A sombra e os aliados negativos

A SOMBRA E OS ALIADOS NEGATIVOS
Falar em “aliados negativos” é um contrassenso (íamos dizer disparate, diz para-te). Isso porque, como adjetivo ou substantivo, indica “aquele que se liga a outro por aliança, tratado ou pacto, para defender a mesma causa ou atacar o mesmo inimigo; partidário, sequaz, cúmplice”. Essas acepções, tirâmo-las do Dicionário Houaiss, que as completa, mencionando o diacronismo (i.e., significado antigo): parente por afinidade.
Essa introdução serve de preâmbulo ao propósito de nosso presente texto ora em andamento, um pretexto, um pré-texto. Explicitamente: abordar um tema que tem passado ao largo das vistas e das penas de tantos quantos têm se dedicado ao tema aliados mas que, compreensível e compreensivamente, têm se esquivado ao que Jung trata de Arquétipo da Sombra.
Sucintamente, a Sombra é o lado obscuro de nossa personalidade total, nosso eu reprimido, a parte do eu que a civilização e a cultura constrangeram e constringiram, a religião de índole maniqueísta qualificou de demoníaco ou maligno. Neste exato momento em que escrevemos damo-nos conta de que, em maligno, subjaz magno: maligno, percepção que certamente Freud qualificaria de “lapso de linguagem” ou “chiste”. Freudismos à parte…, voltemos a Jung.
O principal discípulo do pai da psicanálise e, depois, seu principal desertor, formulou a Teoria dos Arquétipos, entre os quais o Self, a Persona e a Sombra. Nosso interesse decorre da constatação de que luz e trevas são inextricáveis. Parafraseando Jung, se nos esquivamos da sombra, somos confrontados por um sermão de domingo na TV, por nossa esposa ou pela Receita Federal. O chiste de Jung subentende a onipresença desse arquétipo em nossas labutas cotidianas, que aqui e ali consegue transparecer em meio a nossas atitudes e comportamentos reprimidos.
Em outras palavras, a Sombra congrega sentimentos e pensamentos que não aceitamos, aquilo que não queremos ser e que, por isso mesmo, projetamos, enxergamos nos outros. Como arquétipo, a Sombra é uma personificação do mal, uma representação coletiva daquilo que a cultura reprimiu e reprime, havendo, porém, uma expressão individual desse Arquétipo. Como tal, esse arquétipo se manifesta em nossos sonhos, quando a censura do consciente é posta de lado, quando rimos de algum chiste ou piada tendenciosa. Já se disse alhures que o humor é um modo que a lucidez de uns tantos desenvolveu para podermos lidar com a Sombra. Somos gratos à graça que esses tantos não nos permitiram tornarmo-nos desgraçado. Grato por hoje.

Mais poemínimos

estimulado e estimado por uma amiga, resolvi a intriga: entregar outros poemínimos. ei-los:

poematéria

o que é que o Mestre via:
a Mater ou a Matéria
quando olhava pra Maria?
=.=
meio sem jeito
bem te ajeito no meio do peito
e todo me ajeito
;-.-
a solução nem sempre está no soluço
às vezes ouço o sol
às vezes o recurso é fazer um curso de urso
=.=
todo mundo tem do mundo a vista que o mundo alcança
.-.-
o vencedor
primeiro
vence a dor
.-
Limpo da cabeça aos pés
dá cabeça aos pés
O vate vaticina: poeta – profeta
.-.-
caminhar com a amada
caminhada amada
mais nada
.-.-
falo fala
sua boquinha cabe
no abraço dos meus beijos
-.-
solidão

sob o céu de prata
na rua, fitando a lua
uiva o vira-lata
.-.-
solidão

eu na minha
você na sua
entre nós
o buraco da lua
.-.-.-
your word´s a sword
.-.-
METAPOEMA

pro poeta
toda palavra é meta
é rito
é porta aberta pro infinito…
.-.-
METAFÍSICA

voltando de onde não fui
fico no mesmo lugar a que parti
.-.
em poesia
sede breve
poetar com água poetável
só se mata de leve
.-.-
a brancura
poeta
não polua
aspire-lhe o pó
e deixe só lua
;=;=
por hoje é sol

Poemínimos

hoje resolvi oferecer uns poemínimos à degustação de quem os possa apreciar

ELOQUÊNCIA

no meu canto
tanto falo
quanto calo
porencanto

AMBIQUALDADE

somos tão ambos
cada qual
que estamos mais pra
ambigualdade

HAICAI

doente e a esmo
bate o coração do vate
mas bate assim mesmo

AUSÊNCIA

na cadeira vazia
o balanço de ontem

DRUMMONDEANDO

no meio do caminho
pedra eterniza
caminhada que não houve

DILERRIMA

expludo
ou fico mudo
quando me desiludo
de tudo?

Amor e humor/ hamor e umor

AMOR E HUMOR
Ao longo dos séculos o cristianismo católico tem demonizado o humor, em cuja vertente irreverente se dessacralizam personalidades que merecem admiração, veneração e, pois, respeito. Daí o preconceito contra a alegria, refletido em adágios como “muito riso, pouco siso”, amiúde associada a leviandade, tolice, falta de juízo. Daí também a noção de que a sisudez (de siso) é sinônimo de seriedade, quando na maioria das vezes é apenas expressão do neurótico medo de soltar as amarras a cuja tirania submetem tua liberdade, já que o riso solta, liberta, libera. Na contramão, há o adágio “rir é o melhor remédio”, o que talvez aponte para o papel terapêutico do riso, uso que tem sido introduzido no tratamento de crianças hospitalizadas. Diga-se ainda que o riso devolve a lucidez perdida, e que, ao contrário do que se é levado a crer, quanto mais desperta espiritualmente a pessoa, tanto maior humor apresentará. Sobejam exemplos dos grandes luminares da humanidade: Jesus, Buda, Osho, etc. O bom humor de Jesus é escamoteado por aqueles que se apropriaram de seus ensinamentos, com o intuito de submeter, condicionar ou, drasticamente, escravizar. Daí ter sido a alegria banida dos drásticos espaços eclesiásticos, não plásticos nem elásticos. Obviamente, cremos, a referência é ao humor solidário, não sarcástico. Exemplo do espírito humorístico de Cristo Jesus está no trocadilho que fez com o nome de Pedro. Como Pedro significa, em latim, justamente “pedra”, diz o Mestre que faria de Pedro a pedra fundamental de sua igreja. Exemplos análogos podem ser colhidos da vida de Buda e Osho. É sabido que Gautama proibia seus discípulos de fazerem milagres. Consta que um deles, em decorrência da meditação a que se entregara, começou a levitar, e Buda disse: continue meditando que isso passa. De Osho são incontáveis os exemplos registrados pelos discípulos. E aqui temos o humor em sua função de didática espiritual e espiritualizante, já que o mestre indiano inseria sempre em sua fala oportunas expressões de humor (piadas, chistes, trocadilhos…), as quais sempre vinham ao encontro de suas exposições e auxiliavam na compreensão intuitiva do que ele pretendia comunicar. E a eficiência da técnica fica confirmada no riso produzido, já que a maior prova de que alguém compreendeu um texto pela extrapolação da fria materialidade da palavra é quando consegue rir pela apreensão intuitiva e inextricável do sentido.
E assim como o amor o humor tem um mistério. Não obstante o quase atávico interesse que despertam, estão longe de ser compreendidos. E sua relação não se configura apenas na materialidade da rima, mas na matéria-prima de que se constituem, já que ambos liberam e libertam, são sagrados, transcendentes, pelo menos levam à extrapolação dos costumeiros limites a que estamos sujeitos na faina cotidiana.

Mais especificamente sobre o humor, o efeito que dele sempre se espera, o riso, é antevéspera do sagrado: primeiro vem o riso, a seguir o silêncio, e então o sagrado. O riso provoca uma espécie de higiene espiritual e nos faz transcender nossas crenças. Estamos nos referindo ao riso solidário, não ao tendencioso, embora a maior densidade deste também tenha o seu lugar. Finalmente, três obras inaugurais que discorrem sobre o humor: “O chiste e suas relações com o inconsciente”, do psicanalista Siegmund Freud, “Os humores da língua”, do linguista Sirio Possenti, e “O riso”, do filósofo francês Henri Bergson. A todos boa leitura; o bom riso fica para depois.

Carma: pode ser vendido?

CARMA, PODE SER VENDIDO?

Já se tornou proverbial afirmar que o mundo acolhe muito bem os ingênuos. A ingenuidade ou inocência, aqui tomadas como sinônimas, não é senão outra expressão para a falta de consciência. O grande lance do universo é produzir consciência; no plano humano, autoconsciência e, no plano mais amplo, a chamada consciência cósmica, que aqui grafamos em minúscula para manter graficamente a implícita relação que a última guarda com a primeira. Diga-se ainda que, no plano humano, da consciência em acepção de “percepção” decorre a consciência em acepção de “senso moral”, este ainda em desenvolvimento e, portanto, ainda não muito consolidado e generalizado, a lembrarmos que o substantivo “moral” advém de “moralis”, i.e., “relativo aos costumes”. Assim é que, sendo os costumes sócio-históricos, atrelados, portanto, ao tempo e espaço, corroboram a noção de inexistir uma moral universal, ou seja, que se possa aplicar a toda a humanidade. De onde também a asserção de que Deus é amoral (e não imoral), e nossa criatividade linguística nos leva a enxergar amor em amoral, percepção não de todo despropositada já que, como dizem cosmogonias da maioria das religiões: “Deus é amor”;       “o amor é a lei de Deus”; “é por meio do amor que Deus governa o universo”, e assim por diante. Aqui talvez devêssemos usar a chamada “maiúscula alegorizante”, a denotar a supremacia desse componente do universo, maior que a sua expressão humana. Não o fazemos por nos lembrarmos do dizer de Agostinho: “quando o homem chega ao extremo do humano, atinge o divino”; o que nos faz questionar a pertinência da expressão “amor incondicional”, algo pleonástica, a nos referirmos ao propalado “amor verdadeiro”, discussão que extrapola os limites a que ora nos cingimos e fica, pois, para outra ocasião. (En passant, ocorre-nos a contraposição “amor humano” versus “amor divino”.)

Digressões à parte, voltemos a nosso tema: carma. Contrariamente ao uso popular do termo, não se trata de castigo, punição, vingança…, mas de compensação, volta ao equilíbrio, “justiça” cósmica, etc. A expressão católico-cristã dos pecados por “pensamentos, palavras e obras” vem em nosso auxílio. A expressão seria melhor formulada em “intenções, emoções e ações”. (Lembre-se que “emoção” vem do latim “ex-movere”, i.e., “mover para fora”, ou seja, aquilo que vem de dentro e sai para fora, e “ação” é a melhor tradução para o substantivo sânscrito “carma”; grafias à parte). Efetivamente, a injunção católico-cristã pode ser tomada como pertinente ao carma e sua aquisição. Entretanto, refere-se apenas à visão negativa do carma, uma vez que aquilo de bom que acontece conosco também é carma. Há quem entenda o “carma positivo” como “darma”, e nos perguntamos em que medida a grafia e a fonética do substantivo os têm impertinentemente aproximado.

 

Esta matéria, porém, não será, talvez, senão pecado por pensamentos, palavras e obras, ou, como imodestamente o dissemos, “intenções, emoções e ações”. Pretende responder (íamos dizer, por força de ofício, “corrigir”) a equívocos que ouvimos na montanha Condor Blanco: de que pode-se vender (e, portanto, comprar) o carma; de que um simples corte de cabelo pode cortar o carma; de que o carma é tão-somente individual.

Em primeiro lugar, o carma é principalmente coletivo, i.e., atinente a grupos das mais variadas dimensões. O principal deles é a família (biológica ou de criação), a de que procedemos e a que de nós procede. Das interações entre as “intenções, emoções e ações” do grupo familiar decorrem as experiências a que o grupo e seus componentes estão sujeitos. Depreende-se disso que os carmas estão entrelaçados, e o dos pais afeta o dos filhos, e o destes se submete ao daqueles. Por amor, ambas as gerações assumem experiências recíprocas, e, contrariamente ao que se propala por aí, só o amor é caminho, não a dor. Esta advém das inadequações aos ditames daquele. Obviamente a referência não é à dor física.

Isso leva à conclusão de que o Supremo Governante não é um um supremo comerciante, nem um juiz aleatório que decide arbitrariamente o destino de seus fregueses humanos. Essa nossa irreverência tem algo de ironia e arrogância intelectual; seja-nos perdoada.

O outro equívoco foi ouvido de uns tantos presentes na montanha e que recorriam ao corte de cabelo “xamânico” (não o cabelo, mas o corte), oferecido por uma índia (ou descendente de…) que reside há anos na montanha. Confesso que aproveitei a oportunidade para me submeter à arte e técnica da cabeleireira, também para ver onde é que “o bicho pegava”, pois havia anos pensava em desbastar minhas (oh…!) madeixas. Saí não de todo insatisfeito com o corte, não com as observações “xamânicas”. Mas dei-me por satisfeito com os poucos dólares ali aplicados. Em tempo, o absurdo de que a indígena cabeleireira cortava o carma junto com o corte de cabelo foi ouvido depois do corte. Ouvi da índia “estás un poco solito, né, Adám”, o que facilmente se depreende de minhas atitudes não exatamente anticelibatárias, mas certamente gregárias.

Finalizando, lembramos a humorística asserção atribuída a Sócrates: não se preocupe: se você casar ou não casar, vai se arrepender do mesmo jeito.

Por hoje é só, pessoal – that’s all folks.

Verdade mentirosa

IGNORÂNCIA FELIZ

 

Estive recentemente na montanha Condor Blanco no sul do Chile. A organização de mesmo nome levava a efeito várias atividades que, embora qualifique de neoxamanismo, são hoje realizadas sob o epíteto “Kin Forest”, isso porque, segundo atestam alguns dos integrantes mais antigos, aquele termo sofreu ataques e achaques.

Razões à parte, em dado momento ouvíamos o sincero relato de um dos aspirantes a xamã, sincero porém equivocado. Narrava ele a história do Papai Noel, que ouvira de pitoresca e espalhafatosa personagem televisiva, cuja imagem colorida e literalmente repleta de fantasia bem se coadunava com o pitoresco relato.

 

Sucintamente, tratava-se de um caçador que sai ao encalço de um níveo urso polar e, após matá-lo, veste a branca pele demarcada pelo rubro sangue do animal. A história “xamânica” provocou suspiros em ouvintes ali presentes, em sinceras manifestações de um “insight” artificialmente provocado.

 

Confesso que no momento quase também me deixei integrar na emoção coletiva, mas meu crítico senso acadêmico me impediu. Cheguei mesmo de início a entregar minha adesão, pela lembrança da poética asserção: “verdade é o que faz bem para o seu coração”. Lembrei também da pertinente contraposição: “você quer ter razão ou quer ser feliz”?

Finda a narrativa e debandado o grupo, fui ter com o dirigente, e disse-lhe: não sei o que você vai fazer com isso, mas você precisa conhecer a verdadeira história. Contei-lhe então sobre Nicolau, personagem que a hagiografia católico-cristã o denomina São, São Nicolau. Observei-lhe ainda que o inglês contemporâneo o cognomina a figura dele decorrente de Santa Claus, em evidente redução do nome original. Expus-lhe igualmente as manipulações do marketing que reconfiguraram o cerúleo manto do personagem histórico e transformaram nas rubras vestes do personagem da mídia, para se coadunar com as tradicionais cores de famoso refrigerante.

 

Ocorreu-me então a velha questão da Filosofia: os fins justificam os meios? Estavam todos felizes (fim), em decorrência de um relato falso (meio)? Lembrei também do poeta libanês Gibran Khalil Gibran, que cria este diálogo entre dois personagens:

– Se você vir um escravo dormindo, não o acorde: ele pode estar sonhando com a liberdade.

O outro responde:

– Se você vir um escravo dormindo, acorde-o e lhe fale de liberdade.

Dei-me então conta de que era ignorância gerando ignorância, ainda que a ingenuidade da primeira corroborasse a inocência da segunda. Felicidade sim, mas a preço de uma mentira? Mentirinha branca, inconsequente, inofensiva… Lembrei também de Sathia Sai Baba, que dizia: nunca fale a verdade… (e completava…) sem amor.

Tenho ainda muitas dúvidas. A mentira ignorante mas eficiente que trouxe lampejos de felicidade. Ah…! o Fernando Pessoa que disse: se você quer enganar alguém por meio de um mensageiro, engane primeiro o mensageiro. Somos todos mensageiros? Dou-me conta de que a ignorância é péssima mensageira. Pergunto-me: será preferível uma mentira que cure a uma verdade que machuque? Não será essa mesma pergunta uma falácia, i.e., uma mentira?

Concluímos, então, que as mentiras mais verdadeiras e as verdades mais mentirosas, que mexem com nossos sonhos mais acalentados e nossos temores mais profundos, se aglutinam magistralmente naquilo que chamamos de arte, a verdadeira arte, misteriosa, intuitiva, plena.

Por hoje é só.