o fato e o boato


Quando a questão do fake news está bombando na mídia, é oportuno refletir sobre os efeitos deletérios dessa prática, que oscila entre o jornalismo sério e a fofoca deslavada.
De imediato não posso deixar de notar que, extrapolando o plano meramente verbal, sob a superfície de fato e boato, temos ato. Mais pra ato do que pra fato, ou pra boato? Quer dizer, de fato temos, de direito não. Mas o boato muita vez palpitante deixa a condição de fátuo e incendeia os ouvintes. Ou será o contrário? Não sei. Só sei que, fato ou boato, trata-se de ação ou ato humano. E isso mais se aplica de perto a boato, embora não fique longe de fato.
Fábula e fato, bula e lula. Pululam fatos, encabulam boatos; ou versa vice. A corroborar temos a afirmativa de que uma mentira, se repetida muitas vezes, se torna verdade. Não creio, nem sei, nem sei-o. Mas o fato é que o boato é o lúdico do ato; e o fato, nem sempre o lúcido. Boato falho, ato fálico. Fofocar é não ter algo melhor em que se focar. Mas vende. A vista e à vista; a propósito e por acaso. No fundo e no raso. E todos nós… alguma vez… se não temos vez… reduzimos a marcha… e remetemos… e metemos… e temos… e…? e…? he he he! Interrogar é preciso; exclamar, também.
Verdade seja dita, às vezes a mentira bem dita é bendita. Às vezes a verdade mal dita é maldita. Depende da vista em que você põe seu ponto. Mentirinha inocente, inconsequente, prudente, faz bem pra vista e pro dente. Pode ser. Já a verdade nua, dura, crua, cura e, perdão, às vezes curra. Nem sempre. Pode ser.
Estão aí as televisivas novelas, que, ao vê-las ou não vê-las, tanto faz como tanto fez… todos (…!…?) ganham. Quantos, quem, onde…? Fantasia e azia, com-vivem. A primeira é um sal de fruta que cura a acidez da última. Aliás, qual é a última? What´s up, its up to you, whatsapp.
Fica-se com o humor preso quando se fica com o terror solto. Ou finca-se? Entre ficar e fincar o n do não faz toda a diferença. Comedidas tragicomédias são comédias de mau gosto.
Terminando e brincando, entre o relato e o real ato sempre o palpitante boato é mais digerível que o causticante fato. Será…?…!

sem senso nem censura


Estavam aí, felizmente não estão mais, querendo fazer passar uma lei que não estaria nem aí com os ais, e com medo dos hahahas. Criminalizar o humor seria assustador, sério. Seria matar antes de nascer no texto o lúcido do lúdico, indissociáveis. Muito riso e pouco siso dizia o bordão sisudo, que queria o humor ficasse mudo. Confundia-se oral com (i)moral. Seria assustador, antes fosse assusta-dor, susta dor. Levaria a ter medo de ter medo, temer o…
Libelo contra a libélula em cujos olhos o poeta nipônico enxergava o distante e colossal monte Fuji: libélula cá/ traz nos olhos/ montanha de lá. Entendeu lucidamente o Tribunal que humor não é insulto, tampouco indulto a que se cometam outras atrocidades. Insulto ou elogio, a diferença está em quem faz e quem recebe, e no modo como se faz e como se recebe.
Lembro-me de um menino que conheci na infância e que, quando outro o xingou de fdp, ele respondeu, com incomum bom humor: poxa, amigo, você descobriu…! Só não espalhe, só não espalhe. O outro ficou desconcertado com o resultado que, esperava, fosse outro.
Anos depois eu mesmo faria uma dissertação sobre o humor verbal, sobre o chiste, a partir da abordagem psicanalítica de Freud, linguística de Possenti, e psicolinguística de Veras, em capítulos intitulados: Freud Explica, O Sírio levado a sério, De Veras a Verdade.
Pergunta, apropriadamente, a música: vc tem medo de quê? Deixa implícito que o medo se opõe à criatividade, e que, como diz Osho, todo medo é, em última instância, o medo da morte e que, se este fosse (e for) superado, eliminaria (e eliminará) todo e qualquer medo.
No paradigma do medo estão: vergonha, censura, desamor, violência, ilusão da segurança, temor ao futuro, negação do desejo. O medo é reacionário, quer dizer, contrário às promissoras mudanças. É anticriativo, propõe pensar com a cabeça dos outros. Finalizando, saudosa amiga minha fora conhecer a cálida brancura gélida das montanhas do Alasca. Em palpitante voo panorâmico, o franzino aviãozinho trepidava, tremia e tremulava ao sabor do inquietante vento. Tinha, então, de escolher: ou se deixava abater pelo medo paralisante, ou se entregava à inigualável beleza de instantes que possivelmente jamais se repetiriam em sua vida.
Não pensou com a cabeça dos outros, e jogou para depois o medo do instante. Entre ter medo e ser feliz, preferiu a segunda opção. Não se arrependeu. Felizmente, para sua feliz mente.

A IMPORTÂNCIA DA MEDIOCRIDADE

Jamais se pode subestimar a importância da mediocridade. Mesmo sob a superfície da história, médios, medianos e medíocres cumprem seu papel de manter e preservar o status quo, quer dizer, deixar as coisas como estão. E essas forças reacionárias têm sua existência justificada, porque substituíram o perigoso anseio de que as coisas melhorem pelo confortável receio de que piorem. E por certo não faltarão reacionários que, ao serem tratados como tais, achar-se-ão revolucionários, confundindo esse termo com reação, esquecendo-se de que a ironia permite ler reação como ação repetida, a reiteração da mesmice, ou, de modo mais sofisticado, o misoneísta horror à outridade (descobri, por acaso, a palavra misoneísmo, que, na Terra das Araucárias, adquire matizes bastante peculiares). Aqui, não faltam porta-vozes do já-consagrado-e-por-isso-inatacável, se hay desgobierno soy contra, o That’s incredible que, de incrível, só tem a excrescência da midiocracia, o savoir faire de quem só sabe fazer e refazer o já feito. São quixotescos generais que ainda travam batalhas já travadas e já vencidas, imemoriados que confundem memória com imemorial. Infaustos que receiam tudo quanto cheire ao mefistofélico espírito que tudo nega e contraria.

Resta o consolo de que tudo é passageiro, mesmo o motorista e o cobrador. “Aqueles que estão atravancando meu caminho, eles passarão, eu passarinho”, diz com gentileza o protesto do poeta.

Rei morto, rei posto. O velho deve morrer para dar lugar ao novo. O menino é o pai do homem. A midiocracia só admite a mediocracia da magiocracia, verdadeiro Mr. M que se propõe a desnudar as vestais da verdade cujas vestimentas já não passavam de rotas (derrotas) e surradas vestes. Maltrapilhos filhos que enfileiram como tesouros pilhas de tralhas e trastes e trapos.

Já se falou alhures sobre o papel das cortesãs nas cortes, sobre as galhofas dos bufões aos quais se permitia declarar mesmo a verdade mais escaldante amainada no humorismo dos trejeitos cênicos, sobre os homens de arte cuja genialidade desposou a bucólica simplicidade de camponesas cujos interesses não transcendiam a circularidade pragmática de meras 24 horas. É o mesmo pragmatismo que leva a mídia televisiva a espelhar o gosto popular, entendendo que seu papel é, mesmo, entreter, deixando aos intelectuais as intermináveis discussões sobre a função educativa da maior invenção do século vinte. Óbvio que, quando se alia entretenimento e cultura de modo inteligente, interessante e popular, melhor. Mas não se pode esperar que seja diferente do que é. Infelizmente, infeliz mente.