a terceira margem do rio – Guimarães Rosa

1. Nosso pai era homem cumpridor, ordeiro, positivo; e sido assim desde mocinho e menino, pelo que testemunharam as diversas sensatas pessoas, quando indaguei a informação. Do que eu mesmo me alembro, ele não figurava mais estúrdio nem mais triste do que os outros, conhecidos nossos. Só quieto. Nossa mãe era quem regia, e que ralhava no diário com a gente — minha irmã, meu irmão e eu. Mas se deu que, certo dia, nosso pai mandou fazer para si uma canoa.
2. Era a sério. Encomendou a canoa especial, de pau de vinhático, pequena, mal com a tabuinha da popa, como para caber justo o remador. Mas teve de ser toda fabricada, escolhida forte e arqueada em rijo, própria para dever durar na água por uns vinte ou trinta anos. Nossa mãe jurou muito contra a ideia. Seria que, ele, que nessas artes não vadiava, se ia propor agora para pescarias e caçadas? Nosso pai nada não dizia. Nossa casa, no tempo, ainda era mais próxima do rio, obra de nem quarto de légua: o rio por aí se estendendo grande, fundo, calado que sempre. Largo, de não se poder ver a forma da outra beira. E esquecer não posso, do dia em que a canoa ficou pronta.
3. Sem alegria nem cuidado, nosso pai encalcou o chapéu e decidiu um adeus para a gente. Nem falou outras palavras, não pegou matula e trouxa, não fez a alguma recomendação. Nossa mãe, a gente achou que ela ia esbravejar, mas persistiu somente alva de pálida, mascou o beiço e bramou: — “Cê vai, ocê fique, você nunca volte!” Nosso pai suspendeu a resposta. Espiou manso para mim, me acenando de vir também, por uns passos. Temi a ira de nossa mãe, mas obedeci, de vez de jeito. O rumo daquilo me animava, chega que um propósito perguntei: — “Pai, o senhor me leva junto, nessa sua canoa?” Ele só retornou o olhar em mim, e me botou a bênção, com gesto me mandando para trás. Fiz que vim, mas ainda virei, na grota do mato, para saber. Nosso pai entrou na canoa e desamarrou, pelo remar. E a canoa saiu se indo — a sombra dela por igual, feito um jacaré, comprida longa.
4. Nosso pai não voltou. Ele não tinha ido a nenhuma parte. Só executava a invenção de se permanecer naqueles espaços do rio, de meio a meio, sempre dentro da canoa, para dela não saltar, nunca mais. A estranheza dessa verdade deu para. estarrecer de todo a gente. Aquilo que não havia, acontecia. Os parentes, vizinhos e conhecidos nossos, se reuniram, tomaram juntamente conselho.
5. Nossa mãe, vergonhosa, se portou com muita cordura; por isso, todos pensaram de nosso pai a razão em que não queriam falar: doideira. Só uns achavam o entanto de poder também ser pagamento de promessa; ou que, nosso pai, quem sabe, por escrúpulo de estar com alguma feia doença, que seja, a lepra, se desertava para outra sina de existir, perto e longe de sua família dele. As vozes das notícias se dando pelas certas pessoas — passadores, moradores das beiras, até do afastado da outra banda — descrevendo que nosso pai nunca se surgia a tomar terra, em ponto nem canto, de dia nem de noite, da forma como cursava no rio, solto solitariamente. Então, pois, nossa mãe e os aparentados nossos, assentaram: que o mantimento que tivesse, ocultado na canoa, se gastava; e, ele, ou desembarcava e viajava s’embora, para jamais, o que ao menos se condizia mais correto, ou se arrependia, por uma vez, para casa.
6. No que num engano. Eu mesmo cumpria de trazer para ele, cada dia, um tanto de comida furtada: a idéia que senti, logo na primeira noite, quando o pessoal nosso experimentou de acender fogueiras em beirada do rio, enquanto que, no alumiado delas, se rezava e se chamava. Depois, no seguinte, apareci, com rapadura, broa de pão, cacho de bananas. Enxerguei nosso pai, no enfim de uma hora, tão custosa para sobrevir: só assim, ele no ao-longe, sentado no fundo da canoa, suspendida no liso do rio. Me viu, não remou para cá, não fez sinal. Mostrei o de comer, depositei num oco de pedra do barranco, a salvo de bicho mexer e a seco de chuva e orvalho. Isso, que fiz, e refiz, sempre, tempos a fora. Surpresa que mais tarde tive: que nossa mãe sabia desse meu encargo, só se encobrindo de não saber; ela mesma deixava, facilitado, sobra de coisas, para o meu conseguir. Nossa mãe muito não se demonstrava.
7. Mandou vir o tio nosso, irmão dela, para auxiliar na fazenda e nos negócios. Mandou vir o mestre, para nós, os meninos. Incumbiu ao padre que um dia se revestisse, em praia de margem, para esconjurar e clamar a nosso pai o ‘dever de desistir da tristonha teima. De outra, por arranjo dela, para medo, vieram os dois soldados. Tudo o que não valeu de nada. Nosso pai passava ao largo, avistado ou diluso, cruzando na canoa, sem deixar ninguém se chegar à pega ou à fala. Mesmo quando foi, não faz muito, dos homens do jornal, que trouxeram a lancha e tencionavam tirar retrato dele, não venceram: nosso pai se desaparecia para a outra banda, aproava a canoa no brejão, de léguas, que há, por entre juncos e mato, e só ele conhecesse, a palmos, a escuridão, daquele.
8. A gente teve de se acostumar com aquilo. Às penas, que, com aquilo, a gente mesmo nunca se acostumou, em si, na verdade. Tiro por mim, que, no que queria, e no que não queria, só com nosso pai me achava: assunto que jogava para trás meus pensamentos. O severo que era, de não se entender, de maneira nenhuma, como ele agüentava. De dia e de noite, com sol ou aguaceiros, calor, sereno, e nas friagens terríveis de meio-do-ano, sem arrumo, só com o chapéu velho na cabeça, por todas as semanas, e meses, e os anos — sem fazer conta do se-ir do viver. Não pojava em nenhuma das duas beiras, nem nas ilhas e croas do rio, não pisou mais em chão nem capim. Por certo, ao menos, que, para dormir seu tanto, ele fizesse amarração da canoa, em alguma ponta-de-ilha, no esconso. Mas não armava um foguinho em praia, nem dispunha de sua luz feita, nunca mais riscou um fósforo. O que consumia de comer, era só um quase; mesmo do que a gente depositava, no entre as raízes da gameleira, ou na lapinha de pedra do barranco, ele recolhia pouco, nem o bastável. Não adoecia? E a constante força dos braços, para ter tento na canoa, resistido, mesmo na demasia das enchentes, no subimento, aí quando no lanço da correnteza enorme do rio tudo rola o perigoso, aqueles corpos de bichos mortos e paus-de-árvore descendo — de espanto de esbarro. E nunca falou mais palavra, com pessoa alguma. Nós, também, não falávamos mais nele. Só se pensava. Não, de nosso pai não se podia ter esquecimento; e, se, por um pouco, a gente fazia que esquecia, era só para se despertar de novo, de repente, com a memória, no passo de outros sobressaltos.
9. Minha irmã se casou; nossa mãe não quis festa. A gente imaginava nele, quando se comia uma comida mais gostosa; assim como, no gasalhado da noite, no desamparo dessas noites de muita chuva, fria, forte, nosso pai só com a mão e uma cabaça para ir esvaziando a canoa da água do temporal. Às vezes, algum conhecido nosso achava que eu ia ficando mais parecido com nosso pai. Mas eu sabia que ele agora virara cabeludo, barbudo, de unhas grandes, mal e magro, ficado preto de sol e dos pêlos, com o aspecto de bicho, conforme quase nu, mesmo dispondo das peças de roupas que a gente de tempos em tempos fornecia.
10. Nem queria saber de nós; não tinha afeto? Mas, por afeto mesmo, de respeito, sempre que às vezes me louvavam, por causa de algum meu bom procedimento, eu falava: — “Foi pai que um dia me ensinou a fazer assim…”; o que não era o certo, exato; mas, que era mentira por verdade. Sendo que, se ele não se lembrava mais, nem queria saber da gente, por que, então, não subia ou descia o rio, para outras paragens, longe, no não-encontrável? Só ele soubesse. Mas minha irmã teve menino, ela mesma entestou que queria mostrar para ele o neto. Viemos, todos, no barranco, foi num dia bonito, minha irmã de vestido branco, que tinha sido o do casamento, ela erguia nos braços a criancinha, o marido dela segurou, para defender os dois, o guarda-sol. A gente chamou, esperou. Nosso pai não apareceu. Minha irmã chorou, nós todos aí choramos, abraçados.
11. Minha irmã se mudou, com o marido, para longe daqui. Meu irmão resolveu e se foi, para uma cidade. Os tempos mudavam, no devagar depressa dos tempos. Nossa mãe terminou indo também, de uma vez, residir com minha irmã, ela estava envelhecida. Eu fiquei aqui, de resto. Eu nunca podia querer me casar. Eu permaneci, com as bagagens da vida. Nosso pai carecia de mim, eu sei — na vagação, no rio no ermo — sem dar razão de seu feito. Seja que, quando eu quis mesmo saber, e firme indaguei, me diz-que-disseram: que constava que nosso pai, alguma vez, tivesse revelado a explicação, ao homem que para ele aprontara a canoa. Mas, agora, esse homem já tinha morrido, ninguém soubesse, fizesse recordação, de nada mais. Só as falsas conversas, sem senso, como por ocasião, no começo, na vinda das primeiras cheias do rio, com chuvas que não estiavam, todos temeram o fim-do-mundo, diziam: que nosso pai fosse o avisado que nem Noé, que, por tanto, a canoa ele tinha antecipado; pois agora me entrelembro. Meu pai, eu não podia malsinar. E apontavam já em mim uns primeiros cabelos brancos.
12. Sou homem de tristes palavras. De que era que eu tinha tanta, tanta culpa? Se o meu pai, sempre fazendo ausência: e o rio-rio-rio, o rio — pondo perpétuo. Eu sofria já o começo de velhice — esta vida era só o demoramento. Eu mesmo tinha achaques, ânsias, cá de baixo, cansaços, perrenguice de reumatismo. E ele? Por quê? Devia de padecer demais. De tão idoso, não ia, mais dia menos dia, fraquejar do vigor, deixar que a canoa emborcasse, ou que bubuiasse sem pulso, na levada do rio, para se despenhar horas abaixo, em tororoma e no tombo da cachoeira, brava, com o fervimento e morte. Apertava o coração. Ele estava lá, sem a minha tranqüilidade. Sou o culpado do que nem sei, de dor em aberto, no meu foro. Soubesse — se as coisas fossem outras. E fui tomando idéia.
13. Sem fazer véspera. Sou doido? Não. Na nossa casa, a palavra doido não se falava, nunca mais se falou, os anos todos, não se condenava ninguém de doido. Ninguém é doido. Ou, então, todos. Só fiz, que fui lá. Com um lenço, para o aceno ser mais. Eu estava muito no meu sentido. Esperei. Ao por fim, ele apareceu, aí e lá, o vulto. Estava ali, sentado à popa. Estava ali, de grito. Chamei, umas quantas vezes. E falei, o que me urgia, jurado e declarado, tive que reforçar a voz: — “Pai, o senhor está velho, já fez o seu tanto… Agora, o senhor vem, não carece mais… O senhor vem, e eu, agora mesmo, quando que seja, a ambas vontades, eu tomo o seu lugar, do senhor, na canoa!…” E, assim dizendo, meu coração bateu no compasso do mais certo.
14. Ele me escutou. Ficou em pé. Manejou remo n’água, proava para cá, concordado. E eu tremi, profundo, de repente: porque, antes, ele tinha levantado o braço e feito um saudar de gesto — o primeiro, depois de tamanhos anos decorridos! E eu não podia… Por pavor, arrepiados os cabelos, corri, fugi, me tirei de lá, num procedimento desatinado. Porquanto que ele me pareceu vir: da parte de além. E estou pedindo, pedindo, pedindo um perdão.
15. Sofri o grave frio dos medos, adoeci. Sei que ninguém soube mais dele. Sou homem, depois desse falimento? Sou o que não foi, o que vai ficar calado. Sei que agora é tarde, e temo abreviar com a vida, nos rasos do mundo. Mas, então, ao menos, que, no artigo da morte, peguem em mim, e me depositem também numa canoinha de nada, nessa água que não pára, de longas beiras: e, eu, rio abaixo, rio a fora, rio a dentro — o rio.

hoje dizeres

Entre mim e o outro, amar é outrizar-me de mim mesmo e mesmizar-me no outro, de modo que, sem ser o outro, eu o seja.

não (re)nego meu (c)ego

o corpo envelhece; a alma, só se você deixar
então, o corpo envelhece e a alma envilece

quem confia em alguém, fia e fica com ela, fia com

luto e reluto e refuto
e fico puto

valorização do casamento (?): se o jr se divorciou 7 vezes, casou 8

gente grossa
na vida nossa
não há quem possa

tesão: você é um acordo gordo, que só de acordar todo me mordo

com a carteira vazia, azia faz e fazia
com o coração partido, sou bom partido
só minto com o estômago faminto

porque jesus me ama, não quer dizer que precisa aguentar o cheiro do meu chulé

tudo o que cabe no cabide, não cabe em você quando você não cabe em si

não seja melhor que ninguém, nem pior; só melhor
a vida é curta, por isso curta a vida

a parceria pareceria par, mas só par seria se não pareceria ser

não se prenda a nada que te prenda

raízes e asas, tua casa cósmica
raízes e raízes, tua casa sísmica
asas e asas, tua casa cômica

muita asa e pouca raiz é felicidade rasa
muita raiz e pouca asa é vida rasa
muita raiz e muita asa, ah, é extratosférico
e é isso que eu me busco em mim e não mim

questão de rima
não se sabote
só se bote
pra cima

coloque o b adequado
( )est ( )asta ( )esta ( )osta

se-rio fal(h)ando

sempre soul eu, mesmo quando não soul, porque essa minha soul-idade nunca me deixa soul.

quando fracasso, preciso do teu abraço; quando venço, compenso no teu regaço

arrogância: quando concordo com você, ambos estamos errados; quando discordo, também. Mas prefiro errar junto com você do que qualquer coisa sem você

o que que eu faço/ se só tenho um traço e um abraço? Entre o teu e o meu espaço, eu traço um abraço? Com você a minha força é mais forte, minha vida tem um norte, e nem minha morte é minha morte, minha sorte eu suporte.

Numa sociedade mantida mentida mente, muita liberdade de mentira sofre a pressão da liberdade de prisão.
Enemies of freedom attack liberty.
cuidado com a liberdade de ex-prisão
respeito mesmo aos não amigos do peito
só lâmpadas acesas atraem nosso olhar e insetos

ironia: certas coisas você só merece no mesmo dia em que perece

perdoar é livrar-se do lixo que o outro fez ver que já estava em você

minha escolha
deusou

liberdade suprema:
libertar-se de tudo
e, depois, libertar-se
da própria liberdade

ando devagar
vagando
de vagão em vagão
vagalhão em vão

paradoxo da generosidade:
dar a alguém o que nem mesmo se tem

se você não começar agora
não começará nunca, porque o agora
é sempre um eterno e presente agora

só sabemos nossa força
quando somos forçados a saber

as pessoas são como livros:
algumas só capa
outras conteúdo
e algumas, tudo
eu prefiro as duas, preferivelmente em uma

um amigo meu diz: meu lado feminino é lésbico. Pode ser processado por homofobia? e uma mulher, também?

sou ressou e tressou
por isso sou insouportável

quem confunde bondade com fraqueza
precisa de bondade com franqueza

todo mundo tem apreço
alguns, apreço de quem ama
outros apreço de banana

é muito vazia a vida
de quem é muito cheio

não se prenda a nada que te prenda

quem não renasce todo dia que nasce
está morto

quem ama o drama
não come dia

não nos torture com o excesso de sua presença
a outros: presenteie-nos com o excesso de sua ausência

pensar é pesar; ser feliz não é ter razão
se teu não é o lugar, pare de se alugar

vai e volta uma hora que quero de mim ir embora
quando só corro, peço socorro

Deletar pode ser uma forma de amar. Mas prefiro deitar e deleitar
todo excesso queria ser exsexo

gostar de você é o primeiro passo pra gostarem de você

eternidade: o hoje sem o ontem aspirando ao amanhã

a armadura mais dura pra proteger o coração mais mole

a normalidade é uma máscara que colocamos ao acordar pra podermos nos relacionar com os outros; mas sozinho de madrugada com seus sonhos, você sabe que você é louco

eu me amo quando te amo

não quero alguém que morra de amores por mim, mas que viva…

quem não valoriza o que tem, nunca tem o que tem

a copa e o copo

Um dos fatores do processo de criação de um palíndromo é a justaposição de letras, e sílabas e palavras ocorridas ao sabor do andamento do próprio processo. É divertido. A propósito da copa e do copo, montou-se em mim este palíndromo:

AO SERVIL SEM O TIDE DÓI GOL E REAL E VILA ATIVE O ADAO ELOGIA AI GOLE O ADÃO EVITA ALI VELA E RELÓGIO EDITO MÊS LIVRE SOA

dizer e di-ser


yes I do

inspirado
pirado
irado
Ido
I do
I

amar
é percorrer o caminho
entre mim mesmo e o outro outro
outrizando-me de mimesmo
e mesmizando-no outro
e então o dizer se torna di-ser
e o caminhar
o des-caminhar de dois
E
entre nós dois, nós dois, nós um, um
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ser honesto consigo é o que consigo quando nada mais consigo
– – – – –
as pedras que encontro no caminho, tiro algumas e atiro outras
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era tão egoísta, que não gostava de perder nada, nem peso, a pesar de si mesmo
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tem gente que acha que pra realizar um sonho basta continuar dormindo

se você tem a versão da história, eu tenho aversão da histeria
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o que for teu, chega sem ex-forço
o que nao for, te ex-força
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você é um sonho, que quero sonhar acordado
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sadismo: minhas lágrimas se afogam no teu fogo
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se for pra desistir, desista antes de existir, i.e., dexistir
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quando chorar, corar, é melhor orar
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a maior desgentileza é recusar palavras de gratidão com um “por nada ou de nada”, quando o outro só tem a palavra pra lhe presentear.
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mudei tanto
que quando sinto a falta de mim
refugio-me no meu canto
e canto encanto enfim
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AMOR É
CORAÇÃO

franqueza não é fraqueza
nem bondade, bundade
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às vezes pra ser mulher tem que ser:
melhor
malhar
molhar e
humilhar
um milhar
de homens
famintos
coitados
só querem coito
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paradoxo: se perco tudo, menos a esperança, é porque a esperança não estava no meu tudo
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só se tem a vista da montanha que se conquista
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compensação: escolher ir pra frente é deixar algo pra trás
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fé: parece que merece prece quem perece
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às favas as palavras diz quem não tem lavra nem palavra
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à dor da verdade e ao conforto da mentira, eu prefiro os dois; é o único jeito de o adulto não matar a criança
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liberdade: ela sempre está tão perto
que nunca me permite ter saudade
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a mente mente
eu minto
o ente sente
eu sinto

se minto é mente
se sinto é ente
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a dor vem
e passa
e passa
e passa…
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o caminho que decidimos é ao mesmo tempo o mais curto e o mais longo, pois somos nós mesmos ao mesmo tempo o caminhante e o caminho, e o destino você não vai alcançar um dia, se não o alcançar a cada dia
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crescer implica crer e ser; e ver pra crer depois de crer pra ver
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a única mentira de tua mente é que ela não mente
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anagramas

Certa vez uma amiga minha me contou um sonho que tivera à noite. Sonhou que ela vivia na Rússia e se chamava Tenaicra. Fiquei interessado no sonho, e lhe respondi que o sonho tinha alguma verossimilhança interna. Não que ela tivesse sido russa, nem vivido naquele país. Talvez, quem sabe. O verossímil da “história” é que, confirmei na prática, o nome que ela trazia, Tenaicra, é um anagrama perfeito de Caterina, um nome bastante comum na Rússia.
Pra quem não sabe, anagrama é a transposição de todas as letras de uma palavra de modo que se forme uma nova palavra, que muitas vezes nem sequer lembra a palavra original. Ainda em relação a Caterina (e a Tenaicra), esse nome originou um anagrama que serve, mesmo, de nome feminino dado a bebês. Trata-se de Natércia, que é morfologicamente mais próximo de Tenaicra. (Curiosamente, própria palavra anagrama se presta a um anagrama significativo: ama angra).
Isso nos faz lembrar o neofreudiano Lacan, que postula ser o inconsciente estruturado como linguagem. Interessante que, se assim o é, e ao se manifestar durante o sonho, o inconsciente muita vez traz expressões verbais claras ou implícitas. Eu mesmo sou testemunha desse funcionamento. Com frequência acordo à noite com algum sonho em que a palavra prevalece sobre a imagem, embora o contrário seja muito mais frequente. Certa vez, eu estava bem desgostoso com certa senhora, uma de cujas qualidades era massa corporal acima do normal, até então não qualificado eufemisticamente como plus size. Não que o plus-sizeness da madame importasse. O que me afetava era a sua atemporalidade: a senhora era sim sem hora.
Foi quando então, numa daquelas noites, acordei de madrugada ouvindo em minha mente as palavras “a droga da gorda”, “a droga da gorda”… “A droga da gorda?” “A drogada gorda?” – pensei. Percebi, então, que meu inconsciente regurgitava um insumo indigesto, em referência à não-digesta nem-dileta senhora, e percebi que se tratava de um palíndromo, uma palavra ou frase que pode ser lida de trás pra frente e de frente pra trás. Quem quiser conferir é só fazê-lo. “A droga da gorda” ou “a drogada gorda” me devolvia, algo compensatoriamente, o meu idem excesso de peso, e confirmava a minha não digestão de algo que, de algum modo, eu mesmo precisava assimilar.
A coisa era, mesmo, inexorável, e me flagrei que inexorável significa “aquilo que não se pode pôr goela afora”, i.e., que não se pode vomitar. E tive então a ocorrência de outro palíndromo, ÓTIMO VÔMITO, este substantivo que também pode ser lido como verbo: (eu) vomito. E tudo de acordo com a (a)temporalidade (re)versa do inconsciente. Pra finalizar, a passagem de “Sampa”, composição Velosísmica: és o avesso do avesso do avesso do avesso. E vice-versa. Ou verso?
(A propósito da ilustração, também pode ser lida: “Jesus te ama, seja Mateus”, ou seja, um dos evangelistas.)

pensamentos rimados

PALÍNDROMO
somamos: somos a soma do que amamos, somamos

nem feliz, nem triste
só entregue a tudo o que rexiste

faça, refaça e faça jus, até que o faça faça-se luz

democracia
se mudas, as palavras, nada mudas

a batalha mais ferrenha:
a luta entre o que você seja e o que tenha

(a)normal: ser louco num mundo louco, não é pouco
importa saber quem e o que realmente importa

trama:
ama quem te ama
na fama e na lama
no drama e na cama

a-deus
chorar basta

ch basta

calo ou grito
cru ou frito
meio me dito
não choro, mas sinto
não digo, mas sinto
não mostro, mas sinto
por isso, minto

o poeta se doa e não se perdoa em outras lavras que não a das palavras
quem não valoriza as pequenas alegrias não encontra a felicidade, que é feita de pequenas alegrias
a vida de quem é livre ofende quem odeia ser livre
vê no que dá? a queda por você me deixa derrubado o dia todo

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um cemitério longe demais

Um cemitério longe demais

Certas coisas são tão desimportantes, que sua única importância é serem desimportantes, isso porque importa saber que toda importância só tem a sua confirmação externa se tiver nossa confirmação interna.

Às vezes há um híbrido de duas coisas, uma importante com uma desimportante. Uma delas é a morte, a importante; a desimportamente é o sepultamento, preocupação mesmo involuntária dos que ficam.
Conheço um casal que, um dia, os dois preocupados com esse binômio, não deixar muita preocupação pros que ficam, etc., custos, funerária, etc., resolveram comprar um jazigo. Ficaram ambos de pesquisar, cada qual, e o fizeram. À noite, no outro dia, à mesa do jantar, o assunto em pauta, misturando amor dos que ficam à morte dos que vão, num “não deixe que amor-te chegue assim”, como tive ocasião de ilustrar em outra parte do meu site.
Mas, voltando à discussão dos dois, revelou ela que encontrara uma sepultura a preços bem convidativos, mesmo que para algo nada convidativo, nem com vida ativa. Ao revelar o local do descanso eterno, o cretino diz com objeção: esse cemitério é muito longe.
Não pude conter o riso, em arrivada gargalhada. A coisa era séria. Seria talvez fosse outra coisa de somenos importância. Mas não. E o maior absurdo é que ele não percebia o absurdo do que dissera.
Respondi, em lugar da amiga. Qual é a importância de o cemitério ser longe demais? É porque você todo dia ao fim do expediente vai morrer, precisar ir lá longe, e no outro dia desmorrer, e vir para longe. É, mesmo, um problema mortal. Disse-lhe: você tem razão. Afinal de contas, tua intenção está de acordo com o significado de cemitério, que é, poucos o sabem, dormitório ou lugar para dormir. Também não é à toa que grandes poetas e escritores relacionam morte e sono. Shakespeare, no famoso monólogo de Hamlet: “morrer, dormir; dormir, talvez sonhar”. Ernest Becker, com o aclamado “A negação da morte”, ganhador do Prêmio Pulitzer. Olavo Bilac, com o poema “No meio do caminho”, e assim por diante. Finalizando, uma piada.
Num teatro, peça de teatro em cena, um expectador dormindo na platéia. Na fila de trás, um senhor, incomodado com o sono do outro, toca-lhe o ombro e diz: O sono é o prenúncio da morte – William Shakespeare. O outro parece nem notar. Repete o incomodado, novamente tocando-o no ombro: O sono é o prenúncio da morte – William Shakespeare. O outro parece acordar, mas insiste o chato: O sono é o prenúncio da morte – William Shakespeare. O ex-sonolento responde, irritado: vá pra puta que o pariu! – Jorge Amado.
Não sei qual dos dois eu represento.

poestesia

imerso neste imenso mar de gente
às vezes penso que meu verso onipotente
pode quebrar a corrente de tanta falta de senso

então paro, penso e percebo
que o feito máximo do meu verso
não passa de um efeito placebo