Com o perdão da licença poética

A arte é, por excelência, o espaço da transgressão. Essa afirmação, tão de chofre, tão taxativa, tão de início, pressupõe uma dada conceituação, primeiro, de arte; segundo, de transgressão: que arte admite qual transgressão, qual transgressão se coaduna a qual arte. A questão aqui é, de fato, o conflito ou tensão entre a norma e a forma; esta, ao se impor por necessidade inexorável de sua própria natureza, exigirá que aquela a ela se conforme, quebrando, para tanto, alguns conceitos e anacronismos. Já a primeira, por sua índole uniformizadora, olhará de soslaio os arroubos da segunda; afinal, as forças de conservação não admitem com facilidade as forças de transformação, à semelhança de uma vovozinha que torna sua vozinha um vozeirão a vociferar regras e contrarregras, já que tem a seu favor a legitimada legitimação da legítima legitimidade. (Ou nem tanto…?!) Quando sua voz é contrariada pelas exceções que se revelam adequadas e pertinentes, esconde sua contrariedade na expressão “licença poética”, como a ser forçada a se conformar, inexoravelmente, a instâncias em que “o erro é cabível” (íamos dizer: “melhor”). De fato, cabe indagar quem deve fazer concessão a quem: a forma à norma, ou esta àquela?

 

Assinale-se, não é de hoje que se busca, com algum sucesso, a distinção e/ou parentesco entre a norma e a forma, questão que se sobressai quando se trata do texto poético, em que fica, na verdade, diluída a dicotomia forma x conteúdo, contrariamente ao que se tem propalado por aqueles que só conseguem ver nas transgressões da arte um pouco mais que a (i)legitimidade da própria transgressão.

 

Se a arte é, por excelência, o espaço da transgressão, assinale-se que a referência é à transgressão tão necessária e pertinente, que, sem ela, não há arte. Obviamente, desnecessário dizer, nem toda arte é transgressora, como nem toda transgressão (verdade das verdades…) é artística. Ao afirmarmos isso, temos em mente a oposição norma x forma, em que, nas instâncias em que prevalece absoluta e inconteste a primeira, a segunda perece, ou melhor, nem chega a nascer. Em maioria, o prevalecimento da norma se justifica pelas práticas que, resistindo ao tempo, têm por isso mesmo legitimada sua razão de ser, já que servem para nortear procedimentos e condutas. Entretanto, estão aí os artistas, entre os quais os escritores e poetas, que fazem um aproveitamento estético da transgressão, i.e., da forma, e os defensores da norma veem-se na contingência de sair à cata de justificativas para a transgressão da forma, na percepção de que aqui e ali ela é melhor, constatação que levou à criação da expressão licença poética, com que se pretende justificar significados surpreendentes, que suplantam o chamado horizonte de expectativa.

 

Sendo a arte, no caso o poema, por excelência o espaço da transgressão, pode-se, por outro lado, postular que o poema é um microuniverso que determina suas próprias leis, de onde concluir-se que o “erro”, dentro do poema, é um acerto, está correto, é necessário, se veicular a (in)formação estética.

 

Vejamos, pois, alguns exemplos de transgressão. O primeiro é do poeta curitibano Paulo Leminski:

 

Haja

Hoje         p/tanto

Hontem

 

A norma ortográfica vigente determina que o advérbio ontem não seja grafado com H, hontem, forma arcaica que já vigeu no idioma e que, pelo uso, passou a ser grafado sem o h inicial. Observe-se, ainda, que todo o poema se estrutura nesse H arcaico, hoje transgressor, na inversão norma “hontem”, hoje norma “ontem”, para uma transgressão reversiva, i.e., o que ontem era norma deixou de o ser hoje, e a transgressão de hoje é uma volta à forma antiga. Desse modo, se corrigirmos esse advérbio, retirando-lhe o h, todo o poema rui (ah rui barbosa), pela falta de sua pedra-letra fundamental.  Visualmente falando, os três hhh formam uma coluna, que não se sustenta sem o “erro” ortográfico. Veja-se ainda o protesto do poeta, que assinala a presença excessiva e assoberbante do passado e a necessidade de transformação, modificação, renovação. Com efeito, o hoje é apenas um (1) em relação ao infindável número de ontens, e aqui, neste momento mesmo em que estamos redigindo este texto, damo-nos conta de que o corretor automático do Word assinala como erro a mais absoluta necessidade de pluralizarmos o advérbio ontem, aqui uma exceção. Observe-se também o tom de irritação que o poeta consegue imprimir ao poema, pelo uso do verbo haver, ecoando os bordões “haja dia”, “haja paciência”, “haja…”. Ademais, considere-se o anacronismo do h no início de palavras no português contemporâneo, desde que só atende a questões de ordem etimológica e não de fonologia, i.e., escreve-se mas não se pronuncia, ou seja, “não serve para nada”, o que confirmaria o tom de irritação com anacronismos e obsolescências do autor de “Catatau”.

 

Ainda com Leminski, este nosso lúcido discípulo zen de Bashô, registra:

 

meu probleima

só dói

quando queima

 

Não se trata, aqui, do puro e simples manuseio verbal que, ao transformar o substantivo problema em probleima, cria uma rima até então inexistente. Com probleima, o poeta problematiza essa mesma palavra, e dá, no dizer da poética contemporânea, alguma concretude ao “problema”, segundo a asserção de que o poema, mais do que convencer, quer seduzir e, mais do que seduzir, quer ser, quer se tornar o objeto nomeado, quer presentificar o objeto ausente, a nos lembrarmos de Haroldo de Campos, que assinala ser o poema autorreferencial. Assim, o neologismo “probleima” confirma a existência e resistência do problema, em diálogo com outro poema do autor de “Distraídos Venceremos”: na rua/ sem resistir/ me chamam/ volto a existir.

 

Outro exemplo que nos ocorre, não obstante o fato de ter sido enunciado originalmente em outro idioma (milenar), e em certa medida confirmar o axioma “tradutore traditore”, i.e., “tradutor: traidor”, sintetizado em “traduzir é trair”, é o que teria o Filho de Maria dito em pregação aos contemporâneos de Jerusalém: “Antes que Abraão fosse, eu sou”, ou “…existisse, eu existo”, etc. A quebra da lógica temporal, em que o presente não pode antecipar-se ao passado, leva à expectativa de que a frase fosse assim formulada: “Antes que Abraão fosse, eu era”, ou “Antes que Abraão existisse, eu existia”.

 

Todavia, os dois últimos enunciados deformam, mutilam, reduzem o significado pretendido, desde que, entrando no domínio do dogma e, pois, admitindo-se a gênese divina do mestre dos mestres, o que para nossos objetivos não vem agora ao caso, estaria ele exprimindo sua condição de eternidade, talvez melhor expressa como atemporalidade. Efetivamente, um ser eterno e que trouxesse essa consciência em sua autoconsciência, supomos, teria acesso in persona como tudo sendo agora à inexorabilidade do ontem, às evidências caleidoscópicas (o dicionário não registra esse adjetivo; deveríamos cambiar para “cambiantes”) do hoje e às virtuais possibilidades, probabilidades e concretudes do amanhã. Em outras palavras, o Logos (infeliz marca automobilística) é ontem, é hoje e é amanhã, numa mesma e presentificada presença, considerando-se a asserção de que, para um ser dessa magnitude, não existe passado nem futuro, só um eterno presente, de amplitude infinita.

 

Talvez dissesse o Bruxo do Cosme Velho: “é demasiada metafísica para um só professor”, em que, estabelecendo irônica relação entre a filosofia, ironicamente enunciada por um tenor desempregado, e a teologia, na paráfrase que faz de João, “no princípio era o verbo” (“no princípio era o dó”), talvez se antecipasse às interfaces que se podem estabelecer entre literatura, poesia, filosofia, religião.

 

Seja como for, a premissa fundamental que convém diante de um texto é a suposição de que o autor pretendeu significar, de que não sofreria de (com a permissão de Freud) afecções mentais, i.e., “não é louco”.[i]

 

.-.-

O crítico e poeta Affonso Romano de Santana, com a habitual eficiência verbal, consigna caso em que a forma serve como pretexto para o conteúdo. Com isso, traz à baila a dicotomia que o texto artístico, especificamente o poético, dissolve, obrigando à lúcida reflexão proposta por Ezra Pound de que “a forma é o conteúdo que vem à tona”, ou seja, o conteúdo que aparece.

 

O poema é sempre lúdico; quase sempre (…?) lúcido, mesmo quando se refere às maiores tragédias, não perde esse caráter. A sisudez lhe é estranha, e o solene engajamento está no poeta, não no poema. Se, como diz Foucault, “a palavra é uma violência que praticamos contra as coisas”, desde que a palavra deforma o objeto, entra em conflito com ele, mais esconde do que revela, o poema é um somatório de dizeres e desdizeres, que diz escondendo e esconde dizendo. É, como diz Ugo Friedrich, “um processo a respeito da linguagem, e não das próprias coisas”, de modo que, mesmo que mentiroso, jamais mente, e mesmo sendo sincero, sempre mente. Essa construção antitética traz, subjacente, a fetichização da linguagem, a adequada relação que se pode estabelecer entre o humor e a poesia, aquilo que se poderia exprimir com a asserção de que o poema não possui um estatuto jurídico, desde que nada prova, a não ser que, por ser autorreferencial, que se trata de poema. Assim, o texto poético seria uma espécie de ironização do fato, visto que, além de ser constituído do frio gume da palavra fria, sempre “colore a pílula”. Que-que-querelas à parte, palavras, elas à arte.

“Fica o dito pelo não dito”, mas se for o Bene dito bem dito e bendito, que fazer se não o prazer de com ele também dizer, di-ser?

 

Ele mesmo (gullar) responde: “é que só o que não se sabe é poesia”. “O poeta inventa / o que dizer / e que só / ao dizê-lo / vai saber”.

E aqui inserimos poema de nossa (pa)lavra:

 

a forma

conformada

vira norma

 

precisa, então,

ser transformada

 

 

A referência é à constante renovação que a arte vem sofrendo ao longo do tempo, na sucessão de tendências e contratendências. Vejam-se ainda estes exemplos:

 

expludo

ou fico mudo

quando me desiludo

de tudo?

 

…em que a transgressão, pelo acréscimo de um inexistente “expludo” em substituição ao gramatical “explodo”, se justifica pela necessidade da rima, a confirmar a própria explosão.

 

eloquência

 

no meu canto

tanto falo

quanto calo

porencanto

 

Aqui, o neologismo “porencanto” pretende aglutinar todos os possíveis significados, numa síntese de “porém canto”, “por encanto”, “por em canto”. Observem-se ainda as ambiguidades de “canto” (poema, música e espaço físico), “falo” (verbo e substantivo), e “calo” (idem).

Por hoje é só.

 

 

 

[i] A propósito, confira-se o que Foucault e Jung dizem a respeito. “Louco é aquele cujo discurso não é aceito” (Foucault). Jung assinala que a fala do “louco” faz sentido, sentido esse que precisa ser depreendido “de perto”, desde que, não integrando um código passível de leitura pela coletividade, os sentidos podem ser absolutamente originais e, portanto, só decifráveis mediante chaves que só seus enunciadores podem oferecer.

Condor blanco

Acabod voltar do Chile, de uma montanha perto da cidade de Pucon. Lá, todo ano, mormente de dez a fev, reúnem-se integrantes e simpatizantes de uma organização a que se deu o nome de Condor Blanco. Chamá-la de organização talvez não seja exato, já que ainda se encontra em processo formativo, com umas ramificações sem interconexões. A estas, chamam-nas escolas, com nomes bastante específicos e nada aleatórios, a exemplo de kinforest, kainapi, kaiwoman, etc.