O idioma se atolou-se

A piada é bem conhecida, mas não custa lembrá-la. Um amigo pergunta ao outro: qual é o correto: o carro se atolou ou o carro atolou-se? Responde o segundo: se foi a roda da frente, é se atolou; se foi a roda de trás, é atolou-se. Volta a perguntar o primeiro: e se foram as duas rodas?

– Aí não tem dúvida nenhuma, completa o segundo: é o carro se atolou-se.

 

De minha parte, espero não atolar-me, tanto no sentido acima, quanto no de tornar-me tolo. Isso porque a questão que proponho parecerá a ouvidos refinados cacofônica, e o é, com certeza. Como profissional das letras, sempre estou me deparando com questões interessantes. Desta vez, trata-se de legitimar uma construção que, não obstante pareça errada e apesar da cacofonia, ou seja, da desagradável sonoridade, está correta.

 

Como se trata de construção inusitada, cheguemos até ela por etapas.

 

Primeira etapa:

 

A frase interrogativa “A gente nasce poeta ou (a gente) se torna poeta?” equivale a “nasce-se poeta ou se se torna poeta?” – já que “a gente” tem função pronominal e está em lugar do índice de indeterminação do sujeito (o “se” de “nasce-se”). Observe-se a elipse de “a gente” na segunda ocorrência. Não se considerando a questão da colocação pronominal, a frase poderia ser assim construída:

 

Se nasce poeta ou se se torna poeta? – onde os dois “se(s)” de “se se torna” são, respectivamente, índice de indeterminação do sujeito e pronome do verbo pronominalizado tornar-se.

 

Vamos, então, à frase prometida:

 

Se se nasce poeta ou se se se torna poeta, é questão de somenos importância.

 

Se nasce poeta ou se se torna poeta?

 

Sem levarmos em conta a questão de que pronomes átonos não iniciam frases no idioma culto, não é necessário, parece, argumentar sobre a propriedade da construção acima. Na frase “se(1) nasce poeta ou se(1) se(2) torna poeta?”, temos que “1” é índice de indeterminação do sujeito e “2”, pronome reflexivo do verbo pronominalizado, já que o verbo, aqui, é tornar-se. Complementando a frase em questão, arrematando-lhe o sentido, poderíamos dizer:

Se nasce poeta ou se se torna poeta. Não há uma terceira opção.

 

Ora, podemos acrescentar à frase acima a conjunção condicional, e ela ficaria assim: Se(1) se(2) nasce poeta ou se(1) se(2) se(3) torna poeta, é questão de somenos importância. Aqui temos que “1” é a conjunção condicional, “2” índice de indeterminação do sujeito e “3” pronome reflexivo do verbo pronominalizado.

 

DEMONSTRAÇÕES

 

A gente nasce poeta ou a gente se(2) torna poeta – onde “a gente” está no lugar de “se(1)”, como índice de indeterminação do sujeito. A mesma frase poderia ser escrita “a pessoa nasce poeta ou a pessoa se torna poeta?” e, com elipse, “a pessoa nasce poeta ou se torna poeta?”, e, ainda, com elipse anteposta, “a pessoa nasce ou se torna poeta?”.

 

Se a pessoa nasce poeta ou se a pessoa se torna poeta, é questão de somenos importância. Substituindo o sujeito semanticamente indeterminado (porém sintaticamente não) a pessoa pelo índice de indeterminação do sujeito, teremos: Se se nasce poeta ou se se se torna poeta, frase melhor percebida nesta construção (canhestra, embora): se nasce-se poeta ou se se torna-se poeta

 

1 – Se nasce poeta ou se se torna poeta?

2 – Se se nasce poeta ou se se se torna poeta, é questão secundária.

 

Numeremos os “se(s)” de 1 e 2:

 

1 – Se(1a) nasce poeta ou se(2a) se(3a) torna poeta?

2 – Se se(1b) nasce poeta ou se(2b) se(3b) se(4b) torna poeta, é questão secundária.

 

Facilmente se demonstra a propriedade das construções acima substituindo-se (2a) e (2b), índice de indeterminação do sujeito, pelo correspondente “a gente”, deste modo:

 

3 – A gente nasce poeta ou (a gente) se torna poeta?

4 – Se a gente nasce poeta ou se (a gente) se torna poeta, é questão secundária.

 

Ante a cacofonia dos três “se(s)”, poder-se-ia argumentar que o verbo tornar-se não admitiria a indeterminação do sujeito ou que o “se” de tornar-se atua como índice de indeterminação do sujeito. E essa afirmação estaria correta no caso de o verbo estar no infinitivo, na seguinte construção: Nascer poeta ou tornar-se poeta, eis a questão.

 

CONCLUSÃO INCONCLUSA

 

Esses trejeitos linguísticos estão aí como meros cacoetes de raciocínio. Exercícios da palavra. Amém.

 

Palíndromos

PALÍNDROMOS

O palíndromo é uma brincadeira, um passatempo, uma curiosidade verbal. Sucintamente, trata-se de uma palavra ou frase que se pode ler de frente pra trás e de trás pra frente, atendendo-se à necessária ressilabação e desconsiderando a acentuação gráfica. Os menores palíndromos são palavras de duas sílabas. Exemplos: ama, ovo, ata, ele, etc. Aqui também se encontram nomes próprios, como Ana, Ada, Oto, etc. E, ainda, MATAM, METEM, REVIVER, ABRE VERBA, ATRELA O ALERTA, A DROGA DA GORDA, ALUNA ANULA, RODA A DOR, ERRO MORRE, ERRO CORRE, ERRO PORRE, ERRO FORRE, ERRO TORRE, AMA CAMA, AMA DAMA, AMA FAMA, AMA RAMA, AMAR TRAMA, etc. REVIVER, SOMAMOS, SOMÁRAMOS, MERECEREM

RESSILABAÇÃO

O palíndromo pode, por ressilabação, propiciar novos significados. Vejam-se os exemplos: SOMÁRAMOS, SOMAR AMOS, SOM ARAMOS, SOM AR AMOS. Frise-se, porém, que a ressilabação, obviamente, não é específica dos palíndromos, como se pode depreender do seguinte exemplo: sem premeditar, sempre meditar, sempre me ditar.

No que se refere à extensão, i.e., ao tamanho do palíndromo, não parece haver uma extensão limitada, já que, em tese, sempre se poderia aumentar um palíndromo por mais extenso que seja, tese que dificilmente poderá (?) ser comprovada.

Encontramos na Internet o que o próprio site faz constar como o maior palíndromo da língua portuguesa, afirmação que, como sugerido implicitamente na afirmação anterior, não resistirá a toda e qualquer contestação. Mas, indo às vacas frias, ei-lo:

 

O MAIOR PALÍNDROMO DA LÍNGUA PORTUGUESA

 

O namoro vivo da Regine Roda na bacana cabana da casa da tropa nada romana. Ele visível é, e é o novo vodu do vovô (no caso dono do casaco do anão bobo), é torto e voa, né. Nila Maíra gaga era. Se caga Cesária má. Mara viu; Ema ri; Vovó vê. A mamãe, o tio réu (que Clara leva), o Adão, Ana, o Leo, viajaram ao além à pé, e nós, de navio. Dario com Leno e Leonela tirana, esmagam-se. Mata-me, se a Leon a Mãe se opõe. Ane lê: a Cira sem Ana, já via (com a moça Lea), Iraci falar: “a Plácida Razera do azar é razão da reza por prazer”. A rica alemã baba na mão. Vão, mas é do anão o linotipo. Dezoito moços no sol Eno viu corado, revelar a saliva. Doida vovó vê Vera torta a trote. Viva ! Diva da dívida da vida vê a ema da madame à Eva. Diva da dívida da vida vive torta a trotar e vê vovô vadio da Vila Sara, leve, rodar o cu; Ivonel o sonso, com o tio Zé do pito, Nilo o anão de Samoa, voam. Ana baba; mela Acir a rezar pró paz. Era do azar é razão da reza radical. Para lá ficaria ela com a moça Iva já na mesa. Rica é Lena e se opõe a Manoela e se matam. Esmagam-se Ana Rita, Leno e Leonel. Moço irado, Ivan Edson é. E Pâmela o amará. Já Ivo (Eloá não), Adão, a velar, Alceu quer. O Ito e a mamãe, vovó viram e uivaram. A Maíra se caga. Cesar e a gaga riam. Aline não vê o trote. O bobo anão do casaco dono do saco novo, vodu do vovô Noé é ele. Visível é a namorada na porta da sacada na bacana cabana do Reni gerado vivo romano.

 

Não tivemos a necessária paciência para comprovar se se trata, mesmo, de um palíndromo completo. Quem quiser…

Mas os interesses implícitos nesse objeto verbal, i.e., todo e qualquer palíndromo, se esgotam rapidamente. O primeiro consiste em verificar se se trata, mesmo, de um palíndromo, submetendo-o à mera pragmática da mera leitura, tarefa facilitada ou dificultada pela menor ou maior extensão desse objeto verbal. Assim, por exemplo, são de fácil verificação palíndromos conhecidos: SUBI NO ÔNIBUS, SOCORRAM MARROCOS, etc, de cuja combinação resulta SOCORRAM-ME/ SUBI NO ÔNIBUS EM MARROCOS, de onde se conclui que, do acréscimo de dois ou mais palíndromos, resultam palíndromos mais extensos.

 

O segundo interesse consiste na mera comprovação da extensão do palíndromo, comprovação sintática que deve se subordinar, inexoravelmente, ao estrato semântico, de cuja combinação resulta a (in)eficácia do palíndromo. Não se trata, simplesmente, de colocar duas ou mais palavras em posição especular, ou seja, de frente pra trás e de trás pra frente. Desnecessário dizer, portanto, que, se tomarmos uma palavra qualquer, a esmo, e a escrevermos de trás pra frente, isso não constituirá necessariamente um palíndromo. Se tomarmos, por exemplo, a própria palavra palíndromo e a escrevermos de trás pra frente teremos OMORDNILAP, da qual dificilmente se extrai algum significado (talvez, em forçação de barra, “o mor dni lap”, onde “o”, artigo definido masculino singular; “mor” redução de “maior”, “dni” (…?…!), e o anglicano “lap”). Essa afirmação bastante ociosa se justifica por mera ilustração do que se pretendia comprovar.

 

Ociosidades à parte, o terceiro interesse é a determinação, percepção ou atribuição de significado(s), uma vez que alguns palíndromos apresentam várias possibilidades de leitura, i.e., vários significados potenciais, com ou sem ressilabação.

E aqui recorremos à tese de Chomsky, que esclarece ser a língua pura e simples sintaxe, sendo o semântico extralinguístico, ou seja, o significado está fora da língua. Isso dizemos porque, quando se está elaborando um palíndromo, sua significação vem a reboque da própria construção silábica, e a cada acréscimo silábico precisamos conferir-lhe o significado.

Finalmente, o quarto interesse consiste na constatação do valor estético-semântico do palíndromo, interesse ao qual se pode acrescentar a extensão, desde que quanto maior, mais significativo e estético for um palíndromo, mais perfeito (…?…) ele será.

Em suma, trata-se da soma: extensão + significado + correção verbal + valor estético = palíndromo perfeito.

Damos a seguir uns candidatos a tal pretensão, de nossa própria lavra, e tecemos alguma observação autocrítica.

AME-O POR ELE DAR-TE LETRA DE LER O POEMA

Crítica: falta de paralelismo entre as duas pessoas dos verbos amar e dar. Preposição “de” regendo o substantivo “letra”.

A DIVA ADOTARA PARA TODA A VIDA

Crítica: falta do objeto direto: “adotara o quê?” Possibilidade de ressilabação: ADOTARA x A DOTARA.

A PORTA BRECA ACERBA TROPA

Crítica: descompasso entre o popular verbo “brecar” e o adjetivo culto “acerba”.

AMA CANSADO TODAS NA CAMA

Crítica: …?…

ORA TAMIR RIMA TARO

Crítica: rebuscamento, já que Ora Tamir é uma pintora israelense de índole surrealista, informação com que nos deparamos “ao acaso”, em nossas andanças curiosas culturais internéticas.

SONSO DOTE DE TODOS NÓS

Crítica: falta de explicitação do sujeito, afinal, o que é o sonso dote de todos nós? Aceitam-se sugestões.

SÓ LUCI TRAZ ARTÍCULOS (pensamos em aplicá-lo à personagem do Charlie Schultz, Luci Van Pelt, do gibizinho Charlie Brown, Snoopy e cia. ltda.).

À GORDA REDE CALIFADO DA FILA CEDERA DROGA (possível associação Rede Poderosa x FIFA, etc.) (Poder-se-ia substituir “FILA” por “FIFA”, assim ficando: À GORDA REDE CAFIFADO DA FIFA CEDERA DROGA). (Leituras as que tu(do) a(l)turas).

ARRUME MERDA PADRE ME MURRA (Seja-me perdoada a blasfêmia, mas foi isso que as sílabas-palavras possibilitaram/determinaram. Seja-me perdoada também a estrondosa gargalhada que, quando li, desatou-se-me a rir).

ACADEMIA PAI ME DÁ CÁ (leituras abertas…)

EVA SÓ DOTE-ME DE MÉTODOS AVE (possibilidade de intercambiar eva/ave)

A IRA REME TACITA DIDATICA TEMERÁRIA; A IRA REMETA CITA DIDÁTICA TEMER ÁRIA; etc.

SAFIRA TECERA CORTE CETRO CARECE TARIFAS; SAFIRA TECERA CORTE METRO CARECE TARIFAS; SAFIRA TECERA CORTE PETRO CARECE TARIFAS; SAFIRA TECERA CORTE RETRO CARECE TARIFAS (etcetro e tar)

 

RIR É FEDERAL LAR É DE FERIR a que se pode contrapor LAR É DE FERIR RIR É FEDERAL

Deixo aos leitores as possíveis objeções, correções, melhorações, melhor ações…

ATÉ MAGRO TU OUTORGA META

A GORDA ALUNA AMA DANADA/ MÁ ANULA A DROGA

AO BATER A CARA PANACÉIA DAI É CANA PARA CARETA BOA