Corriquindo Egívocos

CORRIQUINDO EGÍVOCOS
Nunca é tarde para mudar. E a esse verdadeiro bordão da oposição à permanência, a tentação é retrucar: nunca é cedo para tardar. Como já dizia a tirada humorística do impagável Grouxo Marx: “eu jamais entraria para um clube que me aceitasse como sócio”. Chamar de tirada humorística em referência a esse extraordinário representante do povo mosaico, é pleonástica redundância, com o perdão da redondância. E aqui também cabe lembrar outra tirada tirada não sei de quem, a respeito do trabalho: trabalhar pra quê…, pra sustentar um pobre vagabundo como eu que não quer nada com o trabalho?
1º de Maio, Dia do Trabalho ou do trabalhador? Mas dia do trabalhador não seriam e são todos os dias? E a tentação é imaginar um trabalhador sem muitos recursos intelectuais achando que, em primeiro de maio, eu não maio. Nos outros dias de trabaio, só quano dismaio, diz maio. Até eu publicar este texto, não sei se vou publicar este texto. Seja como for…
lembramos a afirmação equivocada de um matuto brasileiro a quem foi confiada a liderança de um grupo de aspirantes a chaman, shaman e xamã, nas grafias espanhola (original do chileno que deu à luz a organização andina), americana, que serve de norte à adoção de termos e usos linguísticos, e portuguesa (de direito portuguesa, mas fato brasileira, desde que a maioria dos integrantes daquela organização é constituída de lusitanos brasileiros e nenhum lusitano lusitano). A afirmação equivocada, algo poetificada pela pronúncia e grafia daquela nacionalidade, asseverava que o substantivo espanhol “trabajo” vem de “traer abajo”, i.e., “trazer abaixo”. A ideia é de que o trabalho “xamânico” vem do alto, se realiza por isso. A ideia de manifestação aí implícita não é de todo inadmissível se aceitarmos a ótica do animismo como a mais antiga expressão da índole religiosa da natureza humana ainda não contaminada pela civilização e, portanto, natural. Na ocasião, não nos pudemos manifestar dado o contexto em que a afirmação era feita. Semanas depois, ante a retomada da falsa etimologia em diferente circunstância, pudemos referir que trabalho vem de tripalium, instrumento de tortura da antiguidade, constituído de três paus, dois formando uma cruz, um “X”, pregado sobre o terceiro fincado no chão. O relato bíblico menciona a morte de Pedro no tripalium, e cabe ainda lembrar que originalmente o trabalho era amaldiçoado, conforme o Gênesis, um verdadeiro castigo sentenciado como punição em acréscimo à expulsão do Jardim do Éden.
Corrigido o equívoco, inocente equívoco, desconheço o efeito exercido ou a exercer (se houve ou houver) no líder do grupo que tão somente repetia o que ouvira de instância a ele superior em termos da hierarquia interna daquela organização andina. E, em homenagem ao dia do trabalho, ou do trabalhador, iminente e eminente, é de se recomendar que os que me lerem se deem ao trabalho de visitar o dicionário, e verificar, entre outros, de que modo se imbricam ideia, ideal e ideologia. Conselhos, se fossem bons…

A Lua e a Rua

a rua e a lua
Abrimos este texto com um singelo poemínimo:

Solidão
Em noite de prata
na rua, fitando a lua
uiva o vira-lata.

Esse haicai, poema de origem nipônica aqui submetido às formulações do poeta modernista Guilherme de Almeida, relaciona um dos mais profundos sentimentos com uma das imagens mais significativas, ambos explorados pelo Romantismo, escola de índole subjetivista que tinha seu alicerce na mais pura e intensa expressão das emoções. Assim, os românticos cultuavam a noite e a lua como símbolo de transcendência do eu para o outro, do sujeito amoroso para o objeto de amor, quase nunca consumado e, pois, sempre à espera… espera… espera… Assim é que também servia à corporificação da imorredoura nostalgia do paraíso perdido, tema ao qual dedicaram especial interesse escritores e poetas da estirpe de John Milton, e que freudianos traduzem como experiência oceânica da unidade, e outros lhe conferem outros nomes: shangri-lá, horizonte perdido, utopia, neologismo criado pelo filósofo inglês Thomas Moore, denotando lugar que não existe (ut, inexistente; topos, lugar), Nova Atlântida, do filósofo Francis Bacon, A Ilha, de Aldoux Husley, com a utopia “A Ilha” e a distopia “Admirável mundo novo”, e assim por diante.
O poema-epígrafe que abre este artigo dialoga com este, de Cassiano Ricardo:

Serenata sintética
Rua
torta.
Lua
morta.
Tua
porta.

De onde também ganha importância a imagem visual do poema, já que a própria disposição das palavras na página sugere a tortuosidade da pequena rua, e os fonemas “t” e “r” são a imagem sonora dos passos dados na pequena rua calçada no caminho e caminhada até a casa da pessoa amada.

Quase misteriosamente, a lua exerce sua influência no comportamento humano, e animais parece não ficarem imunes a ela, a lembrarmos da implícita figura do lobo solitário e dos arroubos românticos e do culto à noite e dos proverbiais lunáticos etc., adjetivo derivado de lunae, luna, lua.

Mas a contraposição rua/lua não se deve tão somente à proximidade fônica e gráfica entre ambas, ou seja, escrita e pronúncia, rima. Visualmente, a relação entre a lua e a rua é um círculo flutuando por sobre uma linha, esta ainda representativa da linha do horizonte. Em recuo suficiente, o círculo torna-se um ponto, que, flutuando no vazio acima da linha, conforma no plano um triângulo com vértice pra cima e, se lhe acrescentarmos as outras dimensões, teremos uma pirâmide.
E na pirâmide temos a representação do escalonamento social, do determinismo cultural e demais influências e paradigmas vindos do alto e reverberando nas camadas mais baixas. Ditaduras unigênitas verticais que antes fertilizavam impositivamente o amplo solo das gramíneas humanas hoje precisam se render à inevitável evidência do sentido reverso, em que a rua fala e faz mais o que quer e menos o que desquer.

Se antes se podia valorizar a imaginada e almejada luminosidade dos páramos utópicos, hoje se pode concluir por uma gênese reversa, em que o efeito precede a causa e o que era virtual se torna cada vez mais real.

Pois é, poesia…

Os aliados não existem

Em meus textos aqui publicados, tenho procurado lhes conferir títulos provocantes que, conquanto nem sempre apontem para verdades incontestes, indicam caminhos da submissão a aprovação ou não de vários e variados testes. Para tanto, não nos furtamos à tentação de lançar mão de recursos linguísticos aqui e ali metatextuais, como o chiste, o trocadilho, jogos de palavra e jogos de espírito, e recursos fonéticos e fonológicos como rimas, aliterações, assonâncias, mesmo expondo-nos ao risco de arriscar a credibilidade de nosso texto. Isso deixamos à costumeira sisudez dos textos acadêmicos, empreitada que temos de enfrentar em nossa luta e labuta cotidiana, como profissional das letras e artes, na oscilação entre a forma e a norma. Recorremos, ainda, à criação de (neo)logismos, com “neo” entre parênteses a satisfazermos quem nos queira acusar de redundantes já que, aborrecidamente, “neo”, por significar novo, não admitiria o verbo criar. Afirmação algoz não isenta de algo de pedante autoafirmação. Seja-nos, pois, isso desculpado.
Assim, ao intitularmos este texto com: Os aliados não existem, estamos, em verdade, partindo da máxima cartesiana, “Cogito, ergo sum”, que, não obstante a comum tradução, “Penso, logo existo”, tem merecido a tradução mais adequada “Penso, logo sou”, sendo de rigor a distinção entre o manifesto existir e o virtual ser.
Assim é que nos sentimos autorizados a afirmar que os aliados não existem, não sem antes atentarmos para o necessário adendo: os aliados não existem; os aliados são. Em outras palavras, estando a existência desatrelada da essência, pode-se afirmar que os aliados são, isto é, se constituem na relação que estabelecem com o indivíduo, e tendo, pois, alguma independência em sua atuação a partir do inconsciente.

A motivação deste artigo adveio da dúvida que alguém manifestara sobre a existência dos aliados, em post que dizia, mais ou menos, “aqui está a prova de que os aliados existem”. Fiquei interessado pela necessidade de autoconvencimento da moça de quem procedia o referido post, e decidi escrever esta matéria e intitulá-la como o fiz, não obstante a não muito agradável suposição de que o título lembra o bordão de conhecido “parapsicólogo” de forte sotaque espanhol que a mídia televisiva ressuscitara dos insaudosos e insalubres idos da década de mil novecentos e…, desculpem-me, você tenta.

Os aliados, aqui, referem-se à denominação que expressões cosmogônicas e cosmológicas conferem às manifestações da constituição psicobiofísica do homem, expressões essas provenientes do xamanismo, visão de mundo de índole animista. Por hoje, aliás, aliados…

Absurdismos

ABSURDISMOS
Há absurdos tão absurdos, que são mais do que absurdos: são também abcegos e abmudos. Este absurdo, mesmo, de absurdizar o próprio substantivo absurdo. Mas o absurdo está na moda, é, mesmo, um modismo. Está tão na moda, que se poderia criar um movimento, escola, tendência à qual se daria, pertinentemente, o nome de Absurdismo, à semelhança de tantos ismos já passadiços, passados e mal-passados. Classicismo, neoclassicismo, romantismo, realismo, modernismo, racismo, homossexualismo, taylorismo, capitalismo, terrorismo… e ismos… e ismos… e ismos… Fora os esnobismos, estrangeirismos, alcoolismos, tabagismos, bairrismos, ateísmos, teologismos, que nos obrigam, a todos, a nos submeter a verdadeiros contorcionismos verbi-voco-visuais, com o devido crédito ao que disse o Pignatary (o Décio), ele também representante de um tal-ismo, o tal concretismo, não taoísmo. Em tempo: catolicismo, islamismo, budismo, etc., que querem seus adeptos sejam, não relativismos, mas absolutismos.
Mas nesse movimento Absurdismo encaixaríamos tudo o que encaixado não se deveria encaixar: menores abandonados, abandonismo; a indústria da fome, raquitismo; os irremediáveis remédios, a política etílica e sem ética, os inominados que têm nome porém são inomináveis e, pois, abomináveis, os nordestes destes que não me destes, sem chuva, uva nem luva, as estatísticas estáticas não extáticas, e tantas outras práticas que por ética não deveriam ser postas em prática.
Desse Absurdismo estariam ausentes verbalismos, linguismos, logismos e neologismos, misticismos e espiritualismos, tudo o que contribuísse para o disse-me-disse, não-disse me disse, mas disse. O dissídio entre a palavra e a lavra e a lavra e a larva. Ora direis ouvir… Melhor que ouvir é ouver, não ouvir ou ver. Ambos os dois conjuntamente juntos mutuamente unidos numa unidade de um só. Ora, pois. Ouvir estrelas… melhor ouvê-las, com o perdão do Bilac (o Olavo oliva).

Só com toda essa (e quisera mais que mera quimera) transgressão verbal talvez se possa insinuar o que nem à mente amente se insinua: o absurdo do absurdo que, talvez por isso mesmo, o desabsurdiza, id est, Reductio ad absurdum. Rest in peace, requiescat in pace, descansa em paz, meu rapaz. O que me lembra um poemínimo contestador, em homenagem a alguém que nem menção merece: posso dizer o que eu acho, meu rapaz: és capacho, não capaz. E quem o queira aplicar a quem não o queira, sinta-se autorizado. Deveras…
E aqui desfilam filiações, filias, iron men e ironias. Dinheiro na cueca, 51 milhões apartados em apertado apartamento, pasta só com um mísero 1% um por cento dessa cifra indecifrável, “eu não sabia que não saber não me isenta da pena de não saber”, o verdadeiro poder se refugia numa instância superior quando se lhe questionam ditos e ditames, personagens se despersonalizam por imersão num limbo amorfo de uma espécie de Personalidade Suprema, poder, enfim, que ante a inexorabilidade da morte pretende, sem poder superá-la, surpresá-la. Tanto barulho que deixou surdo o bagulho. Por hoje, arrulho.

Virtual x real

Virtual x real
Outro dia um aluno, interessado em ampliar sua compreensão a respeito do que é virtual, me perguntou se um anjo é virtual. Pergunta inesperada, exigia reflexão. Entregando-me ao fluxo do pensamento, fui lhe respondendo à medida do que me vinha à mente. Primeiro é preciso compreender que o virtual, por definição, é potencial, passível de vir a se manifestar fisicamente, de ganhar concretude real. Pense na relação entre a virtualidade da palavra e a realidade da coisa por ela nomeada. O significado é virtual, o objeto é real. Do mesmo modo, uma cédula monetária é real; o valor, virtual. A cédula é um título de crédito ao portador, e tem seu valor determinado pelas relações de troca: hoje vale tanto, amanhã nem isso. Se dólar, mais ou menos.
A relação entre o virtual e o real recupera as preocupações dos filósofos entre ato x potência, o caminho entre a virtualidade da palavra e a coisa concreta, valor de troca x valor de venda, significante x significado, a abstração de conceitos como o de poesia versus sua objetificação num poema, a doença x o doente, língua x fala, etc., etc.
Mas retomando a pergunta que originou esta reflexão, se um anjo é virtual, respondi ao aluno: se existem, de fato, os anjos, o que se nos parece ser possível apenas numa dimensão imaterial, incorpórea, etérea, espiritual, enfim, eles serão, por necessidade de sua natureza, reais. E a inexorável conclusão é a de que apenas não os percebemos, pelo menos não com as costumeiras faculdades sensoriais. E deveríamos ver com alguma admissão de verdade as afirmações daqueles que afirmam poderem vê-los. De onde, também, supormos que, analogamente aos demais sentidos, possivelmente se trata de uma faculdade cada vez mais presente entre as comuns faculdades sensoriais da maioria das pessoas. Assim, em os anjos existindo, para aqueles que dizem percebê-los (e aqui estamos supondo que de fato os percebem), os anjos são reais; para todos os demais, são e estão virtuais, havendo, pois, a possibilidade de deixar de sê-lo, quando (e se…) os perceberem.
E aqui cabe propor a existência de graus de virtualidade, já que se pode admitir a maior ou menor proximidade entre as duas esferas: virtual e real. Estamos pensando, por exemplo, na relação entre o valor de uma moeda virtual versus o valor de uma moeda de papel. A concretude desta última não lhe garante maior valor, virtual, que a virtualidade da primeira. Assim, também, cabe postular que uma emoção é mais virtual que uma sensação, que uma lei é mais virtual que sua aplicação, que uma intenção é virtual e sua concretização a retira dessa condição, que um pecado se dá por pensamento, palavras e obras, que uma injúria pode se tornar um crime, que uma palavra encerra significados virtuais em via de se tornarem menos virtuais, que a vontade é a potencialidade das potencialidade, e assim por diante, que querer fazer é uma vontade em busca de uma manifestação concreta, física, etc., etc.
Finalizando, não obstante a crença de que tudo se resume a crenças, cremos existir apenas uma não-crença: a de que existimos.
Por hoje, cartesianamente, cogito ergo sum, i.e., penso, logo existo; hoje, penso… logo… existo…

Democracia

DEMOCRACIA: GOVERNO DO DEMO
Espero que quem leia o título desta matéria nele não se detenha, e vá um pouco além. Conceda-me o beneplácito de transgressora liberdade de expressão, não tomando o incerto pelo certo e não creia que creio estar correto ao tomar, jocosamente, “demo” – povo, por “demo” – demônio. Não se tome também nosso texto como postura política desta ou daquela vertente, já que, e antes de mais nada, parafraseando o poeta, “minha pátria é minha língua” e também que “pátria”, sendo a Mãe, deveria ser Mátria. Esquerda ou direita ou centro ou dentro ou fora, afora e aforas.
Alguém já disse que a democracia é um ideal a ser buscado, sempre. Entre a concretude da prática (“pátrica”) e a solitude da gramática, subjaz a grama e o grama, o deletável e o deleitável. Não é, pois, tão a esmo que se insurgem uns tantos e quantos se revelam e rebelam. Verdades e inverdades pulam e pululam num calidoscópio que deixa entrever algum protagonismo a assumir a própria assunção. Presunção. Que será, será: Doris Day e dores night, dizia opiosa canção americânica da copiosa década do pós-guerra. Detestados unidos; alguns teriam, talvez, preferido estados punidos. Já o tivemos, não o fizemos. Sem rancores nas nossas cores, dores e amores. Se a arte é a busca do controle do acaso, o acaso mais casual é o que está acontecendo no exato momento em que você está se acontecendo. O significado, afinal, somos cada um de nós a cada e todo instante em que nós nos significamos, e ficamos. Oportunidades iguais… aos desiguais. Já disse o humorista: alguns são mais iguais que os outros. Ficamos imaginando em que medida (e se…) a afirmação da igualdade, no plano verbal, não contribui, exatamente, para acentuar a alteridade. Se aqui cabe recuperar em parte a tese de Sapir e Whorf sobre a influência da palavra sobre o pensamento, talvez também caiba supor que há um limbo amorfo que precede os dualismos pensamento-palavra, palavra-coisa, coisa-dogma do objeto.
Finalizando esse caos verbal, diga-se, por hoje é com-fusão de-mais.

Aliados negativos

OS ALIADOS NEGATIVOS

A sexualidade é uma experiência tão intensa para o gênero humano, que a natureza torna sua expressão quase compulsória e inexorável. Isso em consonância com o primado do corpo sobre o saldo restante da expressão integral da totalidade psicofísica do homem. É inegável que a importância que a natureza determina para essa função instintiva é de tal monta, que se se lhe pode atribuir o máximo grau de compulsoriedade a que se está sujeito pela mera condição de existir.
Isso posto, não seria de todo inexato estabelecer conexões entre essa e outras funções vitais psicossomáticas, na pressuposição de que a compartimentalização e/ou segmentação da totalidade do indivíduo carrega em si mesma algum grau de arbitrariedade.
Efetivamente, se entendermos, com Kant, Peirce e outros, que tudo é representação, e, com a Dra. Marie Louise Von Franz, que as chamadas “projeções” também se aplicam aos objetos inanimados, maior razão teremos em considerar os chamados “aliados” como representações de nossa natureza instintiva, animal, primitiva. Essas representações, obviamente, manipuladas pela cultura moderna, em contraposição às culturas ditas primitivas, sofrem a interferência da sociedade “moderna”. Aspas em “moderna” porque, não obstante os avanços tecnológicos, pouca evolução tem sido efetivada na consciência e personalidade do indivíduo contemporâneo. Essa introdução porque pretendemos tecer algumas considerações sobre tendências de índole xamânica e, portanto, animistas, que veem nessas manifestações do inconsciente, não representações de nossa natureza instintiva, mas realizações concretas de animais reais e, também, míticos. Quando entramos em contato com algum animal, seja mediante contato real, por meio de imagem, fotos, etc, e a imagem deste fica impregnada em nossa mente, é porque ele tem um significado especial para nós. O significado, porém, se mescla aos significados atribuídos pela cultura, e com esta interage.
Sucinta e genericamente, essas representações são simbólicas de nossa constituição biopsíquica. E aqui estão em jogo nossas crenças que, a despeito de como as encaremos – se como crenças ou como verdades -, terão sua legitimidade à medida que influenciam e influenciem nossa vida. Aqui é de lembrar o psicólogo Carl Gustav Jung, que assevera não importar se a informação provém da realidade ou de nossa imaginação, pois somos afetados do mesmo jeito. É de lembrar ainda Osho, que, respondendo a um discípulo, afirma ser importante o efeito que a crença neste produz. E, para arrematar, a Ordem Rosacruz: Não importa se você crê ou não crê, pois isso em nada afeta a natureza dos fatos.
Considerações à parte, pretendemos tecer algumas considerações sobre os aliados ditos negativos, assunto que tem passado ao longe das análises de tantos quantos se detêm no tema. É no mínimo curiosa, para não dizer paradoxal ou irônica, a denominação “aliados negativos”. A própria acepção de aliado rejeita o qualificativo de negativo, e aqui talvez coubesse pesquisar a gênese do termo aliado, seus significados e usos ancestrais. Seja como for, lembrando Jung mais uma vez, afirma o pesquisador que, quando sonhamos com algum animal, é porque precisamos integrar qualidades desse animal em nossa personalidade consciente. E a linguagem dos sonhos é, efetivamente, um modo de entrarmos em contato com nossa natureza primitiva, i.e., com nossos aliados.
Mas sobre os aliados negativos, aqui se encontram os “animais” que a experiência primordial que todos carregamos nos ensinou a temer. Estamos nos referindo, especificamente, aos répteis.
Os répteis representam a nossa natureza mais primitiva e ancestral, de quando ainda despontavam os primeiros raios da consciência na constituição humana. Rastejantes e silenciosos, tornaram-se temidos, ameaçadores. Ademais, ligam-se ao aspecto reptiliano de nosso cérebro, e são representativos dos aspectos sombrios da psique, ao arquétipo a que Carl Jung denomina Sombra. Os répteis não são domesticáveis; são silenciosos e sorrateiros e, portanto, perigosos. Vivem à beira dos rios, e se relacionam com as estruturas reptilianas de nossa constituição cerebral. Desse modo, são inconscientemente associados aos aspectos sombrios de nossa natureza biopsíquica, e precisam ser dominados, controlados, porém não eliminados. Estão ligados ao arquétipo denominado de Sombra, pelo citado autor. Precisam ser, portanto, integrados ao consciente, tarefa que exige extrema cautela e cuidado, e sinceramente não conhecemos ninguém apto a fazê-lo. E aqui recomendamos a leitura de dois livros: “Ao Encontro da Sombra”, coletânea de artigos de vários autores junguianos, e “A sombra e o mal nos contos de fadas”, da discípula de Jung, Marie Louise von Franz.
A respeito da Sombra, Jung e Franz e inúmeros psicólogos de afiliação junguiana fazem ver que, sob a superfície da personalidade consciente, encontram-se os atributos e aspectos mais repugnantes de nossa constituição biopsíquica. Esses conteúdos, por serem rejeitados pelo convívio social, são “varridos para baixo do tapete” do consciente, sempre à espera de oportunidades de se manifestar. Quanto mais reprimidos, maior energia acumulam e, assim, conseguem burlar a censura do consciente. Suas manifestações mais imediatas e palatáveis, são verbais, na forma de chistes, bromas, ironias, sarcasmos, e tais expressões orais certamente cumprem um papel de desrepressão e, portanto, produzem limpezas catárticas que nos propiciam relacionamentos mais francos e honestos com nós mesmos. Aqui temos a cumplicidade do que Jung chama de Persona, a máscara social de que nos revestimos para encobrir os aspectos socialmente reprimidos da Sombra.
E o confronto com a Sombra é extremamente perturbador. Representações e analogias abundam na literatura mundial. Obras e personagens como o Fausto, de Goethe, Dr.Jekyll e Mr. Hyde, de Robert L. Stevenson, Dracula, de Bram Stocker, são bem representativas. Citem-se ainda a narrativa bíblica do encontro de Sananda com o Tentador no deserto, experiência que encontra paralelo com a experiência do Buda Gautama sob a árvore Bodhi antes de atingir a Iluminação.
Trata-se, portanto, de um confronto inevitável e necessário, que nos põe em contato com nossa finitude e desamparo, experiência de que nos protegemos pela desindividuação propiciada pelo grupo religioso, místico, esotérico, xamânico, etc., a que nos ligamos e liguemos. A proteção, porém, não perdura. Não é possível ficarmos todo o tempo e o tempo todo sob o pretenso manto do acobertamento cúmplice do grupo. Cedo ou tarde os véus vão sendo removidos pela inexorabilidade da dinâmica da própria autodescoberta. Felizmente, embora não a princípio. Isso porque não se deve deixar-se subjugar numa passividade amorfa. Há que se usar os atributos da Sombra como instrumentos de crescimento.

Por hoje é sol, i.e., sombra.