Textos (in)completos

Um texto nunca está completo. Do ponto de vista do autor, enquanto este vive; da leitura, enquanto existirem leitores. Estamos nos referindo, (in)obviamente, ao texto artístico, já que os demais enquadram-se em molduras mais previsíveis; mais estáticas do que estéticas, e a avaliação estética sempre se articula com elementos que nem sempre estão presentes no momento de sua produção. Se é verdade que todo texto é um intertexto, porque dialoga com textos anteriores, verdade será que o texto artístico, mais do que dialogar com os demais textos artísticos, participa da natureza desses mesmos textos, como se a repeti-los (ia saindo “reptil os”, de onde se subouvir, “réptil”, “sub-reptício”), ipsis litteris ou, como queiram, ipsis verbis, desde que se trata, isto sim, não das mesmas (ipsis) letras (litteris) ou palavras (verbis), mas dos mesmos significados.

Daí porque o poeta, ao ler outro poeta, amiúde sente-se tentado a fazer outro poema em resposta. A exemplo de:

Criou-me, desde eu menino
Para arquiteto meu pai.
Foi-se-me um dia a saúde…
Fiz-me arquiteto? Não pude!
Sou poeta menor, perdoai!

A esse poema de Manuel Bandeira, o poeta José Paulo Paes responde:

(Manuel Bandeira…) Poeta menormenormenormenormemenorme

em que a repetição de “menor” resulta em “enorme”.

Temos ainda o diálogo entre Olavo Bilac e Dante Alighieri, em que o poeta brasileiro toma emprestado do autor italiano o primeiro verso da Divina Comédia, que lhe serve de mote para o poema:

Nel mezzo del cammin

Cheguei. Chegaste. Vinhas fatigada

E triste, e triste e fatigado eu vinha.

Tinhas a alma de sonhos povoada,

E a alma de sonhos povoada eu tinha…

E paramos de súbito na estrada

Da vida: longos anos, presa à minha

A tua mão, a vista deslumbrada

Tive da luz que teu olhar continha.

Hoje, segues de novo… Na partida

Nem o pranto os teus olhos umedece,

Nem te comove a dor da despedida.

E eu, solitário, volto a face, e tremo,

Vendo o teu vulto que desaparece

Na extrema curva do caminho extremo.

Não faltou Drummond a continuar a corrente, com o significativo poema modernista

No meio do caminho

No meio do caminho tinha uma pedra

tinha uma pedra no meio do caminho

tinha uma pedra

no meio do caminho tinha uma pedra

Nunca me esquecerei desse acontecimento

na vida de minhas retinas tão fatigadas.

Nunca me esquecerei que no meio do caminho

tinha uma pedra

tinha uma pedra no meio do caminho

no meio do caminho tinha uma pedra

Esse poema, publicado no longínquo 1928, causou exagerado e excessivo espanto em enorme elenco de eleitos críticos incrédulos que chegaram mesmo a vociferar contra. Eras passadas: passadas iras.

Este mesmo poeta que ora vos escreve escreveu solidariedando-se:

Drummondeando

No meio da retina

pedra eterniza

caminhada que não houve.

Talvez pudéssemos dizer que todo texto é, na verdade, um fragmento; e ao escrevermos “fragmento”, pensamos numa partição alemão-português, de “frague” – pergunta, e mente, em oportuna pareidolia verbal, constatação que viria a ilustrar a asserção de que todo texto, quando responde, “morre”. Daí também nossa afirmação de que o texto artístico não pretende fornecer respostas a nossas inquietações, mas suscitar em nós nossas possibilidades de respostas, numa exteriorização de nossos conteúdos internos. Para finalizar, o poema de Alice Ruiz:

em que o corpo do texto, localizando-se no canto do espaço delimitado, dialoga com o espaço vazio e, pois, configura o próprio eu do/da poeta que vê, na relação eu-mundo, estática/extática-estética.

fora da caixinha

Uma expressão extremamente (pleonasticamente) expressiva é pensar fora da caixinha. Quem criou essa frase estava, ele(a) mesmo(a) pensando fora da caixinha; mellhor, cachola. Mas fico também pensando se pensar, realmente, já não significa “fora” da caixola; se “dentro” é, mesmo, pensar; se não é repetir nossas repetições e confirmar e conformar o já confirmado e conformado. Não me conformo. Tendo como ofício cotidiário o trabalho com a palavra, entendo a necessidade de soerguer-se acima da linguagem puxando-se pelo próprio cabelo. Como diria o parnasiano ditador: ora direis ouvir estrelas…; ao que redarguimos (sofisticado): ouvir, ou ver, melhor ouver, ou seja, ouvê-las. E há os que… com ou sem “h” ou “agá”.

O interessante do raciocínio com as palavras é o raciocínio de que não se pode raciocinar sem elas. Será que não…? Mentira da mente! Verdade seja dita: as palavras ajudam a organizar os pensamentos, a nos apropriarmos deles. E tão somente isso. Mas, porém, contudo, todavia, etc. e além, o nosso condicionamento à palavra é tão tão tão, que se nos tornam tã tã tã ou tantã, melhor escrevendo. Confesso que não me sinto confortável ao escrever o sofisticado verbo redargüir sem o trema, desconforto que comprova o referido condicionamento.

Entretanto, pensar fora da caixinha é necessário, não obstante perigoso. E não há garantia nenhuma de que o fazemos ou façamos, e se e quando ecoando eco ando… e ando… e and… end… e…

mestres

Um dos capítulos mais fascinantes e, por isso mesmo, mais elusivos e cavilosos do caminho espiritual é o que diz respeito aos chamados Mestres Ascensionados. Não obstante possam representar o que Carl Jung chama de arquétipo do Self, o Si Mesmo, corre-se o risco de se projetar na sublime imagem que deles se faz o contraponto de nossa incompletude, carência essa que alhures recebe a sofisticada designação de inópia interior. Embora Jung assinale que o citado arquétipo do Self é representado por Jesus, é oportuno estender essa concepção a outros seres, desde que estes podem aqui e ali melhor representar nossos conteúdos internos.

A Ordem Rosacruz chama a atenção para o perigo do culto à personalidade, à possibilidade de desvirtuamentos e desvios do que chama de a Senda (Path). Entretanto, não deixa de mencionar um adágio que circula entre tantos peregrinos que se encontram no Caminho: Quando o discípulo está pronto, o mestre aparece. Mas assinala também que o verdadeiro mestre é o Mestre Interior, cuja voz todos deveríamos aprender a ouvir, como os Sussuros do Self, Intuição, Voz Espiritual e denominações análogas.

Aos incrédulos a concessão de que a única certeza é a da própria existência, em cima da qual todas as outras certezas se constroem e se relativizam. Há, contudo, a inegável necessidade de crer, a irrevogável esperança do sublime, a sublimação de nossa materialidade, enfim. Se se deve concordar com a asserção de que viver é carecer, há também de se admitir que à vacuidade se contrapõe a plenitude, e de que a pré-existência da primeira implica a existência da segunda, em inextricável codependência. Se aos seres ímpares projetamos nossa potencial e almejada completude, talvez possamos extrair dessa mesma carência a força de que precisamos para caminhar, sempre sob a certeza de que somos, cada qual, e ao mesmo tempo, o caminhante e o caminho…

perguntar (não) ofende?

Perguntas… e perguntas… e…

Quando eu era adolescente, e isso já lá vão algumas décadas, havia um programa humorístico televisivo em que o personagem afirmava: perguntar não ofende. E fazia uma pergunta cuja resposta não seria de fácil digestão. Muita vez essa visão de pura e simples inquirição e não inquisição tem servido ao propósito de buscar esclarecer uns tantos pontos e uns santos contos. Assim, mesmo correndo o risco de parecermos cínicos, o que efetivamente não é nossa intenção, quer dizer, nem parecer nem ser cínico, formulamos algumas perguntas cujas respostas ainda por vir demandam certa paciência e passividade cognitiva, a ser removida em futuro não muito remoto, esperamos.

Conheci, certa vez, um rapaz que fazia algumas afirmações algo provocativas. Três delas, que eu me lembro, tinham a ver com o que hoje se enquadra na questão de gênero. A primeira: meu lado feminino é lésbico. A segunda: aquele cara gosta tanto de mulher, que até queria ser uma. A terceira: fulana é tão feminina, que se fosse homem seria gay.

Fico me perguntando, cum grano salis, se tais afirmações hoje não o enquadrariam na acusação de homofobia ou ou coisa que orvalha ou valha que o coisa.

De minha parte, fico me perguntando se a Lei Maria da Penha se aplica ao caso de briga entre duas companheiras; se algum dia alguma delas vier a matar a companheira, será enquadrada no crime de feminicídio. E se um cotista xingar outro, poderá ser processado por racismo?

Parece que se alguém chamar uma mulher cuja massa corporal esteja bem acima da média de gorda pode ser processado; que o jeito é chamar de “plus size”, que diz mas esconde. Esconde onde? Nem no trem nem no bonde. Sinceramente, eu tenho um porte físico que me autoriza reivindicar o direito de ser chamado de “plus size”. Mas eu me sentiria diminuído; não quero ser chamado de “plus size”. O mesmo acha minha irmã. Que o marido diz ter ela excesso de gostosura (difícil não pensar sexo e gordura).

Eu não estranharia encontrar alguém que dissesse que o tal feminicídio é, na verdade, um esposicídio, namoradicídio, companheiricídio, no caso, mulhericídio. E nessa de cídio isto, cídio aquilo, haveria o crime de matricídio, patricídio, filhicídio, maridocídio, preticídio, judeucídio, ladrão cídio, politicocídio, etecétera e tal ecídio. E o a enquadrar bandidicídio teria duas modalidades: legal – o bandido ser matado pela polícia; ilegal: o bandido ser matado por outro bandido (bandido quem?). (E o policial matando outro policial que queria matá-lo mas ele matou antes…? Quá… quá… quá… quase piada…!) Sem (des)graça.

tiro no bolso

Jamais me esqueço de uma professorinha de um jardim de infância que disse a um menino que inflação é um bichinho que dá no bolso e come o dinheiro da gente. Explicação singela e eficiente para a criança, e não deixo de ainda sentir certo carinho pela professorinha que eu nem conheci. Fico ainda pensando no infeliz psicopata que se alinha a tantos outros doentes que não conseguem superar suas fobias e, projetando-as em líderes, tentam matá-las matando-os. Ideologias e americanismos à parte, uns tantos Lincolns, Kennedys, Luther Kings, encabeçam a lista de mártires da democracia, e essa psicopatologia ganha foros de onipresente ameaça principalmente num momento em que a maniqueísta oposição esquerda/direita se dilui e os atuais movimentos migratórios parecem evidenciar que a fraternidade da condição humana extrapola os limites de jurisdições territoriais e políticas cuja gênese remonta aos primitivos esforços de organização das forças humanas com vistas ao bem coletivo.

Com Leminski, confesso: sou poeta; com a cantora, completo: não aprendi a amar. Não bastasse, meu entendimento de política e economia é pífio, e meu interesse tardio por esses fatores da vida de um país não me facilita nem acelera a respectiva e necessária assimilação. Poesia por poesia, estou mais para o último parágrafo de A Terceira Margem do Rio, de Guimarães Rosa, em que o narrador se situa ante o derradeiro adeus, da derradeira curva do caminho extremo, como diria Olavo. Ainda com o inominado narrador de Rosa, sou homem de tristes palavras. E é tudo o que sei fazer. E o lirismo puro da palavra pura do poeta se contrapõe ao excessivo pragmatismo do ato do político de ação. Fico sem saber qual é o ponto limítrofe ideal na escala que se interpõe entre a virtualidade do pensamento puro e a realidade da ação concreta.

Não obstante todos esses obstantes, não se pode suicidar a cidadania, uma cidadania suicida, uma suicidadania. O infeliz que se deixa levar ao extremo de suas convicções extremadas merece (…?…!…) uma Extrema Unção. Extremados (não)sejamos.

sobreviver

sobreviver

Outro dia fiquei pensando se grande parte dos males do mundo não decorrem da deformação do instinto de sobrevivência. O Houaiss diz que sobreviver significa “permanecer vivo (após a morte de)”, “continuar a existir depois de (algo)”, acepções que apontam para a suplantação da morte pelo prolongamento da vida. Em outras palavras, matar a morte com o excesso de vida, ou de elementos que parecem garantir isso.

Fiquei pensando também no paradoxo que é viver, já que implica em morrer, e, ainda, que o grande lance da vida é fazer as pazes com a nossa morte, como o faziam os poetas simbolistas, mediante um enfoque transcendental das coisas. E também na relação (in)consciente entre amor/vida, amor/morte, já que amar é também morrer para si e em si e viver para o outro e no outro, e, com isso mesmo, realizar um alter ego, um “outreu”, um ele mais eu, um eleu, numa recuperação dos primórdios da percepção que tem a criança de si mesma, como um “ele”.

Pensei ainda que o universo, em sua economia cósmica (ia dizer universal), não quer perder ninguém, e isso dá algum sentido ao absurdo da existência. E aqui entra em questão a importância/desimportância maior ou menor que alguém/ninguém tem ou não tem. Vem ainda à mente o que Osho dizia/disse: todo medo é, em última instância, o medo da morte; e que, se perdermos o medo da morte, perderemos todos os outros medos.

Para terminar/iniciar, um poeminha:

escatologia

vista vazia

voz lerda

o coração cheio de perda

a alma rota

encontrando a rota

erma

por onde se perde

tudo o que se herda.