O POEMA PRÉ-EXISTENTE

Nos anos 40, uma atriz espanhola causava furor na terra de Cervantes. Mãe espanhola, pai italiano, Conchita Vecchio adotara o nome artístico Cita e, por razões cabalísticas, reduzira a tradução de Vecchio, Viejo, para Vejo. De formas opulentas, Cita Vejo era mesmo muito vistosa, atributo que não passou despercebido de poeta brasileiro. Ao vê-la, de imediato o bardo compôs: tudo o que vejo/ me excita/ quando vejo Cita Vejo.

Aqueles que conhecem a obra do poeta paranaense Paulo Leminski por certo terão de imediato desconfiado dessa nossa pequena farsa, com essa pequena paródia do poema leminskiano. O poema “verdadeiro” é: tudo o que li/ me irrita/ quando ouço Rita Lee.

Feito esse desmascaramento, porém, é de observar que ambos os poemas aproveitam ao máximo os signos verbais, ou seja, articulam a contento as palavras e as coisas, os referentes verbais e os objetos referidos, enfim, os significantes e os significados. No primeiro poema, como senhor absoluto de sua criação, já que não precisamos nos subordinar completamente ao jugo da palavra atrelada ao objeto e este àquela, podemos articular palavras e objetos na mais estreita relação possível entre ambos. Assim, articulamos com rigorosa precisão palavras e coisas, significantes e significados, condicionando reciprocamente a ambos. Essa mesma subordinação mútua pode ser repetida. Desse modo, podemos imaginar um poeta que se chamasse Rubro Pablo, que nos permitiria esta glosa bilíngüe: en todo lo que hablo/ me descubro/ quando leio rubro pablo. E o poema seria (é…) ainda mais significativo, se considerássemos que nosso poeta hipotético fosse hispano-brasileiro ou luso-hispânico, “fato” que ajudaria a justificar o uso de dois idiomas num mesmo poema. Imaginemos ainda tratar-se de um Fernando Pessoa: ando numa boa/ quando com fernando/ desvendo tua pessoa. E esses torneios verbais, legítimas células poemáticas, poderiam multiplicar-se à exaustão.

Mas, voltando à nossa tese do texto apriorístico, facilmente se constata que o poema de leminski explora ad nauseam os elementos pré-existentes, configurando a tal perfeição apregoada pelos românticos e parnasianos. Com efeito, o teste da perfeição é verificar se todos os elementos do poema se articulam de modo absolutamente necessário e pertinente, sem que nada se possa acrescentar nem diminuir. Em (1) — “tudo o que vejo/ me excita/ quando vejo Cita Vejo” —, os signos Vejo/vejo são mais próximos que Lee/li, em (2) — “tudo o que li/ me irrita/ quando ouço Rita Lee”. O absoluto poder criador de que dispomos em (1) (já que criamos nomes e seres nominados), vai se subordinar em (2), necessariamente, aos signos pré-existentes. Entretanto, se extrapolarmos um pouco em nosso direito de imaginar, suponhamos que o nome Lee fosse escrito Li — e não faltariam elementos que dessem verossimilhança (“versossimilhança”) à nossa suposição. Teria sido alcançada a mesma aproximação verificada em (1). E, lançando mão da liberdade (orto)gráfica da poesia de vanguarda, se eliminarmos a distinção maiúsculas/minúsculas, a assimilação de ambas as formas será absoluta: tudo o que li/ me irrita, quando ouço rita li. Mas a oposição “ouvir/ler” de (2) não se verifica em (1) (ver/ver); (1) alcança maior unidade. E, como estamos no plano de idealização do real, digamos ainda que a poesia de Rita Li (já com a liberdade de criação) fosse meramente gráfica, não fonográfica, à semelhança dos poetas que fazem poemas para serem lidos no papel. O poema leminskiano assim ficaria: tudo o que li/ me irrita/ quando leio rita li, aproximando-se bastante de (1). Levando mais adiante nossa liberdade co-criadora, suponhamos fosse o nome Lee/li, na verdade, Leio, o poema (2) teria paralelo absoluto em (1): tudo o que leio/ me irrita/ quando leio rita leio = tudo o que vejo/ me excita/ quando vejo cita vejo.

Verdadeiramente, pode-se ouvir/ouver nas entrelinhas/entressons de (2) certo tributo à intimidade do poeta curitibano com a poeta paulista. Pode-se imaginar a mesma intimidade entre o poeta “hipotético” de (1) com a hipotética atriz; caso em que vejo de (1) com ouço de (2) adquiririam conotação de familiaridade, de contato pessoal. Assim como nos permitimos supor a Rita cantora “poeta para ser ouvida” como uma “poeta para ser lida”, podemos (com o perdão do pleonasmo, absolutamente necessário) também aperfeiçoar a perfeição de (1), se imaginarmos/criarmos a situação algo cômica em que nossa hipotética Cita Vejo fosse, não uma atriz, mas, ora vejam — e se não estivermos abusando da liberdade de criação —, uma médica oculista e, mais a propósito ainda, minha amada, minha médica, amada médica, médica amada.

Isso posto, podemos nos deter um pouco sobre o processo criativo, cuja apropriação leva à sensação de que somos nós mesmos a origem da criação literária. A visão sincronística, porém, entenderia que o poema ocorre quando um dado fato (real ou imaginário) produz no poeta um dado efeito, num dado momento[1]. Sendo um pouco barrocos, podemos dizer que um dado poema ocorre quando um dado poeta ocorre num dado acontecimento que ocorre num dado momento. Embora muitos poetas tenham sido tocados pelo mesmo mote, é óbvio que uma mesma situação passa despercebida por alguns (muitos, a maioria…?). Recorrendo a um pensamento visto alhures, o poema ocorre quando o poeta tropeça nas coisas, e esse tropeço acontece amiúde, visão que rouba ao poeta parte do mérito da criação poética (Criei-te agora, poema./ Sou teu deus./ Ajoelha e me adora. – P.Leminski). Ainda recorrendo ao pensamento oriental, à visão místico-metafísica formulada por Bagwan Shree Rajneesh, o próprio pensamento não é nosso; nosso é o processo de pensar (“thoughts are not yours; yours is the thinking”).

A visão do poema apriorístico não seria muito simpática a poetas que preferem interpor sua pessoalidade artesã à universalidade da arte. O poeta e tradutor Geir Campos menciona, quiçá citando outrem, que o poema “são as melhores palavras na melhor ordem”. Talvez pudéssemos acrescentar que o melhor poema seria aquele em que pudéssemos criar as melhores coisas. Com efeito, se eu digo, por exemplo, João é uma águia, o enunciado nada, de per si, revela de poético. Entretanto, meu amigo Aguiar, a quem melhor quadraria dizer Aguiar é uma águia, nada tem de Haia nem de asa. Felizmente, porém, aqui não prevalece a verossimilhança, mas a versossimilhança. Um poeta amigo meu compôs: quando a ana se aninha/ no anil dos meus olhos/ eu fico feito passarinha/ pipilando por seus pimpolhos. Poeminha singelo, em que o poeta se dá a liberdade de tomar o epiceno passarinho e arranjar-lhe um feminino, que rima com aninha. Aninha, por sua vez, encerra a ambigüidade “verbo aninhar/ a Ana tornar-se pequena, Aninha”. Acontece que o poeta em questão tem olhos castanhos, mas o eu lírico, o eu poemático, tem os olhos que ele quiser, até guimarães róseos, se for o caso. E isso enseja um enunciado: o poema não tem compromisso com as coisas, já que não é um processo a respeito delas; tem, isto sim, compromisso com a palavra, já que é um processo a respeito da linguagem, como assevera Hugo Friedrich, em obra cuja leitura é extremamente recomendável: Estrutura da Lírica Moderna.

A poesia é a estigmatização da linguagem. Assim, por exemplo, se eu digo: João entrou em casa e tudo estava na maior escuridão, nada há de poético nisso. Entretanto, a coisa é diferente seu eu disser: Abreu abriu a porta: tudo um só breu.

De igual modo, se descubro/crio/monto este palíndromo, “a diva adotara para toda a vida”, minha função se resume à montagem de elementos apriorísticos, respeitando-lhes a natureza gráfica e procurando explorar-lhe ao máximo a possibilidade semântica, algo mutilada, já que não se sabe o que ou quem a diva adotara. Por outro lado, se crio/descubro/monto este outro: “ama cansado todas na cama”, a única objeção que conseguimos contrapor é a inexistência de vírgulas em “cansado”, questão de somenos importância.

Finalizando, poememos:

imerso neste imenso mar de gente

às vezes penso que meu verso onipotente

pode quebrar a corrente de tanta falta de senso

então paro, penso e percebo

o feito máximo do meu verso

não passa de efeito placebo.

[1] A noção de sincronicidade, de índole oriental, foi proposta por Jung como resposta à concepção de causalidade ocidental. Partindo da observação direta de certas ocorrências, Jung propôs o princípio segundo o qual dois acontecimentos simultâneos têm relação entre si, sem, contudo, um ser causa ou efeito do outro. O princípio das conexões acausais está exposto em “Sincronicidade”, ed. Vozes….

utopias

A palavra utopia foi cunhada pelo filósofo inglês Thomas More, mediante a junção de dois prefixos gregos: ut, inexistente, e topos, lugar. Daí a acepção de lugar ou estado ideal, em que o poder instituído estivesse comprometido com o bem-estar de todos. Houaiss registra ainda que, por extensão, trata-se de: projeto de natureza irrealizável; quimera, fantasia. Desnecessário dizer, portanto, que utopia se refere, em última instância, ao que Pierre Weil denominou “nostalgia do paraíso perdido”, sentimento que tem sido expresso em várias obras ao longo do tempo, desde A República, de Platão, A Nova Atlântida, de Francis Bacon, O Paraíso Perdido, do poeta John Milton, Lost Horizon, de James Hilton, A Ilha, de Aldoux Husley, e outros. Na contramão, citem-se as antiutopias ou distopias: Admirável Mundo Novo, de Huxley, Animal Farm e 1984, ambos de George Orwell, O Processo, de Franz Kafka, Eu, Robô, de Isaac Asimov, dentre outros, e realizações cinematográficas como Blade Runner e The Wall, por exemplo.

Entre a utopia e a distopia, troca-se a visão de um proverbial paraíso idealista pela acachapante submissão a uma sociedade que elimina a possibilidade de fugir a tais imperativos. O sujeito se vê subjugado a um sufocante Big Brother a cuja vigilância onipresente nada nem ninguém escapa. Entre a esperança e o cinismo oscila o anseio humano, ou primeira se esboroa no cinismo, ao trocar o colorido da idealização pelo negrume da inexorável admissão da concretude de um mundo que nem sequer se denomina imundo.

Imundícies à parte, algumas fazem parte do mundo; entretanto, bastam as naturais e inevitáveis; as outras… que vão à…

Seja como for, sonhar é preciso; é a mínima riqueza que resta ao sujeito quando se lhe roubam tudo. E o compensatório post-mortem não sirva de consolo. Arte é preciso; enfarte só se inevitável. A palavra, amiúde, é tudo o que resta, quando a lavra não presta. A larva tem de cumprir seu destino de borboleta. Haja asas.

poemínimos

moralidade

a brusca

busca

do prazer

da fala

e do falo

.-.-

punção extrema

entre o lamento

e o alento

transpiro

 

entre o vero

e o verso

suspiro

 

entre o mar

e o amar

piro

.-.-

erro de gênero

grande é o mar

mais grande é amar

.-.-

distopia

você para

espera

e se desespera

 

ninguém para ver

o naufrágio de tua quimera

 

amorodio

ODIOAMOR

A maior prova de que o ódio faz parte do amor está em que há pessoas que nem o nosso ódio merecem. E há pessoas que amamos odiar, e outras que odiamos amar. Pode…? Pois é, pode. Feliz e/ou infelizmente. A verdade é que nem sempre a felicidade está do nosso lado, nem a gente do lado dela. Pode estar com a outra pessoa, ou esta do lado daquela. A verdade é que a felicidade por carona pode te deixar a pé em qualquer esquina da vida. E nem sempre você está com o calçado ideal para continuar a caminhar sozinho. É quando você descobre que o calçado era emprestado, da outra pessoa. O seu você deixou guardado quando nem sabia que a vida ávida podia um dia te roubar. Por isso caminhou, doído e doido, meio a esmo, mas caminhou assim mesmo.

Daí também perceber que a tua felicidade é só tua, só depende de você, e de um pote de sorvete. Ah, e do universo, que não quer perder ninguém, nem você. Solidão cósmica. O universo como o grande Outro em cuja outridade você precisa mergulhar, experienciar, se fundir. Dizem. Eu medito, me dito e acredito. A questão é que a nossa pequenez se torna mais pequena, e o universo ama os pequenos. Se assim não fosse, todos estaríamos na fossa, abissal, colossal, infernal. Ainda bem que… Que o quê?! Sei lá, meu, entende…?…!

Mas voltando ao simplismo do óbvio, óbvio é que, como se diz, ninguém chuta um cão morto. Também não é por ele atacado. Se vivo, acatado. Amor e ódio se completam, se complementam, formam um todo, se todam. São modalidades diferentes da mesma modalidade. Daí se entende porque, com frequência, um se torna o outro e o outro se torna o um, quando um e ou outro se desvestem de si mesmos. Se há o tal do amor incondicional, eu não sei; mas que o condicional condiciona o cio e, então, se torna ciúme, ah, isso é muito… muito… muito sei lá cio o quê… tão cioso, ocioso, malicioso, contencioso, gracioso, devocional, …, … Oremos, irmãos (e irmãs)…

o paradoxo de fermi

O paradoxo é uma figura de pensamento em que tanto a afirmação quanto a negação de um dado evento são falsas e verdadeiras ao mesmo tempo. Entre esses, está este: para você ser completamente feliz, você não pode ser completamente feliz, já que a própria ideia de felicidade implica no próprio motivo para alcançá-la. Poeticamente, seria como um sonho que, depois de realizado, a sua realização não eliminasse o próprio fascínio do sonho; ou como a dizer para a pessoa amada: eu te amo tanto, tanto, que mesmo quando estou com você eu sinto saudades de você. Este, agora, é do saudoso Millor Fernandes: se toda regra tem exceção, deve haver por aí alguma regra sem exceção.

No caso do paradoxo de Fermi, a referência é à possibilidade/probabilidade de viagem no tempo. Ou seja, se a viagem no tempo vai ser possível algum dia no futuro, ela já é possível e já estaria/está ocorrendo agora no presente; daí a pergunta de Fermi: onde estão eles?

Várias respostas são possíveis à objeção de Fermi, e a que me parece insofismável eu encontrei outro dia, “por acaso”, na Internet; alguém que perguntou: 95% dos oceanos estão inexplorados; então como é que você pode afirmar que sereias não existem?

Confesso que pela primeira vez na vida minha mente questionadora ficou sem conseguir alguma objeção. De modo que extrapolei a questão para o próprio universo: se xxxx% do universo estão inexplorados, como é que você pode afirmar o mesmo sobre a existência ou não de vida extraterrestre? Quem quiser que se habilite; eu não consigo. Tenho (quase) dito.

 

erros de gênero

Tenho um poemínimo que diz: se o erro me leva a eros, eu erro porque queros. Obviamente, nem é preciso explicar que a grafia “errada” queros, pelo simples acréscimo do “s”, confirma a própria pertinência de um erro que deixa de sê-lo por se conformar à própria afirmação e potencializar o significado de querer ao possibilitar subentender dentro de queros, eros. Algum corretor desavisado talvez cometesse o equívoco de corrigir esse erro, e nos lembramos de um amigo que, tendo ganho de presente uma gravura de um artista famoso, teve a ingrata surpresa de ter a gravura “limpada” pela ação de uma diarista, que simplesmente achou que a assinatura do artista, a grafite, na gravura, era uma sujeira.

Em linguagem às vezes a transgressão é necessária, e ficamos pensando se em outra áreas também não. Discordamos de quem afirma que as regras existem para ser quebradas; não obstante a sensatez de que há ocasiões, raras, em que precisam.

No domínio estritamente verbal, há momentos em que a própria necessidade de expressão legitima a transgressão. Já tivemos a oportunidade de discorrer sobre o fato no texto “Com o perdão da licença poética” publicado neste blog, em que propugnamos pela ocasional necessidade de transgressão verbal, em consonância à ideia de que a arte é, por excelência, o espaço da transgressão.

A transgressão se aplica muito bem ao texto artístico quando, assinale-se, é absolutamente necessária e, portanto, intencional, não gratuita, cumprindo sua função de dizer o que de outro modo não seria possível. É quando o erro se torna legítimo, e a exceção confirma a regra. Mas como pensar não paga imposto e poetar é gratuito, e fazendo eco à questão de gênero, achamos que algumas palavras deveriam mudar de gênero. Entre elas, mar, que não deveria ser o mar, mas a mar. De onde se fundiriam as noções de mar origem da vida e amar também. E mais: amor, sendo expressão da alma, deveria ser “almor”; e feminino, “almar”; de onde significaria: dotar de alma, voltar ao mar, a fonte da vida, e amar.

Essa viagem de gênero veio lá dos gregos, que passaram a atribuir gênero a todos os seres, animados e inanimados, quer dizer, desanimados. Lembrando que alma, animal, animar, animado têm a mesma origem. Com o tempo, confundiu-se gênero com sexo, e o negócio ficou complexo e com plexo. Já disse o filólogo que “negócio é a negação do ócio”. E lembramos que “filologia”, de onde filólogo, é “amor às letras”, i.e., às palavras. “Palavras são palavras, nada mais do que palavras”, já dizia o bordão do personagem televisivo de Dias Gomes. Para finalizar, mais este poemínimo:

grande é o mar

mais grande é amar

 

Tenho escrito.

O Texto e o Intertexto

O princípio da intertextualidade entende que todo texto é, na verdade, um intertexto, já que dialoga com textos anteriores. O termo foi criado pela filósofa e escritora húngara Julia Kristeva, e assume diversas acepções, já que designa várias modalidades de tratamento textual, entre as quais a citação, a tradução, o plágio, a paródia, a paráfrase, e assim por diante. Se é verdade que nenhum indivíduo é uma ilha, o mesmo se pode dizer de um texto. Entretanto, a aplicabilidade desse conceito fica algo aquém de sua máxima pertinência quando se trata do texto artístico. Isso porque, a nosso entender, o texto artístico, e mais especificamente o texto poético, não só dialoga com textos anteriores, mas participa da natureza de outros textos artísticos, como se dissesse a mesma coisa mas de outro modo. Não é à toa, portanto, que muito poeta, ao ler poema não de sua lavra, se sente inclinado a responder com outro poema. Por certo, o plágio, a paródia e a paráfrase, embora aqui se encontrem, nem sempre fazem jus ao texto original. Não obstante, não se pode negar que, quando se trata de textos e poemas traduzidos, há o risco (extremamente oportuno e bem-vindo) de a tradução ficar “melhor” que o original, embora na maioria das vezes fica aquém desse resultado.

Estamos pensando na tradução da obra As Flores do Mal, do poeta simbolista francês Charles Baudelaire, pelo também poeta modernista e acadêmico, brasileiro, Guilherme de Almeida. Quando a intertextualidade da tradução alcança esse efeito de igualar e, mesmo, “superar” o original, isso se deve sobremaneira à poeticidade do próprio tradutor, como se a reproduzir ou sobrepujar o original pela “recriação” do original. Toda tradução, na verdade, é a busca de uma “transcriação”, é, em última instância, uma leitura. Lembramo-nos aqui do texto de Jorge Luis Borges, “Pierre Menard, o autor do Quixote”, em referência à obra de Cervantes. Entre as questões que então se levantam está a da autoria e da coautoria de uma obra, podendo-se aqui recuperar a tese da leitura criativa e da apropriação de um texto; e acrescentamos, em coerência a essa visão, que todo autor é, na verdade, coautor de si mesmo, quiçá o leitor mais gabaritado do texto “original”. O escritor Umberto Eco chega a afirmar que, escrita a obra, todo autor deveria se suicidar, para não impedir a leitura. E chegamos mesmo a nos lembrar do que teria afirmado um escritor curitibano, ao ler uma tese de doutorado sobre sua obra: “você é muito melhor leitora de minha obra do que eu sou autor dela”. Cite-se, ainda, o cronista Fernando Sabino que, em palestra, teria respondido que não percebera que tinha escrito o que a interlocutora mencionara. Essas questões têm repercussão em duas outras que surgem em sala de aula: o que o autor quis dizer com isso? Será que ele pensou nisso?

À primeira pergunta, Paulo Leminski respondeu algo irritado: eu não quis dizer: eu disse! À segunda pergunta, cabe responder que o texto artístico incorpora elementos que não estavam presentes no momento de sua produção e dialoga com outras temporalidades, relegando a questão a segundo plano, levando-nos a concluir que, publicada a obra, em última edição, o autor não pode autorizar nem desautorizar qualquer leitura potencial, desde que isso incumbe ao próprio texto, e não a quem o enunciou. Finalizando, recaindo hoje a tônica mais na leitura do que na autoria, pode-se postular existirem três instâncias do texto: a) o que o autor quis dizer; b) o que de fato disse; c) o que o leitor entende. Essas três instâncias nem sempre se processam à supostamente pretendida perfeição. Per fas et nefas.

Oralidade e moralidade

A moral é um conjunto de princípios legitimados pela sociedade e que, em tese, devem nortear o comportamento dos indivíduos que a integram. Nem sempre explícito ou explicitado, o princípio norteador às vezes se torna obsoleto, ultrapassado, e o que era aceito deixa de ser. A moral se confunde com a ética, nem sempre de fácil distinção. Moral vem do latim, moralis/morus, e indicava simplesmente costume. Já ética vem do grego, ethos, e diz mais respeito a uma atitude que se tem, em primeiro lugar, para consigo mesmo e, por consequência, para o coletivo. De onde se inferir que moral tem mais a ver com a aparência; ética, com essência. Moral, ligada aos tabus, refletem as máscaras sociais; ética, atrelada a valores que se pretendem e pretendam perenes.

 

De onde lermos dentro do adjetivo/substantivo moral o adjetivo oral, e encontrarmos na relação entre oralidade e moralidade nosso tema de hoje, desde que nosso país tem se tornado o que outrem já dissera, o país da mordaça, que criminaliza mesmo a própria expressão oral que, em tese, deveria constituir um dos pilares da democracia. E isso afirmamos não sem certo desconforto, pois o peixe morre pela boca e os da lavra pela palavra. Pelo menos é o que se tem visto na e pela mídia, explicitamente, os meios de comunicação. Cuidado com que opinas, tuas palavras assassinas, podem cometer chacinas, é o que eu diria se… se… se… sei lá o quê.

 

Mas confesso desde já que não tenho vocação pra mártir, talvez só pra Marte e, supremo, morte, de sorte que, se me faltar arte, que me leve, misericordioso, leve enfarte. Indelével… de leve.

 

Outro dia fomos alertados para o significado do verso de Fernando Pessoa, “navegar é preciso, viver não é preciso”. Meu interlocutor fazia ver que preciso, aqui, não deve ser lido como verbo, mas como adjetivo, o que traduz o verso em “navegar é exato, viver não”. (Obrigado, Professor Marcelo.)

Citamos isso para introduzir o pensamento de que a oralidade, como um primeiro reduto da moralidade, tem sido objeto de abjetas transformações e acolhido diletas formações. Pelo menos no tocante à sexualidade a oralidade corre solta, e quem quiser ler esta frase mesma com a conotação sexual vigente se sinta à vontade. (Curiosamente, quando estávamos digitando “um primeiro reduto”, cremos ter quase cometido um ato falho, pois estava saindo “redutor”. Psicologismos…)

 

Ocorre que a tal moralidade tem um tanto de hipocrisia, teria dito um não hipócrita. A ética, por definição, não. Em tempos do politicamente correto, e muita vez chato, o próprio advérbio “politicamente” contamina o adjetivo “correto”. Outro dia ouvimos na televisão uma escolinha infantil que ensinava às crianças o “politicamente correto”. Aquela gentinha linda cantava, inocente, “eu não atirei o pau no gato”. A bem intencionada professorinha não percebia que, ao acrescentar o advérbio não à inconsequente cantiga infantil, tornava regra a exceção. Como se fosse necessário você afirmar que, pelo menos naquele dia, você não cometeu mal algum. Nem oral, nem moral.

Quem quiser ver a hilária ilustração, visite o site:

 

https://lojagatamia.com.br/plaquinha-mdf-surtei-e-atirei-o-pau-na-dona-chica.html

siglas

SIGLAS

Certas siglas, pela constância do uso, acabam adquirindo certa independência morfológica dentro da linguagem e, com isso, maior proeminência que aquilo que designam. É de citar os casos das universidades UNICAMP, USP, UFSC e UFRJ, dentre outras. Aqui também se enquadram, por mera observação empírica, a UFPR e, obviamente, a UTFPR, assim como era também o caso do antigo CEFET. Aqui também se encaixam: ONU, OTAN, FGTS, INSS, IRF, COPEL, CPF, CEP, FUNAI, PIB, TRE. Por serem abreviativas, acabam adquirindo precedência e, pois, preferência no uso linguístico do dia a dia.

Elas facilitam a comunicação, e nem sempre é fácil de lhes recuperar a própria designação que lhes deu origem e, diga-se de passagem, isso só constitui entrave quando se necessita saber o que designam. É o caso de CAPES, SUDENE, ANVISA, ANAC.

As siglas, porém, não se confundem com abreviaturas. Estas são reduções e possuem características específicas, dentre as quais o fato de que nem sempre essa redução gráfica acarretar redução fônica, o principal exemplo dos quais é “etc”.

O uso linguístico atual tem dispensado o uso de pontos, e isso é especialmente aplicável a siglas longas, e já se admite que estas sejam grafadas com maiúscula apenas a inicial: Bovespa, Embratel, Fgts, Ufrj, Anvisa, Capes, etc.

Mas o caso mais significativo de uma sigla que adquiriu independência morfológica e, pois, legitimidade de vocábulo, é, parece-nos, ibope, originalmente sigla que indica Instituto Brasileiro de Opinião Pública e Estatística. Passou a integrar expressões como: isso não dá ibope; aquele programa de tv tem ibope alto, sendo, aqui e ali, substituído pelo substantivo não matizado “audiência”.

flexão de gênero e número

Aconselha-se prestar atenção à designação original para saber se se trata de masculino ou feminino. Assim, por exemplo, é “a” DOPS, e não “o” DOPS, já que se trata de Delegacia da Ordem Política e Social; “a” CEASA (Central), “o” Unicef (Fundo) e, rigorosamente, “a” DDD (discagem)

 

 

GPS

Quase não mais se dá conta de que Senai significa Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial, Senac, Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial, etc.

Finalizando, a abreviatura “etc.”, do latim “et cetera”, significa “e outras coisas”. Não deveria, portanto, vir precedida de vírgula; entretanto vem, por força da tradição do uso.

 

Em tempo, o substantivo composto dia a dia não mais se escreve com hífen, segundo o acordo ortográfico vigente. Vige… vigi… víxi…

parecer para ser

parecer para ser – ou finja até que atinja

 

A língua inglesa tem um bordão que diz: fake it untill you make it. O significado é “faça de conta que a coisa é isso até que a “coisa” se torne isso”, ou finja que a coisa é real até que ela se torne real. Para preservar a concisão e a rima, propomos a tradução: finja até que atinja. Isso, mesmo a despeito da possível conotação sexual que se possa daí depreender, vindo em nosso auxílio um dito que amigo me enviou pela internet: eu posso controlar aquilo que eu escrevo, mas não aquilo que você entende com o que eu escrevo. Asserção que tem sua máxima aplicabilidade em se tratando de texto artístico, e menor em textos acadêmicos, já que estes devem primar pela minimização da possibilidade de subtextos e, pois, subleituras.

Mas interessa-nos aqui a ideia que tem admitido a Física, da possibilidade e/ou probabilidade da reversão da causalidade, em que há ou haveria no universo circunstâncias em que seria subvertida a sequencia temporal, e o presente poderia ter influência do futuro. Essa noção é mais fácil de assimilar por quem de condicionamento cultural do oriente, que privilegia mais o sujeito que o objeto, algo como se, ao contrário de nós ocidentais, dissesse ser necessário, não ver para crer, mas crer para ver.

Contudo, mesmo no domínio da ciência e tecnologia, já se começa a trabalhar com a constatação de que os paradigmas até então válidos podem ser quebrados. A física quântica admite que dois corpos podem ocupar o mesmo espaço ao mesmo tempo e um mesmo corpo estar em dois lugares ao mesmo tempo, concepções que, diria o inglês, são mind boggling. Efetivamente, a pretensa segurança do legitimado ceticismo com que se encaram certas possibilidades até então consideradas impossíveis ou inusitadas deve dar lugar a uma prudente expectativa de que o maravilhoso tem sua plausibilidade. A hipótese é de que nem tudo está previsto ou predeterminado. Tem-se imposto cada vez mais a necessidade de revogar parcialmente um dos sustentáculos da civilização, a de que esta nos garante a segurança de nossas convicções. Se é verdade como teria afirmado Einstein que tudo o que é possível acontecer, acontece no universo, não seria ocioso ao menos supor a possibilidade de o futuro influenciar o presente. Como disse Osho: seja realista: acredite em milagres. De onde a esperança de que, neste multiverso imponderável e empoderável, tudo-nada está (pre)determinado.

A necessidade de acreditar, outro modo de não perder a esperança derradeira que última falece, às vezes é tudo o que resta, antes do final rest in peace. Crer para ver, ver para ser, pare-ser, parecer.