgraça”. Se ana é também prefixo de negação, alguma houve que me negou o que, então, cri-me de direito, crime de direito. Ah, não, crime ninguém não, em negação da negação, talvez, então, alguém sim. Fosse for ou flor, nem toda seja que a cheira, dias de antanho não resisti ao nome, ouvindo marido chamar, ambiguamente, a esposa com o diminutivo Aninha. Graça ou desgraça, não resisti, e se me (re)compus (n)este singelo (sin hielo) pequeno poemeu:

quando a ana se aninha

no anil dos meus olhos

eu fico feito passarinha

pipilando por seus pimpolhos.

Anos depois, pintou-se-me este palíndromo:

ANA BRUACA CACA URBANA

Em que caca poderia dar lugar a faca, jaca, laca, maca, paca, saca, vaca, à escolha de quem o valha. Eu fiquei com a primeira letra da ordem alfabética, e as demais assinaladas introduziriam algum significado, quiçá, mais obscuro. Sei lá, entende…? E aqui transpomos ao palíndromo o que Quintana disse sobre o poema: Pra qual delas o poeta faz o poema? Pra nenhuma e pra todas, responde. Seja como flor, entre o amor e o ódio, fico com o sódio, eu anacoreta. Acho, mesmo, que meu lado eremita entende que a própria linguagem, mais do que comunicar e comungar, cumpre a função de disfarçar a solidão, e lembro que defunto significa “quem cumpriu sua função”, que, no caso, função-mor, amorviver.

Tenho vivido vívido.