Números

Chamava-se Virgínia. Nos anos sessenta tinha entre 50 e 60 anos. E me amava. Eu um garotinho robusto, 3 ou 4 anos de idade. Respirava a aquietada atmosfera de uma criança abandonada aos cuidados do cuidado alheio. Orfanato. 100 ou 150 menores de primeira infância. E a Virgínia, Dona Virgínia, com a voz rouca do excesso de cigarro, transformava meus primitivos temores em segurança quando me pegava no colo. Ainda ouço sua voz.

Um dia, ainda 3 ou 4 anos de idade, fugi. Algo que me deixara triste ou revoltado. Quando vi, estava na casa da Dona Virgínia. Nem sei como achara caminho. Talvez ela mesma tivesse me levado e tomei para mim o mérito daquele meu primeiro ato de rebeldia. Segurança recuperada, no outro dia de volta ao anonimato coletivo de todos aqueles pares de olhinhos ansiosos de tudo e de todos. E a Virgínia, sempre vigilante, me compreendia, me enxergava, me amava. E eu nem sequer podia imaginar que viria um dia em que sentiria tanto a falta de ouvir sua rouca voz.